4 de junho de 2026

A Defesa da escala 6/1 de José Pastore, por Jorge A. Benitz

O artigo começa com uma exibição de erudição, para adquirir credibilidade junto ao leitor -algo manjadíssimo por sinal
José Pastore - Confederação Nacional do Comércio - Divulgação

José Pastore defende a escala 6/1, alegando complexidade e impacto negativo na economia e nos empregos.
Pastore critica a PEC 8/2025, prevendo inflação, desemprego e informalidade, mas finge preocupação com trabalhadores.
Autor acusa Pastore de defender interesses patronais sob disfarce técnico, sem revelar seu alinhamento político.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

A Defesa da escala 6/1 de José Pastore

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Jorge Alberto Benitz

    A defesa da escala 6/1 de José Pastore, hoje (28/02) na FSP, é um primor no quesito a favor do patrão. Como muitos dizem nas redes sociais, esta gente deve ter se inspirado na revolta dos donos de escravos contra a Lei Áurea. De fato, é a mesma elite, utilizando o mesmo tom apocalíptico, que se posicionou, como os jornais da época mostram, contra a instituição do salário-mínimo por Getúlio Vargas e contra o 13º salário por João Goulart.

    Para quem não conhece o dito cujo lembro que José Pastore é um especialista em economia do trabalho. O mesmo que levou Luís Nassif a comentar no artigo de 22/02 intitulado “A Folha e o embuste do trabalhador brasileiro preguiçoso”, esta apreciação “Quando o inominável José Pastore – o mais preconceituoso dos especialistas em economia do trabalho – dá o exemplo dos bares para mostrar a baixa produtividade do trabalhador brasileiro, não entende que maior ou menor produtividade depende do modelo de trabalho implantado, desde o bar até a grande empresa.”

    O artigo começa com uma exibição de erudição, para adquirir credibilidade junto ao leitor -algo manjadíssimo por sinal -, como a dizer “quem vos fala é um especialista na área. Portanto, alguém com notório saber”. Até aí, tudo bem. Até aí morreu o Neves, como se diz. Só que nestas exibições de conhecimento técnico da área, ele vai construindo a ideia do quanto é complexo estabelecer um padrão único de escala de trabalho semanal. De quebra, como quem não quer nada apresenta um dado aparentemente científico “No Brasil, produzimos uma média de US$ 17 por hora. Nos países avançados, são mais de US$ 70”. Como disse alguém em artigo que li nas redes sociais “Não considerou no cálculo comparativo do trabalho no Brasil e nos países avançados, o tempo dispendido pela maioria dos trabalhadores brasileiros para se deslocar até o seu local de trabalho que demanda, muitas vezes, duas horas ou mais”. Diferente da realidade dos países avançados, acrescento.  Adiante, comenta que “Ganhos de produtividade são essenciais para reduzir jornada”, seguidos de uma demonstração do quanto é complexo qualquer mudança de escala semanal devido a precariedade do fator produtividade no Brasil.

    Na sequência, dá uma aliviada, relativizando ao comentar que os objetivos da proposta da PEC 8/2025 “é meritório” para logo arrematar  “mas inadequado”, pois, instaurará o caos “via inflação, rotatividade, informalidade desemprego e recessão, atingindo em cheio os trabalhadores mais vulneráveis”. Esta declaração final de que está preocupado com os trabalhadores mais vulneráveis é pura hipocrisia.

    Na conclusão, como a desmentir sua preocupação com os trabalhadores mais vulneráveis, e revelar sua principal e única preocupação sugere aos seus políticos aliados da direita que evitem se desgastar em ano eleitoral, indo contra a PEC 8/ 2025.

    Como democrata compreendo que faz parte do jogo democrático a existência de defensores do capital e defensores do trabalho e dos trabalhadores. O que não deveria acontecer é qualquer um dos lados esconder quais interesses defende – Como fazem com mais frequência os defensores dos patrões, como José Pastore por razões óbvias –, para passar a ideia de que sua tese é puramente técnica, científica.

    Enfim, a postura pró interesses do patrão de José Pastore é uma lição de como lobistas dos interesses do capital na relação capital/trabalho usa o saber de sua especialidade profissional de um modo tal procurando esconder seu alinhamento aos patrões ao se dizer apenas um estudioso, um cientista social, que oferece seu saber desinteressadamente para esclarecimento da opinião pública, quando se sabe que ele é totalmente comprometido com um lado da questão, o lado dos mais poderosos. A propósito, tem um livro interessantíssimo sobre esta farsa encenada por profissionais que se apresentam como especialistas, técnicos, para melhor ve nder seu peixe podre, de Pierre Bourdieu, intitulado “O Interesse no Desinteresse”, Editora Vozes, que recomendo.  

Jorge Alberto Benitz é engenheiro.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

2 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Rui Ribeiro

    2 de março de 2026 8:18 am

    “Ganhos de produtividade são essenciais para reduzir jornada”.

    Pois bem. Se ganhos de produtividade são essenciais para reduzir a jornada, porque os operadores das colheitadeiras modernas não tem suas jornadas de trabalho reduzidas sensivelmente, já que um operador de colheitadeira moderna colhe muito mais do que operadores de colheitadeiras mais velhas e muitíssimo mais do que trabalhadores braçais?

    No livro “Direito à Preguiça”, de Pal lafargue, consta que:

    “Em Mulhouse, em Dornach, o trabalho começava às cinco horas da manhã e acabava às cinco horas da tarde tanto no Verão como no Inverno […]. Era preciso vê-los chegar todas as manhãs à cidade e vê-los partir à noite. Há entre eles uma multidão de mulheres pálidas, magras, caminhando de pés descalços por cima da lama e que, à falta de guarda-chuva, trazem, atirados sobre a cabeça, quando chove ou neva, os aventais e as saias de cima para protegerem o rosto e o pescoço, e um número mais considerável de crianças pequenas não menos sujas, não menos pálidas e macilentas, cobertas de farrapos, todas engorduradas do óleo dos teares que lhes cai em cima enquanto trabalham. Estas últimas, melhor preservadas da chuva pela impermeabilidade das suas roupas, nem sequer têm no braço, como as mulheres de que acabamos de falar, um cesto onde estão as provisões do dia; mas trazem na mão, ou escondem debaixo do seu casaco ou como podem, o bocado de pão que os deve alimentar até à hora do seu regresso a casa.

    Assim, à fadiga de um dia de trabalho excessivamente longo, visto que tem pelo menos quinze horas, vem juntar-se para estes desgraçados a das idas e vindas tão freqüentes, tão penosas. Daqui resulta que à noite chegam a suas casas oprimidos pela necessidade de dormir e que no dia seguinte saem antes de terem repousado completamente para se encontrarem na oficina à hora da abertura.”…”

  2. Rui Ribeiro

    2 de março de 2026 8:31 am

    “Em 2028, boa parte do trabalho será feito usando agentes de IA. Da mesma forma, software complexo poderá ser feito com comandos claros dados para uma IA em português (ou qualquer outra língua).
    A Citrini criou a partir disso o conceito de “PIB fantasma”. A produção econômica cresce, mas o dinheiro não circula mais pelas famílias, porque muitos dos empregos serão eliminados. A participação do trabalho no PIB em 2028 cairia dos atuais 56% para 46%. O dinheiro que circulava como salário ficaria retido na empresa como lucro, descontado o gasto com IA”.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2026/03/empresa-demite-4000-por-causa-da-ia-e-acoes-disparam-20.shtml

    Ao ler que ‘a participação do trabalho vivo no PIB em 2028 cairia dos atuais 56% para 46%’, eu me lembro do texto de Marx intitulado “Fragmento sobre as Máquinas”, no qual consta que:

    “A troca do trabalho vivo pelo trabalho objetivado, quer dizer, a manifestação do trabalho social sob a forma antagónica do capital e do trabalho, é o último desenvolvimento da relação do valor e da produção baseada no valor. O pressuposto desta relação é – e continua sendo – que a massa de tempo de trabalho imediato, a quantidade de trabalho utilizada, representa o fator decisivo da produção de riquezas. Ora, à medida que se desenvolve a grande indústria, a criação de riquezas depende cada vez menos do tempo de trabalho e da quantidade de trabalho utilizada, e cada vez mais do poder dos agentes mecânicos postos em movimento durante a duração do trabalho. A enorme eficiência destes agentes, por sua vez, não tem qualquer relação com o tempo de trabalho imediato que custa a sua produção. Depende, antes, do nível geral da ciência e do progresso da tecnologia, ou da aplicação dessa ciência à produção. (O desenvolvimento das ciências – entre as quais as da natureza, bem como todas as outras – é, certamente, função do desenvolvimento da produção material). A agricultura, por exemplo, torna-se uma simples aplicação da ciência do metabolismo material e o modo mais vantajoso da sua regulação para o conjunto do corpo social. A riqueza social manifesta-se mais – e isto revela-o a grande indústria – na enorme desproporção entre o tempo de trabalho utilizado e o seu produto, assim como na desproporção qualitativa entre o trabalho, reduzido a uma pura abstração, e o poder do processo de produção que ele controla. O trabalho já não surge tanto como uma parte constitutiva do processo de produção; ao invés, o homem comporta-se mais como um vigilante e um regulador face ao processo de produção. (Isto é válido não só para a maquinaria, como também para a combinação das atividades humanas e o desenvolvimento do intercâmbio humano). O trabalhador não mais introduz a matéria natural modificada (em ferramenta) como intermediário entre si e a matéria; antes introduz o processo natural – transformado num processo industrial – como intermediário entre si e toda a natureza inorgânica, dominando-a. Ele próprio coloca-se ao lado do processo de produção, em vez de ser o seu agente principal. Com esta transformação, não é o tempo de trabalho realizado, nem o trabalho imediato efetuado pelo homem, que surgem como o fundamento principal da produção de riqueza; é, sim, a apropriação do seu poder produtivo geral, do seu entendimento da natureza e da sua faculdade de a dominar, graças à sua existência como corpo social; numa palavra, é o desenvolvimento do indivíduo social que aparece como a pedra angular da produção e da riqueza. O roubo do tempo de trabalho de outrem sobre o qual assenta a riqueza actual surge como uma base miserável relativamente à base nova, criada e desenvolvida pela própria grande indústria. Logo que o trabalho, na sua forma imediata, deixe de ser a fonte principal da riqueza, o tempo de trabalho deixa e deve deixar de ser a sua medida, e o valor de troca deixa portanto de ser a medida do valor de uso. O trabalho excedente das grandes massas deixa de ser a condição do desenvolvimento da riqueza geral, tal como o não-trabalho de alguns poucos, deixa de ser a condição do desenvolvimento dos poderes gerais do cérebro humano. Por essa razão, desmorona-se a produção baseada no valor de troca, e o processo de produção material imediato acha-se despojado da sua forma mesquinha, miserável e antagónica, ocorrendo então o livre desenvolvimento das individualidades. E assim, não mais a redução do tempo de trabalho necessário para produzir trabalho excedente, mas antes a redução geral do trabalho necessário da sociedade a um mínimo, correspondendo isso a um desenvolvimento artístico, científico, etc. dos indivíduos no tempo finalmente tornado livre, e graças aos meios criados, para todos”.

Recomendados para você

Recomendados