6 de junho de 2026

Os Três Tenores e o Crescimento Rastejante: Uma Ópera Brasileira, por Henrique Morrone

Os maestros não se comunicam. Enquanto Pavarotti corta a comida da plateia e Plácido discute o tom do piano, Carreras revela a tragédia
Placido Domingo, Jose Carrera, Luciano Pavarotti - Reprodução China Photos

O crescimento econômico do Brasil é lento, marcado por juros altos e desindustrialização persistente.
Três teorias explicam o cenário: Neoclássicos culpam a Constituição, Desenvolvimentistas apontam a desindustrialização.
A lucratividade alta desestimula inovação e produção, levando à estagnação e desmontagem da economia brasileira.

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Os Três Tenores e o Crescimento Rastejante: Uma Ópera Brasileira

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por Henrique Morrone

O Brasil é um espetáculo continuamente adiado: um drama estagnado que se arrasta entre ruínas industriais e promessas de modernização que nunca chegam ao segundo ato. Para explicar esse crescimento rastejante — sempre sob juros reais elevados e desindustrialização persistente — as teorias econômicas se dividem entre os Três Tenores.

Como diria Jerry Seinfeld, temos Pavarotti, Plácido Domingo e Carreras… aquele outro cara que o público adora, mas insiste em esquecer.

  1. Pavarotti: a Escola Neoclássica

O tenor do horário nobre é o Pavarotti Neoclássico, que canta sua ária obsessiva: “A culpa é da Constituição de 1988!”
Para ele, o Brasil só crescerá quando o palco estiver vazio: corta-se o coro, demite-se o contrarregra, vende-se o piano. Os cortes, claro, recaem sempre sobre os custos de funcionamento do teatro — nunca sobre sua bilheteria avantajada. A “fada da confiança” despencaria dos camarotes.

Enquanto isso, por trás das cortinas, o sistema financeiro engole a bilheteria, recheada de juros da dívida pública.

  1. Plácido Domingo: o Novo-Desenvolvimentismo

O Plácido Domingo Estruturalista insiste: o país virou um solista de soja e minério. A taxa de câmbio apreciada fumou a manufatura. Sem indústria — pulmão da produtividade — o Brasil desaprendeu a cantar árias complexas e voltou a mugir nas commodities.

Enquanto o juro for a nota mais alta da partitura, seremos apenas um fazendão iluminado que importa tecnologia que poderia ser regida internamente.

  1. Carreras: a Tradição da Taxa de Lucro

E há o Carreras, o tenor sombrio da lucratividade. Sua voz ecoa, mas seu nome é apagado. Ele lembra o óbvio incômodo: por que produzir, inovar e empregar, se o rentismo oferece o oásis sem suor?

A elite desistiu do desenvolvimento e tornou-se sócia da estagnação.

El Gran Finale

O drama brasileiro é que os maestros não se comunicam. Enquanto Pavarotti corta a comida da plateia e Plácido discute o tom do piano, Carreras revela a tragédia:

o teatro já foi vendido para virar estacionamento de luxo.

Trocamos o engenheiro pelo entregador de aplicativo, o centro de pesquisa pela corretora, a fábrica pela renda do papel. A economia não está apenas rastejando: está sendo desmontada.

Fomos convocados não para assistir à ópera, mas para aplaudir silenciosamente o leilão de nosso futuro.

Henrique Morrone é economista e professor associado da UFRGS.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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2 Comentários
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  1. Alberto Gonçalves

    13 de fevereiro de 2026 4:33 pm

    Como os Três Mosqueteiros que, na verdade, eram quatro, os Três Tenores também o são, seguindo essa analogia. Faltou o PianoCargo, aquele que sempre carrega o piano e só o vê se despedaçando a cada “tentativa” de desenvolvimento.

  2. Paulo Dantas

    14 de fevereiro de 2026 3:37 pm

    A observação da economia é válida mas qual a razão de ofender os artistas !?

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