Geopolítica dos fertilizantes
por Fernando Marcelino
A guerra dos EUA e Israel contra o Irã já está a reconfigurar a economia global. O epicentro da crise é o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo e gás natural do mundo. A sua efetiva paralisação, devido a ameaças e ataques, criou um choque de oferta estrutural. A consequência imediata é a disparada do preço do petróleo para acima dos US$ 100 por barril (Brent). Analistas trabalham com cenários que vão desde uma desescalada rápida, com o petróleo a recuar para os US$ 70, até uma crise prolongada que poderá levar a US$ 300 e empurrar a economia global para a estagflação. Além disso, o seguro dos navios disparou e grandes grupos de navegação, como a Maersk, suspenderam operações no Golfo, forçando navios a rotas alternativas que acrescentam 10 a 15 dias às viagens.
Este choque energético não se limita ao preço dos combustíveis. Ele propagou-se rapidamente por toda a economia global, com aumento dos custos de energia e transporte. As expectativas de cortes de juros pelos bancos centrais foram fortemente reduzidas e alguns mercados já precificam novas subidas de juros para conter a inflação. Para além da energia, setores como o turismo, a aviação (com milhares de voos cancelados) e as cadeias de abastecimento industriais (automóvel, eletrônica, químicos) sofrem com a quebra de procura, encerramento de espaços aéreos e aumento dos custos de matérias-primas. A duração do conflito é a grande variável que determinará a gravidade dos danos econômicos.
Sobre o petróleo muito vem sendo dito. Aproveito este espaço para chamar atenção para outra crise que está se formando. O fornecimento de gás natural liquefeito (GNL) é um dos canais mais críticos de contágio da guerra e os seus impactos são sentidos de forma profunda e distinta em vários setores e países. A crise do gás natural está a funcionar como um multiplicador dos danos econômicos da guerra, atingindo com particular dureza as indústrias e as populações dos países importadores e forçando uma resposta coordenada por vezes insuficiente dos governos para evitar uma recessão mais profunda. Um de seus efeitos mais complexos é sobre a cadeia produtiva dos fertilizantes cujo mercado é dominado por um grupo restrito de nações que controlam as reservas de potássio, fosfato e gás natural necessário para o nitrogênio. Para os fertilizantes nitrogenados, como a ureia, o fator determinante é o custo do gás natural, principal insumo do processo produtivo.
A nova geopolítica dos fertilizantes é definida por um cenário de instabilidade permanente e competição por recursos estratégicos, transformando insumos agrícolas em armas geopolíticas. Após o choque inicial da guerra na Ucrânia (2022), o mercado entrou em 2026 sob pressão da guerra contra o Irã e de políticas unilaterais, como as restrições da China e as tarifas dos EUA. A atual crise dos fertilizantes transcende a esfera econômica para se tornar um poderoso vetor de reconfiguração geopolítica, instabilidade social e tensão diplomática em todo o mundo. Cerca de 1,33 milhões de toneladas de fertilizantes passam mensalmente por Ormuz. Como o Golfo Pérsico é uma “pedra angular” da produção global, o bloqueio no Estreito de Ormuz está a desencadear um choque de oferta que ameaça a produtividade agrícola mundial, com consequências particularmente graves para os países mais dependentes de importações. Ao contrário do petróleo, o setor de fertilizantes não tem reservas estratégicas internacionais para amortecer o choque. Assim, existe grande risco de impacto no sistema agroalimentar mundial.
A China é um dos maiores exportadores de fertilizantes do mundo e tem um histórico de controle das exportações para manter os preços baixos para os agricultores do país. Com o conflito no Oriente Médio, o país restringiu ainda mais suas vendas ao exterior. Já os membros do Conselho de Cooperação do Golfo – em especial Arábia Saudita, Catar e Omã – são fundamentais para fornecer dois dos três nutrientes mais importantes para culturas agrícolas, representando um quarto das exportações mundiais de ureia e um terço das exportações de fertilizantes fosfatados que envolve a extração do enxofre do petróleo.
Os preços dos fertilizantes subiram cerca de 30% desde o início da guerra, produzindo impacto nos preços dos alimentos. O risco é de desabastecimento parcial e quebra de safra. Nos EUA, a escassez de ureia (importada do Golfo) ameaça perturbar as colheitas de milho e soja e já pressiona a inflação alimentar. A Europa, embora compre pouco fertilizante diretamente do Golfo, depende de países como Egito e Marrocos. A ureia egípcia saltou em uma semana de $500 para mais de $700 por tonelada. Na Ásia, países com grande indústria transformadora de fertilizantes usam gás do Golfo, sendo forçados a racionar, afetando diretamente a produção de arroz e trigo para as suas enormes populações. A Ásia importa 64% do amoníaco e mais de 50% do enxofre e fosfatos do Golfo. Em Bangladesh, 5 das 6 fábricas de fertilizantes foram temporariamente encerradas. A Índia implantou racionamento de gás para fábricas.
A crise dos fertilizantes está a empurrar governos para medidas de intervenção que seriam impensáveis em tempos de normalidade, evidenciando o medo de uma espiral de inflação alimentar. Os EUA, por exemplo, se aproximaram do Marrocos para garantir o fornecimento de fertilizantes, descrevendo o acordo como uma “apólice de seguro” para os agricultores americanos. A escassez global também reacende disputas comerciais internas. Setores agrícolas poderosos usam a crise para pressionar governos por mudanças regulatórias que beneficiem seus interesses imediatos. A American Soybean Association e a National Corn Growers Association enviaram uma carta conjunta a instar o fim das tarifas sobre fosfatos importados de Marrocos e da Rússia, pois manter essas barreiras aumentaria artificialmente os custos para os agricultores e comprometeria a sua competitividade.
A crise atinge imediatamente o Hemisfério Norte no momento em que os agricultores normalmente compram fertilizantes para as sementeiras de abril e maio. Atrasos podem forçar a redução do uso de insumos e, consequentemente, dos rendimentos das colheitas. Se o impasse se prolongar por mais algumas semanas, as necessidades da época de sementeira no hemisfério sul (que começa em junho) podem não ser satisfeitas, consolidando a quebra de produtividade e a tendência de alta dos preços dos alimentos a nível global. E o custo mais alto da produção tende a ser repassado para os consumidores. Especialistas alertam que hortaliças, legumes e hortifrúti devem sentir os efeitos primeiro, seguidos por grãos como milho, soja e trigo. No longo prazo, carnes, ovos e leite também podem ficar mais caros, já que milho e soja são a base da ração animal.
O Brasil importa cerca de 85% de fertilizantes, sendo os mais utilizados aqueles que pertencem ao complexo NPK — nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K). O potássio responde por cerca de 38% do consumo nacional, seguido pelo fósforo e pelo nitrogênio, com 33% e 29%, respectivamente. Culturas como soja, milho e cana-de-açúcar concentram mais de 70% dessa demanda. O potássio é considerado o principal gargalo da produção interna, sendo 97% importado.
A maior parte dos fertilizantes para a safra de verão 2025/26 (em andamento) já foi comprada e está nos estoques dos produtores. O grande problema será o planejamento para a safra 2026/27, cujo plantio começa em setembro. Quem não fez a compra antecipada, pode enfrentar custos proibitivos. O Brasil corre risco de déficit de 1 a 3 milhões de toneladas de fosfatados, com a produtividade podendo cair mais de 20% se não houver insumos para a safra 2027. Algumas estratégias estão sendo implantadas, como trocar a ureia pelo sulfato de amônio, acelerar investimentos em fábricas de fertilizantes nitrogenados (FAFENs) e fazer uma parceria estratégica com a Bolívia para que seu gás abasteça fábricas de fertilizantes. A empresa brasileira Agrion Fertilizantes planeja produzir 50 mil toneladas anuais de fertilizantes a partir do bagaço da cana-de-açúcar até 2031. É uma aposta de longo prazo para reduzir a dependência externa.
A crise dos fertilizantes é um dos elos mais perigosos da atual guerra. Os preços dos fertilizantes permanecerão elevados devido aos enormes desafios geopolíticos. O risco mais grave é a fome generalizada e o colapso social nos países mais vulneráveis.
Fernando Marcelino é natural de Curitiba, pós-doutor em Política Públicas e Planejamento Urbano na UFPR, autor de diversos livros sobre a China, entre os quais Introdução ao Planejamento na China, A Revolução das Cidades Inteligentes na China, Reflexões sobre o Socialismo Chinês, Deng Xiaoping: as ideias que transformaram a China na superpotência do século XXI, A Revolução da Agricultura Inteligente na China, A China se prepara para o declínio dos EUA: Trump, guerra comercial e a Nova Desordem Mundial e A Revolução das ferrovias de alta velocidade na China (no prelo). Militante do MPM – Movimento Popular por Moradia.
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