O conflito no Oriente Médio e a reavaliação do panorama inflacionário no Brasil
por Júlia Leal
Com o retorno de Donald Trump à Casa Branca, o mundo tem passado por períodos de ataques políticos e econômicos. No que se refere ao “tarifaço” observado em 2025, foram impostas tarifas de importação elevadas, com a justificativa de que seria necessário reduzir o déficit comercial e proteger a indústria norte-americana. O primeiro setor afetado foi o siderúrgico, após a adoção de tarifas de 25% para as importações de aço e alumínio. Iniciou-se, assim, uma guerra tarifária com diferentes países, o que acendeu um alerta sobre os novos rumos da economia global. Poucos dias após o início de 2026, uma operação comandada pelos Estados Unidos prendeu o presidente venezuelano Nicolás Maduro, além de sua esposa, sob a acusação de narcoterrorismo, tráfico de drogas e armas. Não obstante, é pouco plausível afirmar que essa tenha sido a principal motivação, uma vez que a Venezuela possui a maior reserva comprovada de petróleo do mundo.
Desde o final de fevereiro, o principal destaque é o conflito no Oriente Médio, com impactos significativos no preço do petróleo. Os ataques conjuntos entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã resultaram no assassinato do líder iraniano Ali Khamenei, gerando um cenário de devastação sem precedentes. As tensões entre os Estados Unidos e o Irã têm origens históricas. No passado recente, em 2015, o Irã assinou o Plano de Ação Conjunto Global, um acordo nuclear que limitava as atividades de enriquecimento de urânio, no qual o país se comprometeu a eliminar suas reservas desse metal. No entanto, em 2018, os Estados Unidos se retiraram do Plano e adotaram uma série de sanções financeiras, como a restrição das instituições financeiras iranianas do sistema de pagamento em dólar e a retirada de bancos iranianos do sistema SWIFT.
Agora, a ofensiva estadunidense assume novas roupagens e as consequências podem ser catastróficas para a economia global. A pedra angular da vez é o Estreito de Ormuz, a mais importante rota estratégica para transporte de petróleo. Em decorrência dos ataques sofridos, o Irã impôs restrições à passagem de diversas embarcações e, no último sábado (21/03), Trump declarou que se o Estreito não fosse reaberto em até 48 horas, as usinas de energia iranianas seriam atacadas. Como resposta, a Guarda Revolucionária do Irã afirmou que fechará totalmente o Estreito de Ormuz caso os Estados Unidos ataquem as usinas hidrelétricas do país. O presidente americano recuou e suspendeu por cinco dias qualquer ação a instalações elétricas no Irã. Na segunda-feira (24/03), Donald Trump anunciou em seu site oficial que os dois países tiveram “conversas muito boas e produtivas”, sugerindo que as negociações poderiam levar a um desfecho do conflito. No entanto, as autoridades iranianas negaram a existência de negociações (diretas ou indiretas) com os Estados Unidos.
A escalada das tensões engendrou um aumento substancial no preço do barril de petróleo, com o Brent ultrapassando o valor de US$ 115 no dia 19/03. No Brasil, foram adotadas algumas medidas emergenciais para neutralizar os efeitos adversos e conter a alta nos preços dos combustíveis. Em meados de março, o governo federal publicou uma medida provisória visando a estabilidade dos preços dos combustíveis, além de anunciar possíveis punições para eventuais abusos nos valores praticados. Estas medidas terão caráter temporário e permanecerão em vigor até 31 de dezembro de 2026. Outra iniciativa foi zerar as alíquotas do PIS e do COFINS sobre a importação e comercialização do diesel. A fim de compensar a redução na arrecadação e estimular os exportadores a manterem parte da produção no mercado interno, será cobrada uma alíquota de 12% sobre a exportação de petróleo e de 50% na exportação do diesel.
O Brasil ainda depende da importação de petróleo e seus derivados, pois parte das refinarias brasileiras não consegue processar totalmente o petróleo produzido no país, que é mais pesado. Também depende das importações de fertilizantes do Irã, como, por exemplo, ureia e amônia, que são insumos comumente utilizados na agricultura. É importante destacar que este cenário impacta diretamente os preços de diversos setores, exercendo pressão sobre a inflação. Por exemplo, a alta no preço do petróleo incide sobre os preços da gasolina, do diesel e até do gás de cozinha, desencadeando uma reação em cadeia que pode se estender a outros produtos, como os alimentos e passagens aéreas.
Há quase dez anos, a Petrobras adota a política de Preços de Paridade de Importação (PPI), que vincula o preço nas refinarias com o preço do petróleo no mercado internacional. Uma vez que a definição do preço final também depende da cotação do dólar, há uma maior volatilidade, tornando os reajustes mais frequentes. Como a duração do conflito é incerta, há riscos de mais reajustes nos preços dos combustíveis, impactando diretamente os consumidores. O governo federal também propôs que os estados reduzam o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) sobre a gasolina e o diesel, com o intuito de atenuar os custos para o consumidor final. Todavia, os governadores demonstraram resistência, notadamente para preservar a arrecadação dos estados.
Em conclusão, a possibilidade de negociações entre Estados Unidos e Irã contribuiu para a queda no preço do barril de petróleo. Contudo, trata-se apenas de suposições, sem confirmações concretas até o momento, o que mantém o cenário de incerteza para as próximas semanas. No Brasil, os desdobramentos da guerra serão sentidos na inflação e, consequentemente, na renda das famílias. Agora, as expectativas se concentram na divulgação do IPCA-15 (que ocorrerá dia 26/03), cujo resultado servirá como guia para entender os impactos iniciais da disputa entre Washington e Teerã.
No dia 20/02/2026, uma semana antes da eclosão da guerra, o Boletim Focus divulgou que a expectativa do IPCA para 2026 era de 3,91%, valor dentro do limite superior da meta. Um mês depois, subiu para 4,17%, com tendência de novos aumentos. Paralelamente, houve a redução da taxa Selic para 14,75% ao ano. A ata da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) aponta para o cenário de incerteza gerado pelo conflito no Oriente Médio. Apesar da redução de 0,25%, o comitê afirma que não haverá novos cortes, sob a justificativa de que a taxa de juros restritiva será necessária para conter o cenário inflacionário. E assim caímos na famigerada falácia de que a Selic é um instrumento eficaz no combate à inflação, embora, na prática, ocorra a piora da situação das famílias brasileiras, especialmente daquelas economicamente vulneráveis.
Júlia Leal – Doutora em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGE-UFRJ), Pesquisadora associada ao FINDE-UFF e Editora Assistente da Brazilian Keynesian Review (BKR)
Blog: Democracia e Economia – Desenvolvimento, Finanças e Política
O Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (FINDE) congrega pesquisadores de universidades e de outras instituições de pesquisa e ensino, interessados em discutir questões acadêmicas relacionadas ao avanço do processo de financeirização e seus impactos sobre o desenvolvimento socioeconômico das economias modernas. Instagram: @Finde_UFF
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