Jornal GGN Com ações rápidas os bancos centrais dos países emergentes estão buscando e evitar a saída de investidores de seus mercados e entraram num ciclo de contração na política monetária.
Após a crise de 2008 os países emergentes tiveram que adotar uma ação anticíclica para atravessá-la e entraram num ciclo expansionista muito forte, com diminuição dos juros básicos, aumento dos gastos públicos e forte oferta de crédito.
O cenário mudou. Cada um com suas especificidades os países em desenvolvimento vêm sofrendo nos últimos meses forte fuga de capital e as moedas destes países apresentam fortes oscilações. Nos últimos três meses até o dia 30 a lira turca teve desvalorização de 13%, o rande sul africano desvalorizou 11,4% e o próprio real teve desvalorização de 10%. Desvalorização mais forte e que preocupou todo o restante veio da Argentina com o peso apresentando desvalorização de 22,85%.
Tabela 1

O principal fator que justifica esta aversão a risco dos países em desenvolvimento é a retirada de estímulos na economia dos Estados Unidos, movimento que sinaliza melhora na economia daquele país. Na última reunião, o Fed (Banco Central americano) deu continuidade ao processo de redução dos estímulos, com novo corte de US$ 10 bilhões em fevereiro, mesma redução anunciada em sua última reunião, em dezembro.
Esta nova condução da política monetária norte americana traz uma rentabilidade maior aos investimentos, ao mesmo tempo em que reduz a liquidez dos emergentes.
Outro fator importante é a desaceleração da economia chinesa confirmada pela divulgação do último indicador mostrando contração na indústria chinesa pela primeira vez em seis meses. O PMI – índice de atividade industrial da China ficou em 49,5% abaixo dos 50 pontos, indicando queda na atividade.
Na última projeção de crescimento do FMI (Fundo Monetário Internacional), a instituição reviu a estimativa de crescimento da China para 7,5% em 2014 e 7,3% em 2015. Para uma economia que já cresceu vigorosamente por três décadas é forte desaceleração.
A importância da China nas economias emergentes consiste que, no passado, quando tinha crescimento robusto, a demanda por commodities, principal item na pauta de exportação destes países, era muito grande. Agora, com a reversão do cenário a demanda está menor.
Além dos problemas macros observados pesa sobre alguns países problemas domésticos. A Turquia e a África do Sul, por exemplo, dependem de capital estrangeiro para financiar os déficits em conta corrente. Além disso, a alta do dólar pressiona países com problemas nas contas externas.
Gráfico 1

Segundo relatório do FMI, divulgado no início do mês, o déficit em conta corrente na Turquia está 7,4% do PIB e aconselha mudanças estruturais para que o país tenha crescimento maior, por exemplo, aumentando sua poupança interna para depender menos de capital externo.
Estes pontos aumentaram a aversão a risco nos emergentes. As autoridades destes países estão no movimento de aumento de juros numa tentativa de manter o capital em seu país.
Nos últimos dias o Banco Central da Índia aumentou a taxa básica em 0,25 ponto percentual para 8% ao ano, o Banco Central da Turquia elevou sua taxa de 7,75% para 12% ao ano e o Banco da Reserva da África do Sul subiu sua taxa básica em 0,5 ponto percentual para 5,5%.
No Brasil o processo já ocorre desde abril, a taxa básica Selic teve alta de 3,25 pontos percentuais desde então, saiu de 7,25% ao ano em abril para 10,5% em janeiro.
No último dia 30 de janeiro após os movimentos de alta de juros e a última decisão do Fed o mercado de câmbio destes países teve valorização conforme Tabela 1 acima. Já em relação às Bolsas de Valores, com exceção da Argentina, México e Índica, todas tiveram queda.
Tabela 2

No entanto, somente a condução da política monetária via aumento da taxa de juros possa não ser suficiente para colocar estes países novamente na rota de atração de investimento.
Preocupa também a situação fiscal destes países, problema que terão que enfrentar nos próximos meses. Apesar das recomendações de autoridades como o FMI e consultorias especializadas, o gasto público poderá aumentar este ano deteriorando ainda mais a situação fiscal destes países, sobretudo porque enfrentarão, ao longo de 2014, eleições. Haverá escolha de novos representantes na Indonésia, África do Sul, Índia, Turquia e Brasil.
Com exceção da Indonésia, que já tem reformas estruturais em curso, os outros também deverão somar à sua política monetária contracionista, reformas para baixar a dívida pública, aumentar poupança interna e a competitividade de seus produtos.
Roberto São Paulo-SP 2014
1 de fevereiro de 2014 12:24 amEvitando os exageros
Creio que com a diminuição do desemprego nos EUA, haverá uma aumento dos investimentos e um aumento da demanda por crédito pelas empresas e famílias americanas com impactos significativos na demanda global.
O que o FED está fazendo, com a redução gradual das compras de títulos, é apenas evitando os exageros, principalmente na liquidez do mercado financeiro internacional, já que se mantivesse o programa de títulos públicos e privados no mesmo patamar junto com a recuperação do emprego e do crescimento do PIB nos EUA, haveria um excesso de liquidez.
Muito provavelmente não haverá contração da liquidez no Mercado financeiro internacional, já que a recuperação da economia americana, mais do que compensará a redução gradual da compra de títulos público e privado.
A recuperação econômica dos EUA certamente aumentará as exportações brasileiras direta ou indiretamente, além disso a correção da taxa de câmbio vai viabilizar a substituição de parte das importações pela produção nacional, o que além de proporcionar um aumento significativo no saldo da balança comercial, também vai atrair mais investimentos estrangeiro direto na produção.
Creio que para enfrentar estes momentos de precipitação, bem como a ação dos especuladores do mercado financeiro, o Banco Central do Brasil deve vender gradualmente parte das Reservas Cambiais no mercado à vista, algo com US$ 30 bilhões a US$ 50 bilhões, o que será mais do que suficiente para controlar a atual volatilidade.