O mundo é um moinho
por Dora Nassif
Cartola escreveu “A Vida é um Moinho” para a filha. Um aviso dito com cuidado, sem grito, sem espetáculo. Não para destruir sonhos, mas para lembrar que a vida cobra, e cobra aos poucos. O moinho não dilacera de uma vez. Ele gira. Gira de novo. E quando se percebe, algo já foi moído.
A música foi feita para a sua filha, mas o bonito da arte é que cada um pode ter a sua interpretação, cada um pode senti-la à sua maneira. E essa forma desiludida com que Cartola conversa com a filha ressoa muito com o momento que estamos vivendo hoje, na minha opinião.
Talvez por isso essa música diga tanto sobre o que muita gente sente hoje em relação ao mundo. Ainda há sonho, de um mundo mais justo, de um futuro possível, de um planeta que não seja exaurido antes do tempo. Mas o caminho se revelou muito mais difícil do que parecia. Os obstáculos não diminuem com os anos, se multiplicam. E o que frustra não é a falta de aviso, mas o fato de que os avisos sempre estiveram ali. O mundo evolui, mas os obstáculos também. As redes sociais representaram um avanço enorme na democratização da informação, mas são usadas para disseminar desinformação e discursos de ódio em massa. Um deputado consegue mais de cem milhões de visualizações com uma mentira. Um passo para frente, dois para trás.
Essa desilusão é a lucidez. É entender que boa intenção não suspende consequência, que o tempo não espera amadurecimento coletivo e que certas escolhas cobram um preço que não pode mais ser adiado. O moinho segue girando.
É cansativo. Simples. Desgasta. Mas a gente continua tentando. Lutando contra instituições muito poderosas, contra mentiras muito bem faladas.
Como mulher, essa percepção ganha contornos ainda mais concretos. Uma mulher extrovertida aprende a se fechar em ambientes que não conhece. Não porque deixou de amar pessoas, encontros ou descobertas, mas porque o mundo é cruel com mulheres que confiam demais. A sociabilidade vira cálculo. A liberdade vira risco. É preciso esconder a própria essência para sobreviver.
O mesmo acontece na formação profissional. Entrar no Direito acreditando que ia salvar o mundo é quase um gesto ingênuo e bonito. Sair da faculdade entendendo que isso não vai acontecer é um luto silencioso. Não porque a justiça não importe, mas porque ela não é automática, nem recompensadora, nem garantida. O sistema resiste mais do que a nossa esperança juvenil supunha.
Nada disso, porém, significa abandonar a luta. Continuar defendendo o meio ambiente e os direitos humanos, hoje, é fazê-lo sem promessa de vitória. É lutar sabendo que talvez não se veja o resultado. Que não se salve o Brasil. Que não se salve o mundo.
E ainda assim, lutar.
Não por otimismo, mas porque há coisas que continuam sendo certas mesmo quando não oferecem garantia alguma.
Como na música de Cartola, o aviso não impede o moinho de girar. Mas diz algo essencial sobre quem escolhe permanecer inteiro enquanto ele gira.
Eu escolho permanecer inteira e eu espero que você também.
Dora Nassif – Advogada, Mestra em Direitos Humanos e Doutoranda em Ciências Jurídicas e Políticas pela Universidad Pablo de Olavide, em Sevilla.
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Gabriel Manzano Filho
15 de janeiro de 2026 1:47 pmBelíssima pensata, Doria. Mais do que chegar ao ponto desejado, valeu a luta ao longo do caminho.