20 de maio de 2026

Por que não há um plano de metas de Lula, por Luís Nassif

Um governo sem plano não mobiliza o setor real da economia. Não atrai investimento privado de qualidade, aquele que não depende da política
Lula por Marcelo Camargo - Agência Brasil

Plano de metas limitaria Lula ao exigir organização pública com objetivos claros e rastreabilidade das ações.
Juscelino usou conselho paralelo para metas sem mexer no ministério; Lula poderia replicar, mas evita conflito com lobbies.
Sem plano, governo não atrai investimento privado nem gera esperança, mantendo-se na gestão do presente instável.

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O que tem a ver o receio que a Lava Jato plantou em Lula com sua resistência a um plano de metas — instrumento que permitiria ao brasileiro, minimamente, enxergar o futuro?

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A resposta é mais direta do que parece.

Um plano de metas exige organizar a estrutura pública em torno de projetos e objetivos claramente definidos. E isso — exatamente isso — tiraria de Lula a liberdade necessária para operar seu presidencialismo de coalizão. Metas documentadas criam rastros. Rastros criam responsabilidades. E obrigam a uma mudança no modelo de atuação política.

O modelo que já funcionou

Não seria necessário nem demitir os ministros do Centrão. Juscelino Kubitschek provou isso. Manteve intacta a estrutura ministerial e, ao mesmo tempo, montou grupos de trabalho paralelos para definir planos e metas. A engenharia foi simples e eficaz: um Conselho de Desenvolvimento ligado diretamente à Presidência coordenava prioridades e execução. O BNDE financiava a indústria pesada, a infraestrutura, a energia e o transporte. O Ministério da Fazenda respondia pela política macroeconômica — mas subordinada ao projeto de desenvolvimento, não ao contrário.

Lula poderia fazer o mesmo hoje. Há capital humano de sobra: planejadores de renome, quadros qualificados espalhados pelo IPEA, pela Finep, pelo BNDES. Montaria um Conselho de Desenvolvimento, definiria prioridades técnicas, e os ministros continuariam com seus cargos e suas bancadas satisfeitas.

Qual seria o problema, então?

A lógica que incomoda

O problema é que um plano de metas impõe uma lógica econômica. E a lógica econômica não negocia com lobbies.

Tome-se o setor elétrico como exemplo concreto. Quem define os leilões de energia — o tipo, o volume, os lotes — é o Ministério de Minas e Energia, sob Alexandre Silveira, em articulação com a Casa Civil. É ali que se decide se haverá leilão, se entram ou não as térmicas subsidiadas, se os lotes são desenhados para favorecer determinados grupos. O resto vem atrás.

E os ganhadores são sempre os mesmos. Em 2024, a Eletrobras ficou com mais de 30% dos investimentos contratados nos leilões. O BTG, naquele mesmo ano, levou 36% — e em 2025 um fundo do banco arrematou o maior lote disponível. A geometria dos lotes não responde à eficiência energética: responde às pressões dos grandes grupos e às suas respectivas bancadas no Congresso.

Um plano de metas — construído com critério técnico e exposição pública — jamais teria deixado passar a Lei da Eletrobras de 2021, que obrigou a contratação de usinas térmicas a custos absurdos para o consumidor. Simplesmente não teria sobrevivido ao escrutínio.

A esfinge e seu dilema

Essa é “a esfinge de Lula” — o decifra-me ou te devoro.

O jogo de atender lobbies tem uma função real e não deve ser subestimado: ele costura apoios episódicos no Congresso, apaga incêndios antes que virem crises, permite ao governo empurrar o país com a barriga sem implodir. Numa democracia com 30 partidos, isso não é pouca coisa. A alternativa imediata é o caos.

Mas o custo estratégico é alto demais.

Um governo sem plano não mobiliza o setor real da economia. Não atrai investimento privado de qualidade — aquele que não depende de concessão política para existir. Não dá sinal de esperança para a geração que está nas universidades, nem para os jovens que transitam pelas periferias sem perspectiva clara de futuro. E, sem narrativa de futuro, um governo vive apenas de gerenciar o presente — até que o presente se torne insustentável.

O tempo corre

A exploração do caso Lulinha pelos grandes jornais — e agora pelo Jornal Nacional — indica que a Lava Jato 2 está a pleno vapor. A janela para Lula mudar o jogo, saindo da defensiva e colocando um projeto positivo na mesa, se estreita a cada semana.

A esfinge não espera.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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6 Comentários
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  1. WRamos

    19 de março de 2026 12:51 pm

    Sem dúvida um plano de metas seria o caminho correto. Mas não parece oportuno na realidade atual. No passado a estatização era bem vista, hoje é demonizada. A dívida pública, nem sei se era tão grande, mas o desenvolvimento era premissa das elites também, que puderam desenvolver os imensos grupos econômicos que exitem hoje. Tal qual na idade média, os ricos passaram a emprestar ao estado para não pagarem mais impostos. Hoje apresentam a conta querendo não só resgate fácil de seus papéis mas também rendimento alto para aumento de patrimônio, mesmo diante de sua incompetência de empreender. Aí o investimento em infra estrutura e modernização fica dependente dos capitais privados, mesmo com suporte e participação do setor público. Acredito que a tarefa assumida por Lula de recolocar o setor público no trilho, depois do descarrilamento completo da era Temer/Bonsonaro, ficou muito maior do que se supunha na eleição de 2022, mais ainda após a explicitação do golpe com uma semana de mandato. Acredito que o segundo mandato pode completar a tarefa e aí sim encaminhar o processo de planejamento, talvez não o plano ainda. Isso foi dito nas entrelinhas por Haddad ao revelar que gostaria de conduzir este processo em lugar de se arriscar em eleição. Mas a própria aceitação dele de se candidatar, revela a dificuldade da tarefa e a necessidade de concentrar esforços e recursos em recivilizar o país. E neste ponto, minha premissa é a de que quando achamos que Lula erra, depois entendemos que não era bem isso.

  2. Cidadão sem cidadania

    19 de março de 2026 1:39 pm

    https://youtube.com/shorts/POkc1mQrDzk?si=0UcMrlCX2s_2UDB5

    Lula nada fará , continuará a doa o pré sal e tudo mais

  3. José Machado

    19 de março de 2026 5:34 pm

    O Plano de Metas já é obrigatório Nassif, desde consituição federal de 1988.
    Todo poder executivo é obrigado por Lei (São as Leis Orçamentárias) a criar
    todo planejamento do mandato (Presidente da República, Governadores e
    Prefeitos). São os planos: PPA (Pano Plurianual para 5 anos), LDO (anual)
    e LOA (Esse para execução orçamentária). Todos tem prazo para serem apresentados
    ao parlamento que aprova. E sem eles não se governa.

    O PPA já não seria o plano de metas?

  4. Pedro Rocha

    20 de março de 2026 2:14 pm

    As virtudes políticas e profissionais do Lula são, muito infelizmente, superestimadas. Durante muito tempo considerar suas evidentes limitações era praticamente ultrajante, pois vivemos um momento ufanista na primeira década do século. Tanto é assim que releva-se tranquilamente quando afirma todo bonachão que “entregou muito dinheiro aos bancos”, uma indececência asquerosa. Tendo como orientação premissas fajutas, como a ideia de agir inofensivo para elites políticas a fim de não sofrer impedimentos congressuais, assumiu o poder na maior e melhor janela de oportunidades da história – uma verdadeira época de bonança – e a arremessou no lixo. O Lula indicou péssimos indivíduos para o STF, permitiu o Temer como Vice da Dilma, colocou um banqueiro no Banco Central, não conduziu nenhuma reforma política, não consegue renovar os quadros de seu próprio partido, não é capaz de acentuar os contrastes políticos com a vilania da ultradireita. Seu negócio é estar com chefes de estado enquanto a casa pega fogo. Pior ainda: a esquerda até hoje o elegeu, em troca assiste ao seu esvaziamento. Este enfraquecimento ideolígico, não tenho dúvidas, é a maior tragédia da história nacional. Tão trágico que o maior e mais grave assunto que se pode ter é justamente o oposto do que acontece: as bases para criação da Nova Esquerda.

    1. José Célio Coelho

      20 de março de 2026 9:35 pm

      Os meus oitenta anos concordam com Pedro Rocha. Comecei a me interessar por política em 24/08/1954. Ainda faltavam dois meses para os meus oito anos de vida. Passei esse tempo todo esperando a esquerda progressista, ética, competente, assumir o Poder. O PT até fez muito se eu pensar na Direita. Mas o Lulismo é negociador, patrão-trabalhador, conforma-se com o varejo. Não transforma, ajeita. Alimenta sempre a onça faminta. Suas lideranças nem ruborizam as faces para justificar a nomeação de suas esposas para o Tribunais de Conta. Como querer que se tire a esquerda do saco geral. A história de Lula é extraordinária, entretanto, simboliza a esquerda que a Direita permite. Bem parecida com ela!

      1. jose machado

        21 de março de 2026 12:26 pm

        Lula foi e é o nosso melhor político. É um exemplo para a política, um modelo a ser seguido por todos.
        E isso não é lulismo cego, nem fanatismo, pois critico muitas coisas no governo Lula.
        Mas não se vê em nenhum lugar nesse país políticos que se interessam mais pelo povo (que é o objetivo
        claro, da nossa constituição) que é o bem-comum, e pela nação. Promessas são ditas, entregues e alcançada pelo Lula.
        Lula já prometeu e já entregou muito mais que esperaríamos dele. Mas é o tempo todo sabotado pelas elites.
        Há, sim, há outros políticos que podem desenvolver ainda mais esses país, todos são do lado progressista.
        Já estive com Lula uma vez; é baixinho, atarracando, e desconfiado. Fisicamente ninguém dá nada por ele.
        Mas não podemos medir homens pela sua compleição física e muito menos pela sua origem humilde.
        Nem pelo seu background educacional. Pois a verdadeira escola é a vida.

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