Orelha e o silêncio da impunidade,
por Dora Nassif
A violência no Brasil não se sustenta apenas pela ação de quem agride, mas pela certeza de que, para alguns, não haverá consequência. A impunidade de quem tem dinheiro, poder ou prestígio social não é um desvio do sistema: ela é parte estrutural dele. E quando a punição deixa de existir, a violência deixa de ser exceção e passa a ser rotina.
Esse processo é silencioso e perverso. Crimes são relativizados, comportamentos violentos são tratados como “excessos”, e a responsabilidade se dissolve em justificativas jurídicas, privilégios econômicos e redes de proteção social. A mensagem é clara: nem toda vida vale o mesmo. Nem todo dano exige reparação.
O problema é que essa lógica não se limita às relações entre indivíduos. Ela se espalha pelo espaço público, molda comportamentos e atravessa as ruas. Basta olhar ao redor. Nas mesmas cidades em que a violência humana é naturalizada, cresce também o número de animais abandonados, vivendo à margem, expostos à fome, às doenças, aos atropelamentos e ao frio.
Cachorros não chegam às ruas por acaso. Eles são colocados ali. São abandonados por quem não assume a responsabilidade de cuidar, por quem não castra, por quem compra animais como objetos descartáveis. Também são vítimas de uma cadeia de impunidade: raramente quem abandona é responsabilizado, raramente há consequências reais, raramente o Estado atua de forma preventiva.
A ausência de punição produz repetição. Quando abandonar não gera sanção, o abandono se multiplica. Quando a violência não provoca indignação, ela se normaliza. E quando a sociedade se acostuma, perde-se algo essencial: a capacidade de reconhecer o sofrimento do outro, humano ou não, como uma injustiça intolerável.
Não se trata de comparar dores, mas de compreender padrões. A mesma estrutura que protege quem agride e concentra privilégios é a que empurra os mais vulneráveis para a invisibilidade. A impunidade no topo sempre escorre para baixo. Ela define quem pode errar sem pagar e quem paga mesmo sem ter culpa.
A rua não deveria ser destino. Nem para pessoas, nem para animais. Enquanto aceitarmos a violência como parte inevitável da vida urbana e a impunidade como um mal menor, seguiremos reproduzindo um modelo social baseado na indiferença.
O que mais assusta hoje não é apenas a violência em si, mas o quanto ela já deixou de nos chocar. E quando a violência deixa de causar espanto, o problema ultrapassa o jurídico ou institucional.
Dora Nassif – Advogada, Mestra em Direitos Humanos e Doutoranda em Ciências Jurídicas e Políticas pela Universidad Pablo de Olavide, em Sevilla.
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Delmar Gularte
28 de janeiro de 2026 5:04 pmOrelha
Tinha muitos donos, não tinha nenhum
Um cão de rua de simpatia incomum
Mansinho mascote da Praia Brava
Orelha, assim a gente o chamava
Um dia apareceu arrebentado
Por quatro garotos foi massacrado
Uma brutalidade desumana
Todos eles filhinhos de bacana
A barbárie como novo normal
Mata pobre, mulheres, mata animal
O pega geral até pegar você
O social em rede e nas esquinas
O circo dos horrores descortina
E a maioria finge que nem vê
Rafael
31 de janeiro de 2026 12:21 pmEspecificamente sobre o que merecem os delinquentes deste caso temos um ditado aqui que entendedores entenderão..
“Cachorro que come ovelha, só matando..”