O cão Orelha e o rasgo do véu social que encobre o gozo
por Luanda Francine
O caso do cachorro Orelha tem provocado bastante indignação, dor e revolta. Podemos pensar isso tudo com a psicanálise. A pergunta não é só “como alguém faz isso?”, mas também: que tipo de laço social torna essa violência possível — e tantas vezes quase banal, a depender do contexto e do tipo de animal?
Lacan diz que a sociedade não se sustenta só por leis e valores, mas por uma organização de gozo. E gozo não é só prazer. É uma satisfação que pode envolver excesso, dureza e até sofrimento. Algo da pulsão que os discursos tentam organizar… e esconder.
A violência contra animais toca esse ponto.
Ela não é só desvio individual. Existe um gozo socialmente consentido no uso do corpo animal: comer, explorar, testar, produzir, descartar. E os discursos de necessidade, tradição e economia fazem isso parecer normal, o que faz com que a violência deixe de aparecer como violência.
Essa naturalização começa cedo. Atiraram o pau no Orelha, como no “pau no gato” da nossa cantiga de infância, em que a violência aparece em tom lúdico, engraçado. Mas afinal, por que o animal é posto para ocupar esse lugar, sob a ideia de que ali a agressividade estaria apenas “simbolizada”?
Historicamente, os animais são colocados no lugar de descarga de gozo. São inferiorizados nos discursos para se tornarem objeto de uso. Daí o termo “animal” não ser uma mera classificação taxonômica, mas um lugar, uma vala comum para onde os sistemas de poder — comumente patriarcais — empurram os corpos sobre os quais querem gozar. Não por acaso, as leis de proteção aos animais são quase sempre tão pífias.
O laço social cria, então, zonas onde o domínio sobre os animais é autorizado, desde que isso não seja reconhecido como gozo. Quando um caso como o do Orelha aparece, esse véu falha. A violência surge nua. E o horror que sentimos revela algo recalcado: o gozo implicado na redução de um animal à condição de coisa matável. Quando esse gozo se mostra, causa angústia.
É preciso admitir: a violência deslocada aos animais ajuda a sustentar nosso modelo de laço social.
Não se trata de supor que todos gostam de violência, nem de tentar erradicar a agressividade, já que esta não é eliminável. Ela pode ser simbolizada, transformada ou recair sobre corpos tornados mais vulneráveis. A questão é: que destinos damos a ela?
Será que daremos o passo para colocar limite ao gozo de soberania, institucionalizado psiquicamente sobre aqueles que são nomeados como animais? Escolheremos seguir com os Orelhas, farejar e reinventar outra estrutura de laço social?
OBS: enquanto eu escrevia esse texto, um cão comunitário em Porto Alegre (RS) foi baleado por um policial. Outro cão, também comunitário, foi morto por tiro em Toledo (PR). E uma cachorra grávida, em Igarapava (SP), foi amarrada a um carro e arrastada por um homem de 65 anos, que dizia ser seu “dono”. Tentaram salvar os filhotes, mas não deu. Também soube de um boi que teve o crânio destruído, e, ainda vivo, pendurado pela perna e degolado. Mas isso já é outra história.
Luanda Francine é psicanalista, doutoranda em Filosofia na Universidade de Lisboa e artista visual. Coordena o Grupo de Pesquisa sobre Ética e Direitos dos Animais do Diversitas (Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos) — FFLCH/USP.
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Angeline
29 de janeiro de 2026 9:15 amO Voo do Orelha: Uma Homenagem à Inocência
Dizem que os cães não conhecem o mal, eles apenas conhecem o amor, o agora e a mão que lhes faz carinho. O Orelha era a personificação dessa pureza. Ele não entendia de maldade, de ódio ou de perversidade; ele entendia de abanar o rabo, de esperar por um olhar amigo e de viver com a gratidão que só os animais possuem.
Sua partida foi injusta, brutal e nos deixa um vazio carregado de indignação. É difícil processar como tamanha inocência foi interrompida por mãos que ainda não aprenderam o valor da vida. Mas, hoje, queremos que o barulho da nossa saudade e do nosso pedido por justiça seja maior do que a dor do silêncio que ele deixou.
Ao Orelha:
Que agora você corra por campos infinitos, onde não existe medo, nem dor, nem crueldade. Que suas orelhas fiquem atentas apenas ao som da paz e que você sinta, onde quer que esteja, o abraço coletivo de todos nós que choramos por você.
”A grandeza de uma nação e seu progresso moral podem ser julgados pela forma como seus animais são tratados.” — Mahatma Gandhi
Orelha, você não será esquecido. Sua passagem por aqui, embora interrompida pela escuridão de alguns, acendeu em nós uma luz de luta por todos aqueles que não têm voz.
Descanse em paz, amigão.