Quem resiste a Trump? As cidades
por Gisele Agnelli
Há uma pergunta que se impõe diante das imagens que chegam de Minneapolis, e, cada vez mais, de outras cidades americanas: por que Donald Trump envia agentes do ICE como se fossem tropas de ocupação para centros urbanos? E por que essas mesmas cidades se tornam, quase inevitavelmente, o epicentro da resistência?
A resposta começa por um dado empírico simples e desconfortável para o trumpismo: as cidades americanas são estruturalmente democráticas. Toda área urbana com mais de meio milhão de habitantes vota majoritariamente no Partido Democrata. Não por acaso.
Há algo na densidade humana, na convivência cotidiana com a diferença, que produz valores incompatíveis com projetos autoritários. O que a direita chama pejorativamente de “woke” nada mais é do que um mínimo de humanidade política, tolerância, reconhecimento do outro, rejeição da violência como método de governo.
Como escreveu Harold Meyerson, líderes que buscam conformidade uniforme veem as cidades como uma ameaça em si mesmas. Elas são diversas por natureza. Acolhem imigrantes, concentram trabalho, produzem cultura, constroem solidariedades transversais como condição de sobrevivência coletiva. Cidades funcionam porque aprendem a conviver com a diferença. E é exatamente isso que regimes autocráticos odeiam.
Não é coincidência histórica. Budapeste nunca foi de Viktor Orbán. Istambul permanece um problema constante para Recep Tayyip Erdoğan. Londres elege há anos um prefeito trabalhista muçulmano. E, nos Estados Unidos, não há uma única grande cidade que tenha votado em Donald Trump em qualquer uma das últimas eleições presidenciais.
Mas há um elemento adicional… e profundamente americano, que ajuda a explicar a gravidade do momento atual: os Estados Unidos nunca tiveram, historicamente, um ditador. Diferentemente da América Latina ou da Europa continental, o país nunca viveu uma ruptura autoritária clássica, com tanques nas ruas, fechamento formal do Congresso ou suspensão explícita da Constituição.
Isso não é apenas um dado institucional. É um traço cultural. A sociedade americana foi moldada por um individualismo radical, por uma fé quase religiosa na ideia de que “as instituições aguentam tudo” e de que o autoritarismo é sempre um problema externo…. algo que acontece “lá fora”. O resultado é uma profunda inexperiência coletiva em reconhecer sinais precoces de autocratização.
Trump 1 foi o primeiro grande populista da história americana. Trump 2 é algo qualitativamente diferente: o primeiro autocrata em exercício, governando por meio da erosão sistemática de normas, do uso instrumental da lei e da conversão de agências do Estado em ferramentas de intimidação política. E os Estados Unidos, simplesmente, não sabem lidar com isso.
É nesse contexto que o ICE se torna peça-chave. O escândalo recente é revelador. Um memorando interno do ICE passou a autorizar agentes a entrarem em residências com base em mandados administrativos, ignorando deliberadamente o princípio constitucional básico de que somente mandados judiciais, emitidos por um juiz, permitem buscas e apreensões em domicílio. Trata-se de uma violação direta da Quarta Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que protege os cidadãos contra buscas arbitrárias do Estado.
Não é um detalhe técnico. É uma ruptura constitucional.
Mandados administrativos não passam por controle judicial independente. São emitidos pela própria autoridade executiva que executa a ação. Quando o governo trata esse instrumento como suficiente para invadir casas, o que se estabelece é um estado de exceção informal, no qual direitos permanecem escritos, mas deixam de ser garantidos.
É nesse ponto que as comparações históricas deixam de soar exageradas. O ICE não se assemelha à Gestapo apenas por estética ou retórica. Ele se aproxima estruturalmente de polícias políticas: atua seletivamente, racializa a suspeita, normaliza a ilegalidade e depende do medo como tecnologia de governo.
Trump não governa como um conservador tradicional, nem como um autoritário burocrático do século XX. Sua lógica é a do saque político: cidades não são comunidades a serem governadas, mas inimigos a serem domados. A diversidade urbana, racial, cultural, política, torna-se uma ameaça existencial a uma visão de poder baseada em monocultura, obediência e ressentimento.
Isso ajuda a explicar a resposta desumana da administração diante de assassinatos, abusos e violações cometidas contra moradores urbanos. As vítimas são desumanizadas antes mesmo da apuração. A mentira precede o fato. A força precede a lei.
As cenas de Minneapolis chocam porque desmontam uma ilusão confortável: a de que “isso não aconteceria aqui”. Prefeitos e governadores reagiram com clareza moral e política, recusando a linguagem da normalização. Disseram as coisas como elas são. E como elas são é devastador.
Durante anos, a extrema direita americana fantasiou com uma guerra racial. Muitos preferiram ignorar, tratando supremacistas e neonazistas como aberrações marginais. Eles continuam sendo minoria, mas uma minoria que venceu.
Diante de um Congresso paralisado e de uma Suprema Corte cada vez mais conivente, a defesa da Constituição parece deslocar-se para fora das instituições tradicionais. Recai, cada vez mais, sobre as cidades. Sobre quem vive nelas. Sobre quem Trump despreza.
Minneapolis talvez seja o início da resposta de um país que, pela primeira vez, precisa aprender a reconhecer e enfrentar um autocrata doméstico.
Gisele Agnelli – Socióloga com especialização em ciências políticas, graduada pela PUC-SP, pós-graduada em Marketing e em Gestão da Informação, ambos pela ESPM. Fundadora do #VoteNelas. Atualmente reside nos EUA e faz parte do Movimento de Lideranças Femininas do Partido Democrata, Hoosier Women Forward.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Anônimo
26 de janeiro de 2026 5:00 pmOuvi uma entrevista com a Gisele Agnelli na rádio CBN sobre o atual momento politico norte-americano. Agora, acabei de ler o seu texto, muito esclarecedor, abrangente, embora sucinto. A tão propalada democracia norte-americana está sendo espezinhada pelo tirano Trump e com o silêncio conivente do Congresso e da Suprema Corte de Justiça. Que a Gisele continue a nos proporcionar a leitura de outros textos tão importantes.