10 de junho de 2026

Natal mínion. Tende piedade dele, de seus presépios e presepadas, por Armando Coelho Neto

Sob o espectro do Natal das gentes, o Brasil conta com significativa parte dos apoiadores de um golpe frustrado, que sofre de uma dor cívica.
Reprodução

Luzes de Natal iluminam cidades brasileiras, mas refletem tensões sociais e críticas ao gasto público.
Natal atual é marcado por desgaste emocional, solidão e relações familiares conflituosas no Brasil.
Parte da população sofre dor cívica com desilusão política e expectativa frustrada de mudanças.

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Natal mínion. Tende piedade dele, de seus presépios e presepadas

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por Armando Coelho Neto

As luzes de Natal brilham Brasil afora. Cidades como Recife, Gramado, entre outras, são notícia, pessoas são entrevistadas por meio de perguntas que já trazem a resposta. Achou lindo? Ficou emocionado? Tudo conforme a fórmula midiática, roteiro de outros anos. A altura das árvores, a correria das compras, tudo reconfigurado para o novo Natal. A cidade de São Paulo, por exemplo, está particularmente vistosa, sob o mote de Natal Luz. Sinais de bons tempos, um quase discreto flerte ou metáfora do que tais festejos poderiam inspirar.

Muito além das luzes, dos contraditórios sentimentos decorrentes da incompletude, dos balanços do que se fez ou deixou de fazer, do querer resolver o ano nos últimos dias de um ciclo formal, há um sentimento coletivo perdido no ar. O que as pessoas foram ou deixaram de dizer, tudo é. Como diria Fernando Pessoa, “o que fui e o que não fui, tudo isso sou”. Como num pretenso fenômeno quântico, tudo acontecendo ao mesmo tempo. Na prática, tudo ocorre num mesmo lugar, numa conjuntura social, num país e suas crises. De tão tenso, a iluminação natalina, vista como o retorno à infância e/ou à cristandade, sofre reflexões políticas. Luz para uns é Natal, mas para outros é gasto de dinheiro público.

Sob outra perspectiva, o Natal que não é mais o mesmo, que já não é como antigamente, ocorre num desgaste emocional. O Natal dificilmente voltará a ser o mesmo, dentro do leque da proposta capitalista de propiciar no fim de ano a harmonia familiar e no trabalho, nem sempre bem-sucedida. Por vezes, a verdadeira confraternização ocorria muitas vezes fora de casa, entre aqueles que efetivamente participam da vida do outro. Até entre amores clandestinos, para quem o Natal precisa ser no dia 22 ou 23, e o Réveillon entre 29 e 31. No mais, para muitos, além da solidão, o final do ano fica resumido à comilança, rever e abraçar familiares chatos, a tia velha, o cunhado, aturar o chefe no churrasco, o colega traíra.

Ainda que se presuma que muitos possam viver o Natal da televisão e/ou dos filmes da Netflix, há nesse momento um contingente mais amargo do que sempre. Aqueles que vivem o amargor do noticiário, para quem a saída para o Brasil é um aeroporto qualquer do Brasil. Ir para longe, contrariando um verso de Geraldo Vandré: “A vida não mudava mudando só de lugar”. Mas existe um vasto contingente que nem com isso pode contar. No dia seguinte aos festejos, o real e palpável é o reencontro com o cotidiano, a esperança de que, com a troca de políticos, as coisas mudem.

Sob o espectro do Natal das gentes, o Brasil conta com significativa parte dos apoiadores de um golpe frustrado, que sofre de uma espécie de dor cívica. A expectativa das 72 horas reiteradamente adiadas é hoje agravada por outras feridas emocionais, muito além das penas impostas pela Suprema Corte. Supõe-se doer a perda de um suposto líder, aquele que os livraria de correr para o aeroporto, que poderia mudar a vida mudando de país. A dor civil soa mais intensa com o desencanto do pretenso mito, forte e imbroxável, que na prática foi desnudado: não é mais que um perebento frágil e covarde que se vitimiza publicamente.

No Natal que politicamente dói, o candidato a herói intrépido que subia em trio elétrico e esbravejava contra Alexandre de Moraes, na hora do vamos ver, foi reconhecido pelo que não era, e sequer teve a coragem de tirar a máscara, porque ela caiu sozinha. Frente a frente com o ministro, o “herói” sabujo humilhou-se, mostrando a alma como quem mostras suas feridas, exibe uma suspeita facada. Uma constrangedora cena muito aquém da altivez de Lula, ao ser confrontado com a Máfia da 13ª Vara Federal de Curitiba.

Não se trata de fazer comparações entre um verdadeiro homem de Estado reconhecido internacionalmente, e que tem como opositor um frouxo, na linguagem de ex-apoiadores. A rigor, o que se quer nessa conversa no GGN, é mostrar que tudo isso se converte em dor inexplicável, até certo ponto social, psicológica e politicamente explicável, mas que continua sendo dor. Um sentimento perigoso que, muito além de tornar seu Natal mais infeliz, continuará a infernizar os próximos Natais, até que o Natal possa ser realmente Natal, seja da perspectiva cristã, seja do politicamente possível. De qualquer forma, as luzes permanecem acesas. Tende piedade dos minions, de seus presépios e presepadas.

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

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Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo.

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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    24 de dezembro de 2025 6:01 pm

    A frustração, ódio, ganância por lucro, desejo de vingança e ambição doentia por poder dos bolsonaristas e pastores evangélicos que ganham dinheiro espalhando fake news nas plataformas de internet envenenou o Natal. No mundo deles não existe mais qualquer espaço para tranquilidade natalina. Alguns deles até protestam nas lojas de Havaianas, coitados…

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