21 de maio de 2026

O receio que a Lava Jato plantou em Lula, por Luís Nassif

A cautela que o protege também o limita. E o Brasil exige mais do que previsibilidade — exige liderança capaz de assumir riscos calculados.
Lula horas antes de se apresentar à PF em São Bernardo - Foto de Ricardo Stuckert

Lula enfrentou a Lava Jato sem recuar, mas o trauma da perseguição judicial afeta sua capacidade de lidar com o imprevisível.
Ao contrário de Lula, ex-presidentes como FHC tiveram condutas semelhantes sem investigação, mostrando mudança no padrão aplicado.
De volta ao poder, Lula opta por coalizão previsível, mas governar com medo do risco limita sua liderança em 2026.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Lula não é um homem de recuos fáceis. Basta observar como enfrentou a Lava Jato — a exposição pública de sua família, as campanhas de humilhação sistemática, os anos de prisão — sem jamais se dobrar. Não é a coragem que lhe falta.

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O que lhe falta, hoje, é a capacidade de conviver com o imprevisível. E esse déficit, instalado pelo trauma de uma perseguição judicial sem paralelo na história democrática brasileira, compromete seu projeto de governo.

O padrão que não foi aplicado a ele

Para entender o que aconteceu com Lula, é preciso comparar com seus pares diretos — os presidentes brasileiros contemporâneos tratados segundo o padrão normal da república.

Quando Fernando Henrique Cardoso deixou a presidência, saiu de um apartamento classe média na rua Maranhão e foi morar em um imóvel de alto padrão na rua Rio de Janeiro, declarado por valor equivalente à metade do preço de mercado, segundo moradores do próprio prédio. O vendedor era um banqueiro que operava contas de campanha do PSDB. Sua primeira palestra remunerada foi para a Ambev — empresa que havia sido diretamente beneficiada pela aprovação, pelo CADE, da fusão entre Brahma e Antarctica durante seu governo — com cachê de 150 mil dólares. Nenhum inquérito. Nenhuma manchete. Nenhum perito avaliando o apartamento.

FHC fundou depois o Instituto Fernando Henrique Cardoso, com instalações de alto padrão bancadas por patrocinadores privados. Também não houve investigação sobre eventuais sobreposições entre os financiadores do instituto e os beneficiados por decisões de seu governo.

Esses fatos não são acusações. São registros públicos que nunca foram tratados como suspeitos — porque, no padrão republicano vigente à época, não havia razão para isso. Políticos que deixam o poder constroem legados, dão palestras, recebem patrocínios. É assim em todo o mundo democrático: Bill Clinton, Tony Blair, Barack Obama fizeram o mesmo.

Quando chegou a vez de Lula, o padrão mudou. Palestras viraram propina. Um sítio em Atibaia que ele frequentava, mas não possuía, virou prova de enriquecimento ilícito. A decisão de uma empresa de telefonia de instalar uma antena próxima ao imóvel chegou a ser mencionada em peças judiciais. O triplex do Guarujá — cujo contrato de compra nunca foi assinado por Lula — rendeu uma condenação que o impediu de concorrer à presidência em 2018.

O trauma e suas consequências políticas

É nesse contexto que se entende o que aconteceu com Lula. A Lava Jato não apenas o prendeu — instalou nele um mecanismo de defesa que até hoje governa suas escolhas políticas.

De volta à presidência, Lula optou pelo caminho da máxima previsibilidade. Escolheu o presidencialismo de coalizão em sua forma mais clássica e aguda — distribuição de cargos em ministérios e estatais em troca de apoio parlamentar, o modelo que FHC consolidou e que o PT sempre criticou, mas que oferece algo que Lula passou a valorizar acima de quase tudo: controle. Nada de improviso. Nada que escape ao cálculo.

O problema é que o imprevisível não se deixa conter por arranjos políticos. E Lula, que sobreviveu ao que haveria de mais brutal na política brasileira, parece ainda não ter encontrado uma forma de governar que incorpore o risco em vez de apenas tentar eliminá-lo.

A prova mais recente veio de fora de qualquer trama política. O Estadão publicou como manchete a sugestão de que a viagem do filho de Lula à Espanha poderia ser uma tentativa de fuga diante do escândalo do INSS — para depois registrar, no corpo da própria matéria, que a viagem havia sido planejada um ano antes de qualquer escândalo. A sequência é reveladora: o desmentido estava no texto, mas o dano estava no título. Uma não-notícia tornou-se fato político.

Lula pode argumentar, com razão, que a perseguição não cessou. Mas governar em estado permanente de defesa tem um custo. A cautela que o protege também o limita. E o Brasil de 2026 exige mais do que previsibilidade — exige liderança capaz de assumir riscos calculados.

O homem que enfrentou a Lava Jato de cabeça erguida ainda está lá. A questão é se ele vai conseguir, desta vez, governar sem o peso do receio que ela deixou.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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11 Comentários
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  1. brunobgl

    18 de março de 2026 3:44 pm

    E agora, dos mesmos criadores de “O Rascunho do Gmail”, está no ar “O Print do Bloco de Notas”.

  2. Bernardo

    18 de março de 2026 4:33 pm

    A precaução de Lula é totalmente compreensível mas o jogo político para valer começa em abril com a definição de candidaturas ; Lula é calejado e saberá como e a hora certa de começar o embate. E precisará de muito mais ação de quem o apoia nessa próxima eleição dos que em todas as anteriores.

    1. Eduardo Pereira

      18 de março de 2026 6:19 pm

      Tb acho, mas tem muita gente já queimando a largada. A midia ta fazendo a campanha desde o ano passado.

  3. Carlos

    18 de março de 2026 5:28 pm

    No Brasil atual não existe ninguém melhor que Lula para governa-lo.
    E sim, Lula pisa mais devagarinho no pântano político. Afinal gato escaldado tem medo de água fria e cautela e caldo de galinha não faz mal a ninguém, já ensinava nossos avós.
    E o Brasil atual é uma quimera politica monstruosa, um híbrido escroto composto do que há de pior no ser humano.
    Neste chorume misturam-se, como num coito de muitas serpentes, falsos líderes religiosos, vendilhões da patria, putas castas, assassinos, escravagistas, racistas, enfim, o que há de pior.
    Sim, com razão Lula deve olhar muito bem onde pisa

    1. jose machado

      21 de março de 2026 1:14 pm

      É isso mesmo, resumiu tudo: O Brasil é uma quimera política.
      O importante é que sabemos disso. Pior são povos, de outras nações, que não sabem quem
      são seus políticos e nem sua imprensa. Nós estamos avançado nisso.
      Falta botar essa direita para fora do parlamento. Acho que avançaremos pouco nisso.

  4. Rafael

    18 de março de 2026 6:48 pm

    Não é “receio” é cerco.

  5. Veritas

    18 de março de 2026 8:24 pm

    O plano industrial para as terras raras, o desenvolvimento da magnetônica, fundamental para os motores ressonantes, é o grande plano para o futuro q precisa de líderes para o seu desenvolvimento. Na ausência, acordos estaduais com os USA acabam com a federação,e parecem entregar sem propósitos está importante riqueza..

  6. Rui Ribeiro

    19 de março de 2026 6:12 am

    Ninguém quer saber a origem dos recursos com os quais o Vorcaro disponibiliza jatinhos para o Nikolas/Valadão voarem pelo Brasil fazendo campanha eleitoral para o Bostonaro nem a origem dos polpudos recursos doados a Bolsonaro e Tarcísio. Eles querem saber se o Lulinha viajou para Portugal com dinheiro desviado do INSS pelo Careca.

    Esse país deveria se chamar Brabosta, não Brasil.

  7. ERNESTO

    19 de março de 2026 2:52 pm

    Magnanimidade em excesso na vítima, acaba resultando na impunidade dos agressores. Desejo de vingança não é bom, por isso mesmo também muito estigmatizado do ponto de vista hipócrita dominante, mas quando bem conduzido pode funcionar como um bom antidoto inibindo a ânsia de repetição das agressões.

  8. angelaneves

    19 de março de 2026 4:13 pm

    Verdade verdadeira, eu quero a vitória para Lula esse ano, mais ao mesmo tempo desejo que ele nos mande pra puta que pariu e vai viver o que ainda lhe resta da vida, somos um povo sem noção e sem caráter, portanto merecemos os bolsonaros da vida!!!!!!

  9. LUIS CARLOS GODOY

    20 de março de 2026 3:42 pm

    Como os meus colegas de trabalho costumavam dizer, no jornal onde iniciei minha carreira, “quem tem *u tem medo”!

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