O Brasil no Rodapé
por Henrique Morrone
O Brasil padece de uma elite que se comporta como inquilina de luxo: usufrui do imóvel, mas recusa-se a assinar a escritura da realidade. São figuras de gesso, moldadas por um cosmopolitismo de fachada que esconde o deserto mais árido e inóspito de substância. Habitam o território, mas desconhecem o país. Esse desterro voluntário começa no consultório de mármore e, passando pela quadra de saibro, encontra a sua metástase na inalcançável torre de marfim da nossa academia.
O Doutor e a Baronesa do Saibro
Vejamos, primeiro, os tipos que circulam e se reproduzem na superfície. O Médico é uma criatura de contrastes geográficos: está sempre na moda, mas nunca no país. Habita as redomas climatizadas de seus consultórios que tentam, em vão, simular o desatualizado, falso e estéril esplendor europeu. Para ele, o jaleco é a sua única pátria e a moda é o escudo que lhe aparta de qualquer contato com o solo brasileiro.
Já a Donzela do Centro-Oeste mimetiza a futilidade em seu estado natural: é a pastora que não se suja, a baronesa da soja que trata o latifúndio como cenário de rede social. No saibro de sua quadra privada — erguida sobre o que ontem era Cerrado vivo — ela expia os pecados do agronegócio com um backhand bem executado. Para ambos, o país real é apenas o cenário, nunca o protagonista.
A Autofagia do Economista e a Esgrima de Gabinete
Essa alienação ganha contornos dramáticos quando atinge o Economista heterodoxo escanteado. O fenômeno é de um servilismo atroz: ele conhece o país apenas quando o gringo lhe apresenta. Mas o problema transcende a geografia; é uma patologia do ego. Estes senhores levam-se muito a sério, confundindo o rigor da ciência com a arrogância da casta.
Assiste-se, nestes dias, a mais um capítulo dessa antropofagia. Nomes que habitam o topo da cadeia alimentar dos nossos economistas mais uma vez decidiram esgrimar em público. O que se divisa no duelo, entretanto, não é o brilho da descoberta, mas o som estridente dos metais em colisão.
A Sanha Desenfreada pelas Tábuas da Lei
De um lado, a armadilha do produtivismo: a crença de que o conhecimento se mede por tonelagem de artigos e de livros, vulgo taylorismo intelectual. É a engenharia do vazio que ergue paredes sem se perguntar se alguém, de fato, habitará a casa. De outro, a sanha desenfreada de se autointitular uma “escola”.
Há algo de profundamente paroquial e triste nessa obsessão pelo rótulo. Batizar a própria corrente é condecorar o próprio peito diante do espelho — um gesto de profunda solidão e abandono. O ego comeu o economista, que ainda assim não criou teorias, apenas ruídos. Discutem nomenclaturas como se redigissem as tábuas das leis celestiais da heterodoxia econômica, enquanto o país clama por protagonismo, sendo, nesse afã, refém da ortodoxia pueril.
O Diagnóstico: O que une o médico de grife, a donzela do saibro e o economista de gabinete é o deserto de substância. Resta-nos a pergunta que o tempo — juiz impiedoso — fará por nós: será que lembraremos dessas “escolas” daqui a cem anos?
A suspeita, dolorosamente refinada, é que o silêncio retumbante prevalecerá sobre este ruído. Para essa elite regional, o Brasil real continuará sendo o que sempre foi: apenas o Brasil no rodapé de suas próprias vaidades. Afinal, em terras “sudestinas”, sulista, nordestino e nortista devem ser apenas espectadores.
Henrique Morrone é Economista, Professor Associado da UFRGS e Pesquisador do CNPQ
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