10 de junho de 2026

A gradual degradação da universidade pública, por Ivonaldo Leite

A inteligência parece ter sido forçada a se retirar, deixando o terreno livre para a manipulação exercida pelo senso comum e pelo arrivismo
Reprodução

A universidade pública brasileira enfrenta degradação marcada pela captura política que compromete sua autonomia.
Debates plurais são sacrificados, evidenciado pelo caso da ex-mestranda Beatriz Bueno e o identitarismo racial.
Plágio e fraudes em teses e dissertações indicam problemas graves na produção acadêmica e fiscalização interna.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

A gradual degradação da universidade pública e a dignidade da inteligência

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por Ivonaldo Neres Leite[1]

Os usos da linguagem e o modo como a dedicação aos estudos é visto são dois elementos sintomáticos do tipo de contexto em que se vive. George Orwell dizia que a degradação da linguagem – a sua pauperização/vulgarização – é reveladora da degradação da própria sociedade. Não é apenas uma questão gramatical, mas também uma ferramenta política que corrói o pensamento, limita a capacidade crítica e subjuga a sociedade[2]. Por sua vez, o filólogo Victor Klemperer, ao tratar da linguagem do Terceiro Reich, foi lapidar a respeito: o nazismo triunfou e se consolidou à medida que passou a dominar a forma como as pessoas falavam, inclusive os seus opositores[3].

De igual forma, no caso da universidade, quando o interesse pelo estudo e o compromisso com o rigor acadêmico (que é diferente de rigidez) cedem lugar à linguagem dos clichês, ao rebaixamento conceitual, às ‘frases feitas’, às trapaças  na maneira de escrever, etc., não se tem outra coisa senão a desvalorização do ato de estudar e a degradação da vida universitária. Num ambiente assim, quando os intelectuais saem de cena, como maîtres a penser, praticamente não se percebe a partida deles. Vão-se solitários e sem as luzes da ribalta.

Infelizmente, o Brasil, pouco a pouco, está imergindo nessa degradação – em alguns contextos mais do que em outros, deve ser dito. Conforme já foi escrito, “há algum tempo, está sendo paulatinamente consagrada, no Brasil, a lei de ferro da ignorância, que expulsa do horizonte o princípio ‘penso, logo existo’, a súmula do intelectual contra o sectarismo e o fanatismo. Existe cada vez menos espaço para quem possui raciocínio mais convincente, medita demoradamente os seus pensamentos para que se tornem mais claros e compreensíveis”[4]. Nessa mesma senda, infere-se, por um lado,  que a inteligência parece ter sido forçada a se retirar, deixando o terreno livre para a manipulação exercida pelo senso comum e pelo arrivismo, com eles buscando verossimilidade, mas sem conseguirem  disfarçar que, da fraqueza, nasce a arrogância. Por outro lado, a manipulação, nutrida pelo oportunismo e pela deslealdade, não logra esconder uma das suas piores características: ignorar as qualidades alheias.

O momento vivido pelas pessoas genuinamente dedicadas à vida intelectiva, ultimamente, é um dos mais impactantes e desafiantes para a ciência e para a razão, a ponto de já se ter indagado se não estamos diante do fim do intelectual acadêmico[5].  E não se trata apenas das decorrências do negacionismo científico. É mais do que isso. Há que se considerar, por exemplo, que “a falta de escrúpulos de certas épocas incentiva carreirismos e enche de ar pessoas vazias. O desinteresse pela vida intelectual e pelo estudo se torna, então, pragmático. […]  É uma calamidade fazer vista grossa para o desprestígio da formação moral e intelectual da juventude”[6].

Mas a universidade pública brasileira, historicamente reconhecida como um polo acadêmico de referência qualitativa, tem se descuidado dessa posição (conquistada com muito empenho) e, em vezes diversas, tem seguido um desvio na direção supracitada, ou seja, de degradação da sua condição de instituição republicana comprometida com a excelência na produção do conhecimento e nos processos formativos. Trata-se de um processo gradual, para o qual, já na segunda metade da década de 1980, chamava a atenção José Arthur Giannotti (um daqueles que saíram de cena sem serem percebidos), ao escrever o emblemático ‘A universidade em ritmo de barbárie’[7].

Entre outras coisas, Giannotti apresenta uma tipologia dual no interior da universidade: a do sábio e do sabido. O primeiro ensina, pesquisa, amplia os jogos de linguagem e de comunicação, dialoga qualificadamente com a sociedade. O segundo se aproveita da lógica institucional para amealhar vantagens, posições de prestígio e de poder.

Por certo, a abordagem giannottiana inscreve-se, de alguma forma, numa  perspectiva similar à que foi desenvolvida por Pierre Bourdieu a respeito do campo científico e da busca por acumular capital simbólico/poder na universidade, sendo as suas esferas institucionais e instâncias burocráticas utilizadas como degraus nesse sentido, principalmente, em geral, por aqueles (os sabidos) pouco propensos ao atendimento dos requisitos que a atividade epistemológica implica. O sabido, como assinala Giannoti, atenta contra a missão central da universidade, pelo que, então, impõe-se como necessário colocar-lhe freios. Afinal, as suas práticas e peripécias podem afigurar-se ao que Maurício Tragtenberg definiu como ‘delinquência acadêmica’[8], resultando no poder sem o saber e no saber sem o poder.

São diversas as evidências da gradual degradação da universidade pública brasileira. Nas instituições particulares, o quadro é semelhante, e, principalmente com a expansão do ensino privado nos últimos tempos, há fenômenos, ressalvadas as exceções, possivelmente até mais graves. Merecem uma abordagem à parte, que está, contudo, para além do meu propósito aqui.

Sem a pretensão de descrever e escrutinar todas as evidências da degradação da universidade pública, o que requer uma démarche de maior fôlego, coloco em realce três delas, não necessariamente seguindo uma sequência de ordem hierárquica quanto ao peso de cada uma.

A primeira diz respeito à captura da vida universitária pela politicagem. Politicagem, reitero, ou seja, não o exercício da politike, no sentido grego, para tratar dos assuntos da universitas (a comunidade de mestres e estudantes unidos em torno da sociabilidade acadêmica, do conhecimento, do ensino e da aprendizagem).

A captura da vida universitária pela politicagem tem uma dupla dimensão. Quer dizer, por uma parte, é uma manifestação da intervenção de agentes da política tradicional nos assuntos da universidade. Por exemplo, tanto nas suas eleições internas como em  deliberações dos seus  órgãos colegiados e até mesmo  em questões relativas aos seus recursos humanos. Basta ter um pouco de discernimento para perceber que isso, por óbvio, significa a quebra do princípio da autonomia universitária. Por outra parte, a segunda dimensão da captura da vida universitária pela politicagem se traduz num modus operandi que se tem alastrado no interior da universidade, marcado por, entre outros fatos: i) o permanente clima eleitoral em função de cargos cobiçados, como reitorias, onde eleitos, potenciais candidatos e seus apoiantes adotam práticas da política tradicional miúda, ignorando a especificidade do modus vivendi de uma instituição acadêmica; ii) a fragilização deliberativa dos órgãos colegiados, como consequência dos acertos de  bastidores, de forma que, no mais das vezes, as discussões nas instâncias colegiadas se tornam um jogo de cartas marcadas entre ‘personas’,  deturpando, assim,  o significado original do conceito  de diálogo (tantas vezes invocado!), o qual demanda genuinidade na interação.

A segunda evidência da degradação da universidade pública concerne à  prática de sacrificar o debate plural em torno de ideias, teorias, escolas de pensamento, autores, etc., em decorrência de opções pessoais/alternativas axiológicas e seus desdobramentos.  É ilustrativo disso o atual caso envolvendo a ex-mestranda Beatriz Bueno, que foi desligada da pós-graduação de uma universidade no Rio de Janeiro,  conforme tem sido amplamente divulgado, tendo como motivação um conjunto de acontecimentos desencadeados pelo fato de ela contrariar o identitarismo hegemônico do movimento negro quanto à questão racial. A jovem pesquisadora sustenta que pardos não são pretos, e se lança na abordagem do que ela denomina ‘parditude’.

Se não estivéssemos submetidos à ‘lei de ferro da ignorância’, e nos cursos de pós-graduação obras clássicas e trabalhos centrais dos campos de conhecimento fossem lidos integralmente, ao invés de, em geral, pedaços de papel chamados apostilas, ver-se-ia que a evidente verdade posta em relevo por Beatriz Bueno, ressalvada a noção de ‘parditude’, não se constitui em novidade. Diferente dos Estados Unidos, que é multiétnico, mas não miscigenado, a formação social brasileira – sem que se ignore a violência colonial –  teve na miscigenação um elemento central, fazendo emergir um país mestiço. Biologia e cultura. De certo modo, um reflexo do fato de o  próprio Portugal ser uma nação ‘misturada etnicamente’, a ponto de, historicamente, em conjunto com outros aspectos, já se ter até questionado se a identidade portuguesa seria mesmo de um país europeu.

A propósito, não é insignificante que a massiva presença e a longa permanência dos mouros (árabes e berberes, oriundos da África do Norte – islâmicos) durante cerca de oito séculos na Península Ibérica (séc. VIII ao séc. XV), assim como de judeus sefarditas, tenham gerado a palavra moreno em língua portuguesa, indicando a pigmentação do tom de pele (diferente da dos povos da África Subsaariana, essencialmente pretos) e sendo utilizada pelo cristianismo como forma de expressar aversão e repulsa a quem não o tinha como religião. Infere-se, portanto, que a contrariedade para com os morenos, na Península Ibérica,   relacionava-se com o fator religioso.

No Brasil, contudo, o fato é que, desde o governo Fernando Henrique Cardoso, nos 1990, sob a injunção estadunidense em relação ao tema racial, a pauta identitarista – expurgada de Economia Política – foi imposta no país e o identitarismo se fez dominante, com ONGs contando com o generoso apoio pecuniário advindo de agências e fundações alinhadas com os interesses geopolíticos de Washington[9].

 O mérito da jovem pesquisadora Beatriz Bueno reside em ter realçado ‘um acertado ponto fora da curva’ no debate sobre a questão racial, que nos faz voltar a olhar para o valor da miscigenação no Brasil. Quanto à noção de ‘parditude’ (noção, não conceito), que ela apresenta, é, pelos vistos, analiticamente inconsistente e, de resto, termina por se manter presa ao mapa discursivo do identitarismo, alimentando a sua reprodução. Isso não se passa com o conceito de mestiçagem, onde não há lugar para a compreensão atomizada das identidades, responsável por difundir uma percepção fixista a respeito delas, acantonando as pessoas em nichos e negando o caráter processual da construção identitária, própria da interação social[10]. Mestiçagem significa hibridismo, pontes entre margens, transgressão de fronteiras étnico-culturais, etc[11].

De toda forma, o que está em causa, e o que me faz trazer o caso à baila aqui, é o fato de o desligamento do mestrado de Beatriz Bueno ser indicativo de um ato que sacrifica o debate em torno de ideias, práticas e concepções teóricas no interior da instituição universitária, atentando contra o seu caráter plural. 

Last but not least, a terceira evidência de degradação da universidade pública a ser assinalada é atinente à produção de trabalhos acadêmicos, designadamente dissertações e teses. Os diversos casos de cópias e de plágios, resultando em posterior cassação de diplomas, envolvendo inclusive pessoas com elevadas funções de gestão em universidades, possivelmente seja sintomático do modo como determinados cursos de mestrado e de doutorado têm sido realizados. Pesquisa feita contemplando 45 instituições, e com uma ampla amostra de trabalhos (330), constatou plágio em 1.942 trechos de teses e dissertações[12].

Esse número aumenta quando a análise vai além do plágio e da cópia tradicionais e são considerados os textos definidos como ‘colchas de retalho’, elaborados, por exemplo, seguindo trapaças para “desenvolver a escrita”, vendidas por youtubers como “técnicas”. São artimanhas que consistem, entre outras coisas, em emendar citações diretas e indiretas, sem interpretação própria,  num estilo impessoal onde o suposto “autor” pode “escrever” páginas e mais páginas sem compreender o conteúdo, sendo, por óbvio, apenas um digitador. A situação se agrava ainda mais quando consideramos os casos do uso da Inteligência Artificial e a terceirização da produção dos trabalhos, pagando-se a terceiros para escrevê-los, sob a dissimulada justificativa de revisão do texto.  Merece uma pesquisa acurada o intrigante paradoxo de, por um lado, estudos credenciados revelarem um número tão grande de plágios/cópias e, por outro lado, os trabalhos passarem sem percalços pelo escrutínio durante o seu processo de elaboração e nas sessões de qualificação/defesa final.  

Diante de uma tal realidade, o que esperar do futuro da universidade pública brasileira? Pela marcha das evidências, não há como afastar um grau de pessimismo. Cabe balanceá-lo com doses de otimismo, lembrando um pouco a divisa de Romand Rolland, que muitos tomam como sendo de Gramsci: ‘pessimismo da razão, otimismo da vontade’.  Em cada leva de estudantes, como disse José Arthur Giannotti, há botões que seriam mil flores, e entristece ver o desperdício que, pouco a pouco, os vai secando.

Resta à dignidade da inteligência não se curvar e não abdicar de dizer a sua palavra, ainda que se expondo às imprevisibilidades de um tempo em que dizer a verdade significa correr riscos. Mas não há virtude sem coragem, pois, sem ela, as outras virtudes não são, consistentemente, possíveis. Portanto, esse é o rumo da dignidade da inteligência. Mesmo que, ao modo nietzschiano, tenha que se retirar em autoexílio para exercitar o ‘pensamento das marteladas’ e estilhaçar os espelhos que iludem refletindo meros véus de aparências.  

Notas


[1] Sociólogo, com Doutorado pela Universidade do Porto/Portugal e Pós-doutorado no Departamento de Sociologia da Facultad de Ciencias Sociales de la Universidad de la República/Montevideo. É professor na Universidade Federal da Paraíba; autor de Educação, Formação, Trabalho e Políticas Educativas (Porto/Portugal: Profedições).

[2] ORWELL, George. Politics and English language. London: Sahara Publisher Books, 1946. 

[3] KLEMPERER, Victor. LTI: A linguagem do Terceiro Reich. Tradução: Miriam Bettina P. Oelsner. Rio de Janeiro: Contraponto, 2009. 

[4] Cf. DELGADO, Paulo. A morte dos intelectuais, in O Estado de São Paulo, 11/08/21, p.1. Disponível em: < https://www.estadao.com.br/opiniao/paulo-delgado/a-morte-dos-intelectuais/?srsltid=AfmBOoqnROLGHbBTEAgR_Ax977NOfMBYYU1aJ2sUeXk2RwdTLwI8KGNx 

[5] BIANCHETTI, Lucídio; VALLE, Ione Ribeiro; PEREIRA, Gilson Ricardo de Medeiros. O fim dos intelectuais acadêmicos? Induções da Capes, desafios às associações científicas e a emergência do intelectual institucionalizado. Campinas: Autores Associados, 2015. 

[6] DELGADO, Paulo, op. cit., p 1. 

[7] GIANNOTTI, José Arthur. A universidade em ritmo de barbárie. São Paulo: Brasiliense, 1986. 

[8] TRAGTENGERG, Maurício. A delinquência acadêmica: o poder sem saber e o saber sem poder. São Paulo: Editora  Rumo,  1979. 

[9] Mesmo nos Estados Unidos, porém, o identitarismo e a cultura do cancelamento (uma face inquisitorial do identitarismo) têm sido objeto de questionamentos de setores relacionados à questão étnico-racial. A respeito, ver MCWHORTER, John. Woke racism: how a new religion has betrayed black America. Londres:  Swift Press, 2022. 

[10] Cf. DUBAR, Claude. La socialisation: construction des identités sociales et professionalles.  2 ed. Paris: 1995. 

[11] A propósito, ver ANZALDÚA, Glória E. Borderlands/La frontera: the new mestiza. San Francisco: Aunt Lute Books, 1987. 

[12] AIRES, João Paulo. Análise de plágio em teses e dissertações dos programas de pós-graduação na área de ensino no período de 2010 a 2012. Tese de Doutorado – Programa de Pós-graduação em Ensino de Ciência e Tecnologia/Universidade Tecnológica Federal do Paraná, 2017. Disponível em: <https://repositorio.utfpr.edu.br/jspui/handle/1/2902>

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  1. evandro

    2 de fevereiro de 2026 9:58 pm

    E um artigo desses, concomitante com a divulgação dos resultados de pesquisa de bióloga da UFRJ que, ao que parece, soa quase como um revolução em termos de avanço em tratamento de lesão medular.

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