Lula não é um homem de recuos fáceis. Basta observar como enfrentou a Lava Jato — a exposição pública de sua família, as campanhas de humilhação sistemática, os anos de prisão — sem jamais se dobrar. Não é a coragem que lhe falta.
O que lhe falta, hoje, é a capacidade de conviver com o imprevisível. E esse déficit, instalado pelo trauma de uma perseguição judicial sem paralelo na história democrática brasileira, compromete seu projeto de governo.
O padrão que não foi aplicado a ele
Para entender o que aconteceu com Lula, é preciso comparar com seus pares diretos — os presidentes brasileiros contemporâneos tratados segundo o padrão normal da república.
Quando Fernando Henrique Cardoso deixou a presidência, saiu de um apartamento classe média na rua Maranhão e foi morar em um imóvel de alto padrão na rua Rio de Janeiro, declarado por valor equivalente à metade do preço de mercado, segundo moradores do próprio prédio. O vendedor era um banqueiro que operava contas de campanha do PSDB. Sua primeira palestra remunerada foi para a Ambev — empresa que havia sido diretamente beneficiada pela aprovação, pelo CADE, da fusão entre Brahma e Antarctica durante seu governo — com cachê de 150 mil dólares. Nenhum inquérito. Nenhuma manchete. Nenhum perito avaliando o apartamento.
FHC fundou depois o Instituto Fernando Henrique Cardoso, com instalações de alto padrão bancadas por patrocinadores privados. Também não houve investigação sobre eventuais sobreposições entre os financiadores do instituto e os beneficiados por decisões de seu governo.
Esses fatos não são acusações. São registros públicos que nunca foram tratados como suspeitos — porque, no padrão republicano vigente à época, não havia razão para isso. Políticos que deixam o poder constroem legados, dão palestras, recebem patrocínios. É assim em todo o mundo democrático: Bill Clinton, Tony Blair, Barack Obama fizeram o mesmo.
Quando chegou a vez de Lula, o padrão mudou. Palestras viraram propina. Um sítio em Atibaia que ele frequentava, mas não possuía, virou prova de enriquecimento ilícito. A decisão de uma empresa de telefonia de instalar uma antena próxima ao imóvel chegou a ser mencionada em peças judiciais. O triplex do Guarujá — cujo contrato de compra nunca foi assinado por Lula — rendeu uma condenação que o impediu de concorrer à presidência em 2018.
O trauma e suas consequências políticas
É nesse contexto que se entende o que aconteceu com Lula. A Lava Jato não apenas o prendeu — instalou nele um mecanismo de defesa que até hoje governa suas escolhas políticas.
De volta à presidência, Lula optou pelo caminho da máxima previsibilidade. Escolheu o presidencialismo de coalizão em sua forma mais clássica e aguda — distribuição de cargos em ministérios e estatais em troca de apoio parlamentar, o modelo que FHC consolidou e que o PT sempre criticou, mas que oferece algo que Lula passou a valorizar acima de quase tudo: controle. Nada de improviso. Nada que escape ao cálculo.
O problema é que o imprevisível não se deixa conter por arranjos políticos. E Lula, que sobreviveu ao que haveria de mais brutal na política brasileira, parece ainda não ter encontrado uma forma de governar que incorpore o risco em vez de apenas tentar eliminá-lo.
A prova mais recente veio de fora de qualquer trama política. O Estadão publicou como manchete a sugestão de que a viagem do filho de Lula à Espanha poderia ser uma tentativa de fuga diante do escândalo do INSS — para depois registrar, no corpo da própria matéria, que a viagem havia sido planejada um ano antes de qualquer escândalo. A sequência é reveladora: o desmentido estava no texto, mas o dano estava no título. Uma não-notícia tornou-se fato político.
Lula pode argumentar, com razão, que a perseguição não cessou. Mas governar em estado permanente de defesa tem um custo. A cautela que o protege também o limita. E o Brasil de 2026 exige mais do que previsibilidade — exige liderança capaz de assumir riscos calculados.
O homem que enfrentou a Lava Jato de cabeça erguida ainda está lá. A questão é se ele vai conseguir, desta vez, governar sem o peso do receio que ela deixou.
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brunobgl
18 de março de 2026 3:44 pmE agora, dos mesmos criadores de “O Rascunho do Gmail”, está no ar “O Print do Bloco de Notas”.
Bernardo
18 de março de 2026 4:33 pmA precaução de Lula é totalmente compreensível mas o jogo político para valer começa em abril com a definição de candidaturas ; Lula é calejado e saberá como e a hora certa de começar o embate. E precisará de muito mais ação de quem o apoia nessa próxima eleição dos que em todas as anteriores.
Eduardo Pereira
18 de março de 2026 6:19 pmTb acho, mas tem muita gente já queimando a largada. A midia ta fazendo a campanha desde o ano passado.
Carlos
18 de março de 2026 5:28 pmNo Brasil atual não existe ninguém melhor que Lula para governa-lo.
E sim, Lula pisa mais devagarinho no pântano político. Afinal gato escaldado tem medo de água fria e cautela e caldo de galinha não faz mal a ninguém, já ensinava nossos avós.
E o Brasil atual é uma quimera politica monstruosa, um híbrido escroto composto do que há de pior no ser humano.
Neste chorume misturam-se, como num coito de muitas serpentes, falsos líderes religiosos, vendilhões da patria, putas castas, assassinos, escravagistas, racistas, enfim, o que há de pior.
Sim, com razão Lula deve olhar muito bem onde pisa
jose machado
21 de março de 2026 1:14 pmÉ isso mesmo, resumiu tudo: O Brasil é uma quimera política.
O importante é que sabemos disso. Pior são povos, de outras nações, que não sabem quem
são seus políticos e nem sua imprensa. Nós estamos avançado nisso.
Falta botar essa direita para fora do parlamento. Acho que avançaremos pouco nisso.
Rafael
18 de março de 2026 6:48 pmNão é “receio” é cerco.
Veritas
18 de março de 2026 8:24 pmO plano industrial para as terras raras, o desenvolvimento da magnetônica, fundamental para os motores ressonantes, é o grande plano para o futuro q precisa de líderes para o seu desenvolvimento. Na ausência, acordos estaduais com os USA acabam com a federação,e parecem entregar sem propósitos está importante riqueza..
Rui Ribeiro
19 de março de 2026 6:12 amNinguém quer saber a origem dos recursos com os quais o Vorcaro disponibiliza jatinhos para o Nikolas/Valadão voarem pelo Brasil fazendo campanha eleitoral para o Bostonaro nem a origem dos polpudos recursos doados a Bolsonaro e Tarcísio. Eles querem saber se o Lulinha viajou para Portugal com dinheiro desviado do INSS pelo Careca.
Esse país deveria se chamar Brabosta, não Brasil.
ERNESTO
19 de março de 2026 2:52 pmMagnanimidade em excesso na vítima, acaba resultando na impunidade dos agressores. Desejo de vingança não é bom, por isso mesmo também muito estigmatizado do ponto de vista hipócrita dominante, mas quando bem conduzido pode funcionar como um bom antidoto inibindo a ânsia de repetição das agressões.
angelaneves
19 de março de 2026 4:13 pmVerdade verdadeira, eu quero a vitória para Lula esse ano, mais ao mesmo tempo desejo que ele nos mande pra puta que pariu e vai viver o que ainda lhe resta da vida, somos um povo sem noção e sem caráter, portanto merecemos os bolsonaros da vida!!!!!!
LUIS CARLOS GODOY
20 de março de 2026 3:42 pmComo os meus colegas de trabalho costumavam dizer, no jornal onde iniciei minha carreira, “quem tem *u tem medo”!