5 de junho de 2026

Por que a grande mídia não cobre protestos contra Trump?, por Armando Coelho

Em detrimento da soberania venezuelana, por exemplo, a Globo priorizou o sucesso tático da invasão e da inteligência americana.
Reprodução

TV Globo ignora protestos contra Trump e ações dos EUA, mantendo alinhamento com interesses norte-americanos e militares.
Imprensa ocidental neutraliza conflitos internos nos EUA, mas destaca protestos em outros países para justificar intervenções.
Crise moral e política nos EUA reflete no jornalismo corporativo, que omite protestos contra Trump e endossa narrativa oficial.

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Por que a grande mídia não cobre protestos contra Trump?

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por Armando Coelho Neto

O país sabe o que a TV Globo fez num verão passado. Ela já nasceu grande, com quase US$ 6 milhões do grupo estadunidense Time-Life. A TV Tupi do Rio foi montada com humildes US$ 300 mil. A Constituição de 1946 proibia sócios e participação nos lucros de empresas de radiodifusão. Uma CPI então criada para investigar o caso rejeitou a operação, mas a ditadura militar assinou embaixo.

  • Não é estranho a Globo ignorar os protestos que vêm ocorrendo em várias cidades dos Estados Unidos, seja contra a deportação de imigrantes ou contra a invasão da Venezuela pelos EUA, idem sequestro de Nicolás Maduro? A pergunta intrigante surgiu numa troca de mensagens pelo WhatsApp. Desse modo, as ponderações que seguem não são de autoria exclusiva desse pitaqueiro oficioso do GGN.

Fiel e grata até hoje ao grupo norte-americano e aos militares, não é de se estranhar o papel da Globo. Cobrir protesto de rua no Irã pode, e se fosse na China ou Rússia, também. Não se tem noção, por exemplo, dos protestos contra o genocídio patrocinado pelo consórcio EUA/Israel em Gaza. Ela consegue ser menos crítica do que veículos estadunidenses como The New York Times e The Washington Post.

Quem não concorre com a Globo, imita ou vive de comentar e/ou endossar seu enfoque. O resultado é que a imprensa ocidental neutraliza os conflitos internos e protestos nos EUA, mas divulga aqueles ocorridos em outros países, que podem justificar intervenções armadas dos EUA. Sob essa perspectiva, a grande mídia pavimenta a aceitação do público menos crítico para as aberrações ianques.

Já não cabe especular sobre as evasivas dos EUA para invadir países, pois já perderam a vergonha de sentir vergonha. Soft Power é coisa do passado, e num jogo aberto, Elon Musk, hoje controverso aliado de Donald Trump, foi taxativo: “Vamos dar golpe em quem quisermos! Lidem com isso”. Com as desculpas criadas e as caixas de ressonância ativadas, tornou-se público o que muitos já sabiam.

O que parecia bravata de campanha para inflamar a base converteu-se até em agressão aos próprios estadunidenses. Renee Nicole Good foi assassinada por um agente do ICE. Por conta do episódio, a Sheriff da Filadélfia, Rochelle Bilal, trata Trump como “Bandido da Casa Branca”, e ameaça de prisão os “falsos policiais” do ICE. “Polícia não usa máscaras”, diz ela, dando o tom da temperatura política.

Trump confessou a expropriação da Venezuela, quer dar o golpe no Irã, México, Cuba, Groenlândia. Mas, grande parte dos norte-americanos tem vergonha do apodrecimento do sistema político, que até impede uma mudança real. A “livre” imprensa corporativa, tanto quanto as “big techs”, faz parte desse apodrecimento. Pior: não é falha, é mesmo intencional, e o Brasil reproduz via Globo et caterva.

Em detrimento da soberania venezuelana, por exemplo, a Globo priorizou o sucesso tático da invasão e da inteligência americana. Se para Trump, Maduro era uma presa a ser caçada, a emissora adotou a versão quase como editorial. Por pouco não se nivela ao apresentador José Luiz Datena, no melhor estilo helicóptero Águia e Comandante Hamilton. Claro, seguida por outros veículos, peculiaridades à parte.

A crise moral norte-americana é fruto da decadência do capitalismo, no qual as elites financeiras precisam recorrer à deterioração social, política e moral. O mesmo processo de decomposição que afeta as elites tupiniquins. Também aqui, para manutenção de seus privilégios, sem saber o que fazer, assumem o risco de afetar a estabilidade e prejudicar (em vez de favorecer) a própria acumulação capitalista.

Está em curso o capitalismo de rapina, improdutivo, baseado na financeirização da economia, hoje responsável pela falência dos EUA. Mas é com o império falido que a elite local se identifica, por ser fruto da herança colonial e patrimonialista, que nunca teve projeto de nação, mas sim de casta. Se no passado ela se identificava com o colonizador medieval, cultua atualmente o colonizador dono das “big techs”.

Não cobrir protestos contra a tirania de Donald Trump soa até como endosso de quem compactua com o bombardeio de inocentes, ataques à soberania, com o apodrecimento social. A rigor, tal sabujice da grande mídia reflete a elite corrupta que vampiriza a nação, e que “parece ter pressa em consumir o país, mesmo que não reste nada para governar depois”, no dizer atribuído a Darcy Ribeiro.

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

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Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo.

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  1. Rui Ribeiro

    14 de janeiro de 2026 1:39 pm

    A grande mídia prefere os Democratas mas entre Democratas e Republicanos, ela prefere o capitalismo. Se o PIG mostrar os protestos contra o Trump, ela estará detonando não o Trump, mas o capitalismo. É por isso que ela enfia a cabeça na areia.

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