13 de junho de 2026

O cão Orelha e o rasgo do véu social que encobre o gozo, por Luanda Francine

Existe um gozo socialmente consentido no uso do corpo animal: comer, explorar, testar, produzir, descartar.
obra de Giacomo Balla

O caso do cachorro Orelha expõe a violência socialmente consentida contra animais e o gozo oculto nessa prática.
Animais são historicamente colocados como objetos de uso e sofrimento, justificando a violência por discursos sociais.
Incidentes recentes no Brasil mostram agressões graves a animais, evidenciando a falha do véu social que encobre essa violência.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

O cão Orelha e o rasgo do véu social que encobre o gozo

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por Luanda Francine

O caso do cachorro Orelha tem provocado bastante indignação, dor e revolta. Podemos pensar isso tudo com a psicanálise. A pergunta não é só “como alguém faz isso?”, mas também: que tipo de laço social torna essa violência possível — e tantas vezes quase banal, a depender do contexto e do tipo de animal?

Lacan diz que a sociedade não se sustenta só por leis e valores, mas por uma organização de gozo. E gozo não é só prazer. É uma satisfação que pode envolver excesso, dureza e até sofrimento. Algo da pulsão que os discursos tentam organizar… e esconder.

A violência contra animais toca esse ponto.

Ela não é só desvio individual. Existe um gozo socialmente consentido no uso do corpo animal: comer, explorar, testar, produzir, descartar. E os discursos de necessidade, tradição e economia fazem isso parecer normal, o que faz com que a violência deixe de aparecer como violência.

Essa naturalização começa cedo. Atiraram o pau no Orelha, como no “pau no gato” da nossa cantiga de infância, em que a violência aparece em tom lúdico, engraçado. Mas afinal, por que o animal é posto para ocupar esse lugar, sob a ideia de que ali a agressividade estaria apenas “simbolizada”?

Historicamente, os animais são colocados no lugar de descarga de gozo. São inferiorizados nos discursos para se tornarem objeto de uso. Daí o termo “animal” não ser uma mera classificação taxonômica, mas um lugar, uma vala comum para onde os sistemas de poder — comumente patriarcais — empurram os corpos sobre os quais querem gozar. Não por acaso, as leis de proteção aos animais são quase sempre tão pífias.

O laço social cria, então, zonas onde o domínio sobre os animais é autorizado, desde que isso não seja reconhecido como gozo. Quando um caso como o do Orelha aparece, esse véu falha. A violência surge nua. E o horror que sentimos revela algo recalcado: o gozo implicado na redução de um animal à condição de coisa matável. Quando esse gozo se mostra, causa angústia.

É preciso admitir: a violência deslocada aos animais ajuda a sustentar nosso modelo de laço social.

Não se trata de supor que todos gostam de violência, nem de tentar erradicar a agressividade, já que esta não é eliminável. Ela pode ser simbolizada, transformada ou recair sobre corpos tornados mais vulneráveis. A questão é: que destinos damos a ela?

Será que daremos o passo para colocar limite ao gozo de soberania, institucionalizado psiquicamente sobre aqueles que são nomeados como animais? Escolheremos seguir com os Orelhas, farejar e reinventar outra estrutura de laço social?

OBS: enquanto eu escrevia esse texto, um cão comunitário em Porto Alegre (RS) foi baleado por um policial. Outro cão, também comunitário, foi morto por tiro em Toledo (PR). E uma cachorra grávida, em Igarapava (SP), foi amarrada a um carro e arrastada por um homem de 65 anos, que dizia ser seu “dono”. Tentaram salvar os filhotes, mas não deu. Também soube de um boi que teve o crânio destruído, e, ainda vivo, pendurado pela perna e degolado. Mas isso já é outra história.

Luanda Francine é psicanalista, doutoranda em Filosofia na Universidade de Lisboa e artista visual. Coordena o Grupo de Pesquisa sobre Ética e Direitos dos Animais do Diversitas (Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos) — FFLCH/USP.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. Angeline

    29 de janeiro de 2026 9:15 am

    O Voo do Orelha: Uma Homenagem à Inocência

    ​Dizem que os cães não conhecem o mal, eles apenas conhecem o amor, o agora e a mão que lhes faz carinho. O Orelha era a personificação dessa pureza. Ele não entendia de maldade, de ódio ou de perversidade; ele entendia de abanar o rabo, de esperar por um olhar amigo e de viver com a gratidão que só os animais possuem.

    ​Sua partida foi injusta, brutal e nos deixa um vazio carregado de indignação. É difícil processar como tamanha inocência foi interrompida por mãos que ainda não aprenderam o valor da vida. Mas, hoje, queremos que o barulho da nossa saudade e do nosso pedido por justiça seja maior do que a dor do silêncio que ele deixou.

    ​Ao Orelha:

    Que agora você corra por campos infinitos, onde não existe medo, nem dor, nem crueldade. Que suas orelhas fiquem atentas apenas ao som da paz e que você sinta, onde quer que esteja, o abraço coletivo de todos nós que choramos por você.

    ​”A grandeza de uma nação e seu progresso moral podem ser julgados pela forma como seus animais são tratados.” — Mahatma Gandhi

    ​Orelha, você não será esquecido. Sua passagem por aqui, embora interrompida pela escuridão de alguns, acendeu em nós uma luz de luta por todos aqueles que não têm voz.

    ​Descanse em paz, amigão.

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