Hamnet, por Izaías Almada
Como seria viver na Inglaterra do século XVI sob o reinado de Elisabeth I? Tudo indica que o filme Hamnet nos dá uma visão muito próxima dessa realidade, visão essa pesquisada e construída pela sensibilidade de duas mulheres: a escritora Maggie O’Farrell e a realizadora Chloé Zhao.
“To be or not to be, that’s the question” (Ser ou não ser, eis a questão).
A famosa e consagrada frase de William Shakespeare colocada na boca de um dos seus mais famosos personagens, Hamlet, e que já recebeu milhares de interpretações mundo afora, desde sua origem no teatro elisabetano do século XVI até os dias de hoje, ganha no magistral filme realizado em 2025 pela diretora chinesa Chloé Zaho um viés com novas dimensões…
Dimensões essas que, apesar de simples e aliciantes em sua narrativa cinematográfica são ao mesmo tempo carregadas de um profundo amor familiar poucas vezes visto no cinema contemporâneo, já agora no primeiro quarto do século XXI, impregnado de crimes, corrupção, busca de poder e sucesso, violência, onde o dinheiro (o capital) se transformou na principal ferramenta de avaliação do caráter do ser humano.
A razão e os sentimentos se misturam numa proporção que quase já não conseguimos quantificar, pois estão envolvidos numa pureza e numa sinceridade de atitudes que o presente já trata como coisa ingênua, não mais possível de acontecer, um sonho que foi substituído pela necessidade de lutar da maneira que for possível, seja ela legal ou ilegal, para garantir nossa sobrevivência.
Hamnet, o filme, é tão sustentado em sua narrativa por um sentimento de amor sincero e original que fica esquecida no texto shakespeariano a missão que Hamlet recebe do fantasma do pai, rei da Dinamarca, para vingar a sua morte, assassinado que foi pelo cunhado Cláudio, que o substitui no trono.
Mas afinal, é Hamnet ou Hamlet, perguntará o leitor que ainda não viu o filme. Na abertura há um letreiro a informar que na Inglaterra daquela época as duas grafias consideravam o mesmo nome.
Jesse Buckley (Agnes) e Paul Mescal (Shakespeare), magistrais interpretes, enriquecem a narrativa dramática de “Hamnet”, dando aos seus personagens uma dimensão realista de densa humanidade, onde a razão desperta em cada um os naturais sentimentos vividos numa época em que o cristianismo por um lado e a mitologia e filosofia grega por outro já emitiam fortes sinais de um confronto dialético mais aprofundado e humano com o passar dos anos.
“Ser ou não ser, eis a questão:
Será mais nobre sofrer na mente
Dados e flechas de uma fortuna adversa
Ou pegar em armas contra um
mar de problemas?”
William Shakespeare, tutor e professor de crianças e adolescentes, repassava os seus conhecimentos da mitologia grega. Essa qualidade, conquistada após repelir a violência paterna contra as críticas à sua incapacidade no trabalho manual, leva-o a caminhar pelas florestas próximas da cidade em que vivia, onde conhece encantadora jovem, que tem um falcão como amigo, considerada uma bruxa na região pelo modo em que vivia isolada.
Do casamento nascem três filhos: duas meninas e um menino, Hamnet. Os três vivem mais com a mãe, Agnes, enquanto o pai, William busca o sustento da família em Londres, onde apresenta suas peças de teatro.
Agnes vai até Londres, onde assiste a apresentação de Hamlet, emocionando-se com o que vê. E mais não conto…
Um filme excepcional, “Hamnet”, candidato a oito categorias do Oscar, não precisa de explicações para ser entendido. Está tudo ali: ser ou não ser? Viver ou morrer? Lutar ou sonhar?
Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.
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