Os Três Tenores e o Crescimento Rastejante: Uma Ópera Brasileira
por Henrique Morrone
O Brasil é um espetáculo continuamente adiado: um drama estagnado que se arrasta entre ruínas industriais e promessas de modernização que nunca chegam ao segundo ato. Para explicar esse crescimento rastejante — sempre sob juros reais elevados e desindustrialização persistente — as teorias econômicas se dividem entre os Três Tenores.
Como diria Jerry Seinfeld, temos Pavarotti, Plácido Domingo e Carreras… aquele outro cara que o público adora, mas insiste em esquecer.
- Pavarotti: a Escola Neoclássica
O tenor do horário nobre é o Pavarotti Neoclássico, que canta sua ária obsessiva: “A culpa é da Constituição de 1988!”
Para ele, o Brasil só crescerá quando o palco estiver vazio: corta-se o coro, demite-se o contrarregra, vende-se o piano. Os cortes, claro, recaem sempre sobre os custos de funcionamento do teatro — nunca sobre sua bilheteria avantajada. A “fada da confiança” despencaria dos camarotes.
Enquanto isso, por trás das cortinas, o sistema financeiro engole a bilheteria, recheada de juros da dívida pública.
- Plácido Domingo: o Novo-Desenvolvimentismo
O Plácido Domingo Estruturalista insiste: o país virou um solista de soja e minério. A taxa de câmbio apreciada fumou a manufatura. Sem indústria — pulmão da produtividade — o Brasil desaprendeu a cantar árias complexas e voltou a mugir nas commodities.
Enquanto o juro for a nota mais alta da partitura, seremos apenas um fazendão iluminado que importa tecnologia que poderia ser regida internamente.
- Carreras: a Tradição da Taxa de Lucro
E há o Carreras, o tenor sombrio da lucratividade. Sua voz ecoa, mas seu nome é apagado. Ele lembra o óbvio incômodo: por que produzir, inovar e empregar, se o rentismo oferece o oásis sem suor?
A elite desistiu do desenvolvimento e tornou-se sócia da estagnação.
El Gran Finale
O drama brasileiro é que os maestros não se comunicam. Enquanto Pavarotti corta a comida da plateia e Plácido discute o tom do piano, Carreras revela a tragédia:
o teatro já foi vendido para virar estacionamento de luxo.
Trocamos o engenheiro pelo entregador de aplicativo, o centro de pesquisa pela corretora, a fábrica pela renda do papel. A economia não está apenas rastejando: está sendo desmontada.
Fomos convocados não para assistir à ópera, mas para aplaudir silenciosamente o leilão de nosso futuro.
Henrique Morrone é economista e professor associado da UFRGS.
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Alberto Gonçalves
13 de fevereiro de 2026 4:33 pmComo os Três Mosqueteiros que, na verdade, eram quatro, os Três Tenores também o são, seguindo essa analogia. Faltou o PianoCargo, aquele que sempre carrega o piano e só o vê se despedaçando a cada “tentativa” de desenvolvimento.
Paulo Dantas
14 de fevereiro de 2026 3:37 pmA observação da economia é válida mas qual a razão de ofender os artistas !?