4 de junho de 2026

A guerra de Trump contra a ciência e o risco imediato à saúde global

Saída da OMS, negacionismo e interesses privados desmontam décadas de cooperação e ameaçam vidas, alerta infectologista
Getty Images

O desmonte das políticas de saúde e ciência em curso nos Estados Unidos já representa uma ameaça concreta não apenas à população americana, mas ao próprio sistema de saúde global construído ao longo das últimas décadas.

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Decisões recentes do governo de Donald Trump, como a saída da Organização Mundial da Saúde (OMS), anunciada nesta quinta-feira (22), combinadas com a captura da política sanitária por interesses privados e com a disseminação deliberada de desinformação, colocam em risco programas essenciais, aprofundam desigualdades e produzem impactos diretos sobre a vida, a saúde e a morte das populações mais vulneráveis em diferentes partes do mundo.

Essa é a avaliação da infectologista e consultora internacional Luana Araújo, em entrevista à TV GGN [confira abaixo]. Com atuação reconhecida durante a CPI da Covid, Luana é mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Johns Hopkins e referência no debate público sobre ciência, saúde e políticas públicas.

“O que a gente está assistindo acontecer lá é uma tragédia com o povo americano e também com todo o processo de construção de saúde global, que já durava décadas. Eles têm tomado iniciativas que vão aumentando essa distância entre o país e o resto do mundo, inclusive no desenvolvimento científico”.

Trump, vacinas e interesses privados

Ao analisar o núcleo político responsável pelas mudanças na saúde pública dos Estados Unidos, Luana aponta o governo de Donald Trump e a atuação do secretário da Saúde, Robert F. Kennedy Jr., como centrais na disseminação de desinformação e na captura da política sanitária por interesses privados.

Não se trata, segundo ela, de um debate legítimo sobre os limites da indústria farmacêutica, mas de uma reorganização deliberada das regras do setor, com reflexos diretos sobre políticas de vacinação.

“Ele é um sujeito reconhecidamente investidor de empresas de advocacia que lucram com processos contra a indústria farmacêutica. Agora ele tem condições de mudar as regras do jogo — e é exatamente o que ele tem feito”.

Nesse contexto, a defesa do movimento antivacina deixa de ser apenas ideológica e passa a assumir um caráter claramente econômico, ancorado em interesses privados.

“Ele é um defensor do movimento antivacina porque investe nisso e tem ganhos pessoais nessa história. Pior do que isso é você ver alguém que não tem absolutamente nenhuma noção mínima de ciência ou de metodologia científica, e nem a honestidade de admitir a própria ignorância, e agir colocando a vida de outras pessoas em risco”.

A saída da OMS e o efeito imediato na saúde

Para a consultora, a decisão dos Estados Unidos de deixar a OMS, “deixando um calote de mais de 250 milhões de dólares”, representa, na prática, o desmonte de programas essenciais e produz consequências imediatas, sobretudo em países altamente dependentes da cooperação internacional em saúde.

Diferentemente de outras áreas da política pública, a saúde não tolera descontinuidade sem efeitos rápidos e mensuráveis. O desmonte científico e institucional se traduz rapidamente em sofrimento, adoecimento e mortes evitáveis, atingindo de forma mais dura as populações pobres e marginalizadas, com impactos severos em regiões como a África Subsaariana, onde os sistemas de saúde dependem fortemente do financiamento e da coordenação internacional.

“Quando sai a OMS desses lugares, quando deixa de ter braço para conduzir programas, quando deixa de ter dinheiro para levar adiante programas de tratamento de HIV para crianças e gestantes, no dia seguinte você já não tem mais”.

“Na minha área, isso tem um impacto muito direto, muito rápido e muito assertivo sobre a saúde, a vida e a morte das pessoas, sempre começando pelas mais vulneráveis. Isso é uma loucura. E quem paga é sempre aquela pessoa que mais precisa, quem paga é sempre o mais vulnerável”, explica Luana.

Desinformação como estratégia de poder

O ataque à ciência aparece, nesse contexto, como parte de um projeto consciente de desorganização do pensamento crítico e de enfraquecimento do discernimento social, criando um ambiente propício à manipulação política, esclarece a profissional da saúde.

“É uma intencionalidade de desconstrução do conhecimento. Quanto mais confusa é uma população, mais fácil é de controlá-la. A ciência é uma forma de explicar o mundo. Se você controla essa forma, fica muito mais fácil passar aquilo que você quer”, conclui Luana.

Assista ao programa completo aqui:

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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