4 de junho de 2026

Do direito ao voto à disputa pela cidade: as mulheres contra a barbárie, por Luana Paris Bastos

No dia 24 de fevereiro de 1932 as mulheres brasileiras conquistaram o direito ao voto. Mas será que o direito permanecerá garantido?
Reprodução

Em 24 de fevereiro, celebra-se o direito ao voto das mulheres no Brasil, conquistado em 1932 em contexto internacional sufragista.
A extrema-direita usa a “ideologia de gênero” para atacar direitos femininos, enquanto mulheres negras e periféricas enfrentam dupla opressão.
A luta pelo direito à cidade é feminista, com mulheres liderando redes comunitárias e resistindo ao retrocesso político e social.

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Do direito ao voto à disputa pela cidade: as mulheres contra a barbárie

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por Luana Paris Bastos

No dia 24 de fevereiro, comemora-se uma conquista histórica para as mulheres no Brasil: a conquista do direito ao voto. Em 1932, essa vitória estava envolta em um clima transnacional de luta das sufragistas, no qual o Brasil despontou como um dos pioneiros na concessão desse direito político. Quando pensamos nessa conquista histórica, parece óbvia e inquestionável.

Já se passaram mais de nove décadas e, hoje, são poucas as mulheres que podem dizer que viveram em uma época em que não se podia ir às urnas. No entanto, diante das graves instabilidades políticas do nosso tempo, uma pergunta se faz urgente: será que esse direito fundamental, e a nossa presença no espaço público, são conquistas inquebráveis?

O século XX foi um período histórico marcado por muita destruição, desconstrução e reconstrução. No plano internacional, após os horrores das guerras mundiais, a fundação da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1945, desempenhou um papel essencial na criação de uma agenda voltada para a garantia dos direitos humanos.

Nesse âmbito, os direitos das mulheres ganharam cada vez mais espaço e protagonismo. Até o final dos anos 1990, a sensação era de que as soluções estruturais estavam postas. Acreditava-se que, a partir daquele momento, não haveria mais como voltar atrás nas conquistas feministas, restando aos países apenas cumprirem seus acordos e adequarem suas legislações.

Contudo, a realidade do século XXI provou que o progresso não é linear. Quando as promessas de prosperidade do neoliberalismo começaram a falhar e as grandes crises econômicas assolaram a sociedade, a falsa estabilidade ruiu. A falência de um modelo capitalista predatório, baseado na individualização e no corte de gastos estatais, abriu caminho para a radicalização política.

A onda da extrema-direita global, que vem se consolidando de forma sistêmica pelo menos desde 2010, conta com uma agenda anti-gênero muito forte. Para desviar a atenção do colapso econômico, governos populistas elegeram os direitos das mulheres como o grande bode expiatório. No Brasil, essa agenda se traduziu rapidamente na disseminação da falácia da “ideologia de gênero”.

Associar direitos políticos e reprodutivos à suposta erotização de crianças, à destruição das tradições familiares e ao rompimento de valores religiosos tornou-se a arma mais forte da extrema-direita brasileira. A pergunta é: será que essa arma cultural é forte suficiente para retroceder o que foi conquistado com tanta luta? A resposta é que o retrocesso já está em pleno curso, e o seu principal alvo é o direito das mulheres em existir no espaço público.

Nas redes sociais, é comum esbarrarmos em piadas dizendo que “o feminismo não deveria ter mandado as mulheres para trabalhar”. O que parece humor esconde um sintoma trágico do nosso tempo: a exaustão profunda. A promessa de emancipação chocou-se com um sistema neoliberal que precarizou a vida e destruiu o Estado de bem-estar social. Hoje, as mulheres enfrentam o fardo de gerar renda somado à responsabilidade quase exclusiva pelo cuidado não remunerado da casa, dos filhos e dos doentes.

É exatamente essa sobrecarga brutal que a extrema-direita se alimenta. O fenômeno digital das influenciadoras conservadoras (as chamadas “tradwives”, esposas tradicionais) não vende apenas a ideia de submissão patriarcal. Através de vídeos roteirizados fazendo pão caseiro, elas vendem a ilusão de um refúgio. O ambiente doméstico é romantizado como um santuário de paz, segurança e descanso contra a crueldade das ruas e do mercado de trabalho. Para uma classe de mulheres completamente sobrecarregadas, a promessa de “voltar para o lar” torna-se perversamente sedutora.

No entanto, essa estética saudosista mascara um profundo privilégio de classe e raça. A narrativa que o feminismo “tirou” as mulheres de casa ignora por completo a realidade das mulheres negras e periféricas no Brasil. Para elas, o direito de ser “apenas do lar” nunca existiu. Muito antes de o movimento feminista hegemônico existir e reivindicar independência financeira, essas mulheres já sustentavam a sociedade sozinhas, frequentemente em trabalhos precários para garantir a sobrevivência.

Ao exaltar a “família tradicional” como a salvadora da nação, governos extremistas e neoliberais justificam o abandono do espaço público. A inoperância da cidade, a ausência crônica de creches e a falta de infraestrutura urbana não são acidentes. Elas formam um projeto que encarcera as mulheres no trabalho do cuidado invisível, terceirizando para as famílias as falhas de um Estado que lava as mãos para seus cidadãos.

Forçar o confinamento feminino na esfera privada é a estratégia perfeita para desfazer a ruptura histórica que o direito ao voto inaugurou em 1932. Para a mulher marginalizada, a cidade é o único espaço possível de geração de renda. É nos bairros precarizados que elas constroem redes comunitárias e cozinhas solidárias, provando que gerenciam a falência do estado de baixo para cima. A luta pelo direito à cidade é, portanto, uma luta inerentemente feminista.

É na coletividade do espaço urbano que as mulheres constroem alternativas concretas de sobrevivência. Elas traduzem a agência política na defesa do que chamamos de “corpo-território”: a compreensão de que a violência contra o ambiente urbano é sentida fisicamente e, portanto, defender seu bairro é defender a si mesma. Vemos isso, na prática, em mulheres liderando lutas incansáveis por moradia popular e na promoção da agroecologia urbana. São essas redes de cuidado, enraizadas no território, que oferecem a verdadeira segurança contra o colapso sistêmico e a subjugação do corpo feminino.

Celebrar o dia 24 de fevereiro ganha um sentido de urgência contemporânea. O voto foi a nossa porta de arrombamento para entrar na vida política. Noventa e quatro anos depois, não aceitaremos ser devolvidas à vida exclusivamente privada sob o falso pretexto de “segurança” para encobrir as inoperâncias do Estado. A nossa cidadania plena depende inegociavelmente da nossa presença nas ruas, na política e no debate público. Defender os direitos das mulheres hoje é a principal trincheira para reivindicar o nosso direito à cidade e frear o avanço da barbárie extremistas.

Luana Paris Bastos é Doutoranda em Relações Internacionais pela PUC Minas, mestre em Ciência Política pela UFMG e integrante do Grupo de Estudos sobre os BRICS da USP. É também pesquisadora sobre extrema-direita, direitos das mulheres, teorias feministas e decoloniais, crise climática e relações Sul-Sul e colaboradora da Rede BrCidades.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Também cabe a nós compreender como se materializa nas cidades a desigualdades de classe, raça e gênero. Isto para sabermos ouvir as vozes dos personagens que entram em cena e protagonizam um novo ciclo de lutas

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