10 de junho de 2026

O cerco e seus efeitos de cicatrização social, por Luiz Alberto Melchert

Quando o estado moral da sociedade cercada é mal interpretado pelos sitiadores, o cerco pode produzir efeito inverso ao pretendido.
Reprodução

O cerco atua sobre a moral coletiva das sociedades, visando corroer a coesão social para subjugar a resistência.
Defesas naturais e muralhas criam vulnerabilidade estrutural, permitindo o cerco ao isolar cidades e cortar suprimentos.
Quando mal interpretado, o cerco pode fortalecer a unidade social, funcionando como mecanismo de cicatrização social.

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O cerco e seus efeitos de cicatrização social

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Resumo

O cerco é tradicionalmente descrito na história militar como técnica destinada a subjugar cidades ou sociedades mediante isolamento e privação de recursos. Este artigo propõe uma leitura diferente do fenômeno. Argumenta-se que o cerco atua antes de tudo sobre a moral coletiva das sociedades cercadas. Seu objetivo não é apenas produzir escassez material, mas corroer a coesão social que sustenta a resistência. No entanto, quando o estado moral da sociedade cercada é mal interpretado pelos sitiadores, o cerco pode produzir efeito inverso ao pretendido: em vez de dissolver o tecido social, ele pode recompor sua unidade. Nesses casos, o cerco transforma-se paradoxalmente em mecanismo de cicatrização social.

  1. Cerco como experiência humana fundamental

Antes de se tornar técnica militar ou instrumento de política internacional, o cerco aparece nas narrativas mais antigas como experiência humana de pressão e privação.

A tradição bíblica oferece dois exemplos particularmente conhecidos. No relato da paciência de Jó, o personagem é submetido a uma sequência de perdas que o isolam progressivamente de seus meios de sustento e de sua vida social. Trata-se de uma forma individual de cerco, na qual a pressão não visa a destruição imediata do indivíduo, mas sua capitulação moral.

Outro episódio aparece na narrativa da queda de Jericó. Nesse caso, o cerco assume forma coletiva e militar. A cidade é circundada por forças inimigas que exercem pressão contínua sobre seus habitantes. Independentemente da interpretação histórica do episódio, a narrativa evidencia a lógica fundamental do cerco: a tentativa de quebrar a resistência de uma comunidade por meio do isolamento.

Esses exemplos sugerem que o cerco é, antes de tudo, uma experiência moral e social antes de se tornar uma técnica militar.

  1. Defesa territorial e vulnerabilidade ao cerco

À medida que comunidades humanas passaram a se organizar em cidades permanentes, surgiu também a necessidade de mecanismos concretos de defesa.

Povos antigos recorreram principalmente a duas estratégias: a construção de muralhas e a escolha de localizações naturalmente defensáveis. Cidades erguidas sobre colinas, penhascos ou cercadas por rios tornavam-se difíceis de atacar diretamente.

Entretanto, essas mesmas estratégias defensivas criavam uma vulnerabilidade estrutural: a possibilidade de isolamento.

Quando uma cidade não podia ser tomada de assalto, tornava-se possível cercá-la e cortar suas rotas de abastecimento. Assim surgiu a lógica estratégica do cerco militar clássico.

O cerco transforma a vantagem defensiva em confinamento.

  1. A ruptura moral como fator decisivo

A historiografia militar frequentemente enfatiza máquinas de guerra — catapultas, trabucos ou artilharia — como instrumentos decisivos na queda de cidades sitiadas. Contudo, a análise de muitos cercos históricos sugere que o fator determinante raramente tenha sido tecnológico.

Cidades cercadas costumavam cair quando sua coesão interna se rompia.

A fome, a escassez, as doenças e o medo prolongado produziam tensões sociais que frequentemente resultavam em conflitos internos, disputas de liderança ou traições.

Nesse sentido, o cerco atua menos sobre as muralhas do que sobre a moral da comunidade sitiada.

A cidade cai moralmente antes de cair militarmente.

  1. Masada e a dissolução interna

Um dos episódios mais dramáticos dessa lógica foi descrito por Flávio Josefo em sua obra sobre a guerra dos judeus contra Roma. O cerco da fortaleza de Masada é frequentemente apresentado como exemplo de suicídio coletivo diante da inevitabilidade da derrota.

Contudo, interpretações críticas sugerem que o episódio pode ter sido mais complexo. Em situações extremas de cerco, a distinção entre sacrifício coletivo e violência interna pode tornar-se difusa. O massacre dos mais fracos, seguindo-se do suicídio de parte dos algozes não são incomuns em isolamento extremo, nem para animais, nem para humanos.

Independentemente da precisão histórica, esse episódio ilustra um aspecto fundamental do cerco: sua capacidade de dissolver a ordem social interna.

  1. O cerco e o erro de leitura moral

O cerco é sempre uma aposta. Quem cerca precisa avaliar corretamente o estado moral em que se encontra a sociedade que se pretende subjugar. Quando essa leitura é equivocada, o cerco pode produzir o efeito oposto.

Um exemplo significativo ocorreu durante a invasão alemã da União Soviética em 1941, quando Hitler decidiu por uma nova frente, na direção sul, em busca do petróleo do Cáucaso.

Na Ucrânia, a memória da grande fome dos anos 1930 — o Holodomor — ainda estava extremamente viva. Essa tragédia havia provocado uma profunda ruptura moral, pois registraram-se casos de canibalismo, entre outras depravações causadas pela inanição, que, por sua vez, atribuíra-se ao regime soviético.

Parte da população recebeu as tropas alemãs como libertadoras.

A ocupação alemã rapidamente dissipou qualquer expectativa positiva. A brutalidade e a exploração econômica transformaram a percepção inicial da invasão.

O cerco de Kiev reacendeu o espírito de resistência. Aquilo que poderia ter sido explorado como ruptura moral funcionou como catalisador de mobilização. Resumindo, a leitura alemã da situação social da Ucrânia revelou-se equivocada.

  1. O cerco e a recomposição da coesão social

Fenômeno semelhante pode ser observado em outras situações.

Antes da revolução de 1959, amplos setores da sociedade cubana já se ressentiam da crescente dependência econômica dos Estados Unidos e da expansão do turismo ligado ao jogo e ao entretenimento como sinais de degradação nacional, perante o crime organizado estadunidense.

Quando o país passou a enfrentar o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos, esperava-se que a pressão sobre a vida material dos cidadãos produzisse instabilidade política suficiente para derrubar o novo regime.

Entretanto, o isolamento externo acabou sendo reinterpretado como desafio nacional. A própria sobrevivência sob embargo de quase setenta anos de duração tornou-se símbolo de resistência. Nesse caso, o cerco contribuiu menos para dissolver a sociedade do que para promover coesão interna.

  1. O cerco e a hegemonia

Esse fenômeno pode ser interpretado à luz da teoria da hegemonia desenvolvida por Antonio Gramsci.

Para Gramsci, sistemas políticos duradouros não se sustentam apenas pela coerção. Eles dependem da construção de hegemonia, isto é, da capacidade de organizar consentimento social em torno de uma determinada ordem política.

A coerção aparece principalmente nos momentos de crise ou de fundação de uma nova ordem. No funcionamento cotidiano do poder, a hegemonia torna-se o elemento predominante.

O cerco atua precisamente nesse ponto de tensão entre coerção e hegemonia.

Quando encontra uma sociedade já moralmente fragmentada, ele pode precipitar o colapso político.

Quando encontra uma sociedade capaz de recompor sua identidade diante da ameaça externa, ele pode produzir o efeito oposto: reorganizar o consenso interno.

A coerção externa pode, paradoxalmente, tornar-se fator de recomposição da hegemonia.

Conclusão

A história mostra que o cerco não atua apenas sobre recursos materiais. Ele atua sobretudo sobre a moral coletiva das sociedades cercadas.

Seu sucesso depende menos da intensidade da pressão externa do que da leitura correta da coesão interna da comunidade sitiada.

Quando essa leitura falha, o cerco pode produzir o efeito inverso ao pretendido. Em vez de destruir o tecido social, ele pode reconstruí-lo.

O cerco é eficaz quando encontra uma sociedade já moralmente sitiada.

Quando encontra uma sociedade capaz de recompor sua unidade, ele deixa de ser instrumento de dissolução e transforma-se, paradoxalmente, em mecanismo de cicatrização social.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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