5 de junho de 2026

Óleo Diesel no Brasil: Quo Vadis?, por Mario de Carvalho Jr

Artigo busca analisar preços, produção, consumo e importação de diesel diante da crise atual, e traça paralelo com o choque de 1973.
Reprodução

Crise no Golfo Pérsico em 2026 eleva preço do barril e ameaça abastecimento de diesel no Brasil, que importa 20% do consumo.
Brasil é grande produtor, mas depende de importações de diesel; produção caiu 4,5% em 2025, enquanto importações subiram 91,7%.
Propostas incluem ampliar refino, joint venture com Rússia, uso da infraestrutura Petrobras e financiamento via recursos russos.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Preços, Produção, Consumo e Importação de Óleo Diesel no Brasil: Quo Vadis?

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Mario Cordeiro de Carvalho Junior

  1. Introdução

O mercado global de petróleo enfrenta, em março de 2026, uma nova crise geopolítica com potencial para redesenhar o equilíbrio energético mundial. Os ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel ao Irã provocaram a elevação imediata do barril de Brent para cerca de US$ 83, o nível mais alto em oito meses, e ameaçam ou há o bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde transitam cerca de 20% do petróleo mundial. Para o Brasil, cuja importação de diesel bateu recorde de 17,3 bilhões de litros em 2025 — mais de 20% do consumo nacional — a crise representa um risco concreto de desabastecimento e de escalada dos preços internos com impacto direto sobre o agronegócio, e o transporte rodoviário. Isso pode e vai ser um canal de transmissão capaz de modificar as expectativas inflacionárias.

Este artigo busca analisar e expor oito insigths acerca da provável evolução dos preços, da produção, do consumo e da importação de diesel no Brasil diante do atual conflito no Golfo Pérsico, e traça um paralelo com o choque de 1973 e propõe ações estruturantes para enfrentar a atual crise.

II- O Choque de 1973: Quando o Petróleo se Tornou Arma Geopolítica

A crise petrolífera de 1973 inaugurou a era dos choques de oferta. Em outubro daquele ano, membros árabes da OPEP impuseram um embargo contra países vistos como aliados de Israel durante a Guerra do Yom Kippur. O preço do barril quadruplicou em poucos meses, saltando de US$ 3 para US$ 12. A medida provocou recessão profunda nos Estados Unidos e na Europa, filas quilométricas nos postos de gasolina e uma reconfiguração permanente da geopolítica energética.

O embargo demonstrou que o controle sobre rotas e volumes de petróleo podia ser convertido em instrumento de pressão internacional. A partir de 1973, a energia deixou de ser tratada como mera commodity para se tornar questão de segurança nacional. Nas décadas seguintes, cada nova escalada — a Revolução Iraniana de 1979, a Guerra do Golfo de 1990, a crise de 2008 — reafirmou essa lógica.

III-2026: A História se Repete — “A Primeira Vez como Tragédia, a Segunda como Farsa”

Os ataques aéreos dos EUA e de Israel contra o Irã no final de fevereiro de 2026 escalaram dramaticamente as tensões no Oriente Médio. O principal ponto de vulnerabilidade é o Estreito de Ormuz, rota por onde passaram cerca de 13 milhões de barris/dia em 2025 — 31% de todo o petróleo transportado por via marítima no mundo. A Guarda Revolucionária do Irã emitiu mensagens de rádio a embarcações comerciais informando que nenhum navio teria “permissão para passar”, e empresas de navegação já estão redirecionando rotas e seguradoras elevando prêmios.

Segundo Saul Kavonic, do MST Marquee, um bloqueio bem-sucedido de Ormuz geraria um cenário “três vezes pior que o embargo árabe e a Revolução Iraniana nos anos 1970”, podendo levar o preço do petróleo aos três dígitos e potencialmente batendo recordes de 2022.

 IV- O paralelo com 1973 — e as diferenças

A frase de Marx, imortalizada por ele no “18 Brumário de Luís Bonaparte” — de que a história se repete, “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa” — aplica-se com precisão ao momento atual. Assim como em 1973, o choque de 2026 nasce de um conflito envolvendo Israel e potências do Oriente Médio. Assim como naquela época, a arma é o controle do fluxo de petróleo. Porém, as condições são distintas em vários aspectos:

Dimensão19732026
GatilhoEmbargo árabe por apoio a Israel (Yom Kippur)Ataques dos EUA e Israel ao Irã
MecanismoCorte deliberado de oferta pela OPEPRisco de bloqueio do Estreito de Ormuz
Impacto nos preçosBarril quadruplicou (US$ 3 → US$ 12)Brent a ~US$ 83, podendo ir a três dígitos​
Contexto de ofertaEscassez realOferta global supera demanda; estoques em alta​
Alternativas energéticasPraticamente inexistentesRenováveis em expansão, petróleo de xisto nos EUA
Posição do BrasilImportador dependente, sem pré-salGrande produtor, mas importador líquido de diesel

A “farsa” reside no fato de que, diferentemente de 1973, a produção global de petróleo em 2026 supera a demanda. O Departamento de Energia dos EUA projeta que estoques globais crescerão em 3,1 milhões de barris/dia em 2026. A produção fora da OPEC plus segue em expansão, e o próprio cartel decidiu, em 1º de março, aumentar a produção em 206 mil barris/dia a partir de abril. Portanto, não se trata de um choque estrutural de escassez, mas de um choque geopolítico de acesso a rotas, que poderá dissolver-se tão rapidamente quanto surgiu — ou, caso o conflito se prolongue, transformar-se em crise real.

Em resumo, olhando o cenário global há fatores que limitam a alta dos preços como: a) oferta superior à demanda: O consumo global de líquidos cresceu apenas 1,1 milhão de barris/dia em 2025 e deve crescer 1,2 milhão em 2026, enquanto a produção cresce mais rapidamente; b) Petróleo venezuelano: Os EUA flexibilizaram sanções à Venezuela em janeiro-fevereiro de 2026, permitindo a empresas americanas comprar, transportar e refinar petróleo venezuelano. A produção do país pode subir de 800 mil para 1,3–1,4 milhão de barris/dia em dois anos; c) Decisão da OPEC plus: O aumento de 206 mil barris/dia a partir de abril, embora modesto, sinaliza disposição de estabilizar os mercados.​

De outro lado, há fatores que podem empurrar preços para um patamar de US$ 100 por barril como: a) o bloqueio prolongado do Estreito de Ormuz: Se o tráfego marítimo for interrompido de forma significativa e duradoura, a perda de fluxo seria catastrófica; b) Ataques a instalações de produção: Até o momento, infraestruturas de petróleo foram poupadas em todos os lados. Se começarem a ser atingidas — especialmente a ilha de Kharg, responsável pela maioria das exportações iranianas — o cenário muda radicalmente​; e c) a duração do conflito visto que o Presidente Trump aposta em um conflito curto que derrube o regime iraniano. Porém, o Irã possui 90 milhões de habitantes, não há oposição organizada internamente, e o histórico de intervenções americanas no Oriente Médio sugere caos prolongado.

V- O Brasil Diante da Crise: Produção, Consumo e Importação de Diesel

O Brasil é o 9º maior parque de refino do mundo, com 18 refinarias e capacidade instalada expressiva. Contudo, a produção doméstica de diesel caiu 4,5% em 2025 (para 683 mil barris/dia), enquanto as importações dispararam 91,7% no mesmo período, para 115 mil barris/dia. As importações de diesel representam mais de 20% do consumo nacional.

A demanda por diesel deve atingir 72 bilhões de litros em 2026, impulsionada pelo agronegócio, pela indústria e pelo transporte rodoviário de cargas. Os estoques operacionais de diesel no Brasil são regulados para apenas poucos dias (uma semana), e a ANP está avaliando ampliação para mais dias — ainda insuficiente diante de uma provável crise de suprimento externo.

Cumpre destacar que, em 2025, a Rússia permaneceu como principal fornecedor externo de diesel ao Brasil, com 8,1 bilhões de litros (queda de 14% ante 2024 devido a ataques ucranianos às refinarias). Os EUA ocuparam a segunda posição com 5,7 bilhões de litros, seguidos por Índia e Arábia Saudita. Para 2026, a StoneX projeta maior participação norte-americana na oferta de diesel ao Brasil, enquanto o volume russo dependerá da capacidade daquele país de financiar a venda do produto refinado ao Brasil.

O preço médio do diesel nas distribuidoras é de R$ 3,55/litro, após uma redução de 4,78% em abril de 2025. Contudo, a Refinaria de Manaus (Ream), operada pelo grupo Atem, pratica preços até 11,3% acima da paridade internacional, a R$ 3,70/litro. O ICMS sobre combustíveis foi reajustado em 2026, adicionando pressão de custos. Com a alta do Brent, novos reajustes são prováveis.

VII- Propostas Estratégicas para Enfrentar a Escalada de Preços

Face à possibilidade de haver pressão por aumento de custos e preços de diesel, no Brasil, é preciso idemtificar as possibilidades de expansão da capacidade de refino da  RNEST e da REAM. Na Refinaria Abreu e Lima (RNEST) com a conclusão do “revamp” do Trem 1 elevou a capacidade de processamento de 115 mil para 130 mil barris/dia, com aumento de 40% na produção de diesel S-10. A RNEST tem a maior taxa de conversão de petróleo cru em diesel do Brasil (70%), e quando a duplicação (Trem 2) estiver concluída, prevista para 2029, processará cerca de 260 mil barris/dia, respondendo por 70% da capacidade de produção de diesel S-10 da Petrobras e 17% da demanda nacional. Acelerar a conclusão do Trem 2 é medida estratégica prioritária.

Por sua vez, a Refinaria de Manaus (REAM) opera com preços elevados e descolados do resto do país. Uma revisão dos termos regulatórios e de concessão, combinada com incentivos para ampliação da capacidade e alinhamento dos preços ao mercado, poderia aumentar a oferta regional e atender à demanda da Zona Franca de Manaus e do agronegócio amazônico.

Cabe destacar que há ainda a Refit, anteriormente conhecida como Refinaria de Manguinhos. Esta é uma empresa privada de refino de petróleo localizada no Rio de Janeiro, fundada em 1954. A mudança de marca ocorreu em 2017 para consolidar sua atuação, com foco no refino, comercialização e distribuição de combustíveis, como gasolina, GLP, e diesel. Vale lembrar que a empresa foi alvo de operações da Receita Federal e Polícia Civil devido a suspeitas de fraudes e dívidas elevadas.

Apesar disso, a   Refit, produz Diesel A S-10, e possui parque de armazenagem de mais de 200 milhões de litros. Contudo, a empresa foi interditada pela ANP sob suspeita de operar com formulação simples de combustíveis em vez de refino efetivo. A eventual reativação de suas operações de refino genuíno dependeria de regularização junto à ANP e investimentos significativos em infraestrutura.

Essa situação de insegurança jurdíca abre espaço para após ajustes legais de acordo com a legislação de devedor costumaz de se criar uma joint venture com empresa petrolífera russa´sob a forma de uma Empresa de Propósito Específico (SPE) com empresa russa (como Rosneft ou Lukoil ). Isso com o objetivo de gerir uma ou duas unidades de refino de diesel no Brasil. Se trata de uma proposta ousada, mas passível de ser efetivada. A Rússia já é um dos principais fornecedores de diesel ao Brasil, e dispõe de know-how em operações de refino. A formação de uma joint venture permitiria: a) a transferência de tecnologia para processamento de petróleos pesados (adequados ao pré-sal brasileiro); b) Garantia contratual de fornecimento de petróleo bruto ou semi -processado; c) Diversificação das fontes de suprimento, reduzindo dependência do Oriente Médio.

Uma outra medida para reforçar o nível de estoques no Brasil seria adquirir petróleo da “dark fleet”. A “frota sombra” (dark fleet) russa é uma rede de centenas de petroleiros — estimados entre 1.100 e 1.400 navios em 2025 — que opera fora dos sistemas de seguro e rastreamento ocidentais, transportando principalmente petróleo bruto e derivados russos e iranianos. A BBC identificou 36 navios dessa frota operando na costa brasileira. A identificação e aquisição de cargas dessas embarcações, com desconto em relação ao preço de mercado, poderia reforçar os estoques brasileiros, que hoje duram poucas semanas. Operacionalmente, isso exigiria:​ a) Monitoramento via sistemas de inteligência marítima (AIS, imagens de satélite); b) Negociação por intermédio de tradings especializadas; e c) Estruturação de terminais de recebimento em áreas estratégicas (Sul e Norte).

Nesse sentido haverá necessidade do uso da infraestrutura da Transpetro e da Petrobras para processamento e distribuição direta contra pagamento serviços de industrialização do diesel. Essa recomendação decorre do fato de que a Transpetro opera aproximadamente 8,5 mil quilômetros de dutos, 540 tanques, 21 terminais terrestres e 27 terminais aquaviários, com capacidade total de armazenamento de 10 milhões de m³. A Petrobras ampliou em mais de 20% a capacidade de produção de diesel S-10 entre 2023 e 2025, com FUT médio de 92%.

Isso significa que a proposta é utilizar essa infraestrutura para prestar serviços de industrialização de transformação (tolling) — recebendo petróleo bruto comprado por trading company especializada de terceiros na Rússia, transportando o óleo  pela Transpetro e processando na Petrobras contra prestação de serviços – afastando o perigo dessas empresas virem a serem processadas pelo OFAC dos EUA sob alegação de sanções econômicas. Assim, o diesel processado seria entregue diretamente às cooperativas do agronegócio e de empresas da agricultura família. Isso é uma ação viável e estratégica. Os benefícios incluem: a) Eliminação de intermediários na cadeia de distribuição, reduzindo custos para o produtor rural; b) Aproveitamento da capacidade ociosa de refino e armazenagem; c) Fortalecimento da segurança alimentar ao garantir suprimento de diesel para o escoamento de safras; e d) Possibilidade de contratos de longo prazo com cooperativas, dando previsibilidade e lucratividade ao agronegócio num contexto de desvalorização do dólar no mercado internacional e redução dos custos atuais de produção de commodities.

Para financiar as operações descritas acima — joint venture, aquisição de estoques, expansão de refino — propõe-se a mobilização de recursos financeiros russos mediante operações estruturadas de Financiamento ás Importações – Finimp – com lastro em ouro-ativo financeiro, conforme previsto na Lei brasileira  7.766/1989.

A estrutura da operação de Finimp compreenderia os seguintes passos, a saber: a) o investidor não residente (grupo russo não sancionado) detém ouro físico custodiado no exterior, representado por Depositary Receipts (DRs) emitidos por instituição depositária estrangeira, conforme disciplinado pela Resolução Conjunta CVM/BCB 13/2024 b) Este faria um Investimento Estrangeiro Direto (IED) sob a forma de  DRs a ser aportados como capital para financiar as importações na trading company brasileira, registrada como SCE-IED no Banco Central, nos termos da Resolução BCB 278/2022 e da Lei 14.286/2021;e c) a trading junto com o seu banco concederia crédito na compra do diesel às cooperativas do agronegócio e agricultura familiar  pagando pelo custo da matéria prima aos russos e pelo serviços de industrialização à Transpetro, à Petrobras e à Trading.

A lógica de financiamento com recursos russos parte da premissa que se usaria recursos financeiros aportado pelos próprios parceiros russos, o que facilitaria a aquisição e liquidação de petróleo da dark fleet russa; e poderia viabilizar crédito mais barato para cooperativas agrícolas e produtores rurais adquirirem diesel diretamente e mais barato sem subsídios do tesouro nacional.

Há Riscos e ressalvas pois as operações com ouro-ativo financeiro envolvendo partes privadas ou russas  estão sujeitas ao escrutínio de sanções internacionais, exigindo análise caso a caso pelo compliance do Banco Central e pelos departamentos jurídicos das instituições envolvidas. E, a viabilidade prática dependeria de se ter algum alinhamento político-diplomático entre Brasil e Rússia.

VIII- Agir Antes que a Farsa Vire Tragédia

A crise no Golfo Pérsico de 2026, embora ainda não tenha atingido a gravidade do choque de 1973, expõe a vulnerabilidade estrutural do Brasil no mercado de diesel — um país que exporta petróleo bruto e importa o combustível refinado que move sua economia. As propostas aqui apresentadas — aceleração da RNEST e reorganização da REAM/Refit, joint venture com parceiro russo, aquisição oportunista de estoques na dark fleet, uso da infraestrutura Transpetro/Petrobras para tolling direto ao agronegócio, e financiamento estruturado — formam um programa de ação que combina pragmatismo econômico com diversificação geopolítica.

A história de fato se repete: em 1973, o Brasil respondeu ao choque com o Proálcool e a prospecção do pré-sal. Em 2026, a resposta deve ser igualmente estruturante: aumentar a capacidade de refino, diversificar fornecedores, construir estoques estratégicos e proteger os setores mais vulneráveis — o transporte, o agronegócio e a agricultura familiar — dos efeitos de uma guerra que não é nossa!

Mario Cordeiro de Carvalho Junior – Professor FAF- UERJ

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados