10 de junho de 2026

A Transição Climática e o Desenvolvimento Brasileiro, por Feijó & Feil

A descarbonização deve ser associada a um projeto de desenvolvimento econômico e exige elevado investimento público e coordenação estatal.
Reprodução Shutterstock

A transição climática no Brasil está ligada à exploração intensiva de recursos e uso de combustíveis fósseis, elevando emissões e degradação.
Países do Norte Global têm maior capacidade fiscal e financeira para adaptação, enquanto o Sul Global enfrenta impactos climáticos mais severos e menos recursos.
No Brasil, a agropecuária é a principal fonte de emissões, e eventos climáticos extremos ameaçam a produção, economia e estabilidade macrofinanceira.

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A Transição Climática e o Desenvolvimento Brasileiro: uma reflexão necessária

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CeFiS – Centro de Finanças Sustentáveis

por Carmem Feijó e Fernanda Feil

A transição climática no Brasil precisa ser compreendida a partir da relação entre aquecimento global, degradação ambiental e o modelo de desenvolvimento econômico adotado. Parte relevante da atividade produtiva ainda se apoia na exploração intensiva de recursos naturais e no uso de matrizes energéticas baseadas em combustíveis fósseis. Esse padrão tende a ampliar as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e a acelerar a perda de biodiversidade. Ao mesmo tempo, a própria degradação ambiental enfraquece ecossistemas que atuam como reguladores do clima, criando um ciclo de retroalimentação que aprofunda os efeitos do aquecimento global.

No plano internacional, essa dinâmica se articula com desigualdades estruturais entre países. Há também uma assimetria monetária que acompanha essas diferenças de desenvolvimento: economias centrais, cujas moedas ocupam posição dominante no sistema financeiro internacional, têm maior margem de manobra para financiar políticas públicas e responder a crises. Esse contexto ajuda a explicar a disparidade entre a responsabilidade histórica pelas emissões de gases de efeito estufa e o grau de vulnerabilidade aos impactos climáticos.

Os países do Norte Global lideraram o processo de industrialização e concentram a maior parte das emissões de GEE acumuladas ao longo do tempo. Em contrapartida, contam com Estados com maior capacidade fiscal, sistemas financeiros mais desenvolvidos e infraestrutura mais resiliente, o que amplia sua capacidade de adaptação. Já muitos países do Sul Global contribuíram menos para o problema, mas enfrentam impactos climáticos mais intensos e dispõem de menos recursos institucionais e financeiros para lidar com eles. O resultado é um quadro em que os custos da crise climática tendem a recair, de forma desproporcional, sobre as economias mais vulneráveis.

Essa assimetria também produz efeitos macroeconômicos e financeiros importantes. Em economias com sistemas financeiros menos diversificados e maior dependência de capitais externos, choques ambientais tendem a ter impactos mais amplos. Eventos climáticos extremos, por exemplo, podem reduzir a produção e as receitas de exportação, afetar as cadeias produtivas e pressionar variáveis macroeconômicas, como a taxa de câmbio e os prêmios de risco. Esse processo tende a encarecer o financiamento de empresas e governos, ampliando a instabilidade econômica.

Por essa razão, a agenda climática está diretamente ligada à estratégia de desenvolvimento. Reduzir vulnerabilidades exige fortalecer a estrutura produtiva, ampliar o conteúdo tecnológico da economia e direcionar investimentos, inclusive externos, para atividades inovadoras e de menor intensidade de carbono. Economias mais diversificadas e tecnologicamente avançadas tendem a operar com processos produtivos mais eficientes no uso de energia e recursos naturais, o que reduz tanto as emissões quanto a exposição a riscos físicos associados às mudanças climáticas.

No caso brasileiro, a questão climática assume contornos particulares. A agropecuária constitui a principal fonte de emissões de GEE, sobretudo devido ao desmatamento e à expansão da fronteira agrícola. Estados como Pará e Mato Grosso, por exemplo, estão entre os mais vulneráveis à intensificação de eventos extremos, como ondas de calor e alterações severas nos regimes de chuvas. O aumento da temperatura média, combinado com secas prolongadas ou precipitações intensas, pode comprometer a oferta de alimentos e de energia. A Embrapa alerta que os territórios aptos ao plantio podem ser reduzidos em até 30% nas próximas décadas, evidenciando a magnitude do risco físico que recai sobre uma economia ainda marcada pela reprimarização e pela desindustrialização.

Ademais, a redução da produtividade agrícola, associada a mudanças nos padrões pluviométricos e ao aumento das emissões de GEE globais, tem potencial para afetar cadeias globais de valor e intensificar a volatilidade de preços. Com isso, os choques climáticos podem reduzir receitas externas, pressionar a inflação e ampliar a instabilidade macroeconômica da economia brasileira. Mais ainda, a deterioração das condições ambientais afeta diretamente os ativos financeiros, à medida em que as alterações nas expectativas de retorno, elevação da incerteza e crescimento dos prêmios de liquidez tornam o crédito mais caro e escasso. Empresas e governos passam a enfrentar maiores custos de captação e de rolagem da dívida, o que pode comprometer investimentos e reduzir a demanda agregada.

Os impactos do aquecimento global também recaem sobre os estoques de capital. Eventos climáticos extremos podem danificar a infraestrutura, as instalações produtivas e os equipamentos. Mesmo mudanças ambientais graduais, como a elevação do nível do mar ou alterações nos regimes de chuva, reduzem a vida útil desses ativos e elevam os custos de manutenção e de reposição. Com isso, empresas e governos passam a enfrentar maior pressão sobre seus balanços e a capacidade de sustentar investimentos.

Ao mesmo tempo, o avanço da transição energética introduz novos padrões tecnológicos e regulatórios. Ativos associados a atividades intensivas em carbono podem perder valor ou tornar-se economicamente inviáveis, o que exige a realocação de investimentos para setores e tecnologias mais limpos. Esse processo envolve custos de adaptação no curto prazo e requer coordenação entre políticas públicas, financiamento e planejamento empresarial. Quando essa transição ocorre de forma desordenada, há risco de perdas de capital e de queda temporária de produtividade.

Nesse contexto, as ligações entre o sistema financeiro e o meio ambiente tornam-se centrais. Todos os projetos de investimento geram impactos ambientais, sejam negativos (como o aumento das emissões de GEE e o desmatamento) ou positivos (como a restauração de ecossistemas e a expansão de energias renováveis). Concomitantemente, os danos ambientais ou a expectativa de sua intensificação afetam o risco e o retorno dos ativos, influenciando decisões de portfólio e a capacidade de honrar as obrigações. A hipótese subjacente é que o agravamento das mudanças climáticas pode desestabilizar ainda mais os sistemas financeiros, com repercussões negativas no lado real da economia.

Diante desse quadro, a descarbonização deve ser associada a um projeto de desenvolvimento econômico e exige elevado investimento público e coordenação estatal. O Estado deve atuar como indutor do processo, sinalizando de forma clara e contínua a direção da política econômica, estimulando a realocação de capitais para setores menos poluentes e reduzindo a incerteza quanto à rentabilidade de novos negócios sustentáveis. Mesmo em cenários de elevada incerteza, a permanência do investimento público pode suavizar as flutuações do nível geral de investimento e assegurar aos agentes privados que a transição não será interrompida. O maior obstáculo, contudo, reside nas vulnerabilidades externa e fiscal do país, que limitam o espaço de manobra para políticas expansionistas.

Assim, o desafio brasileiro consiste em articular transição climática e estratégia de desenvolvimento. Não se trata apenas de reduzir emissões, mas de redefinir o padrão de crescimento, ampliando a complexidade produtiva, fortalecendo a indústria, incorporando inovação tecnológica e reduzindo a dependência de atividades intensivas em carbono. Uma trajetória de desenvolvimento sustentável requer estabilidade macrofinanceira, coordenação institucional e planejamento de longo prazo, de modo a construir uma economia menos poluente, mais resiliente aos choques climáticos e capaz de conciliar crescimento, inclusão social e responsabilidade ambiental.

CeFiS – Centro de Finanças Sustentáveis

Carmem Feijó – Diretora Acadêmica no Centro de Finanças Sustentáveis –  CeFiS, Professora titular na UFF, pesquisadora CNPQ e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento –  Finde/UFF

Fernanda Feil – Diretora de Finanças Sustentáveis no CeFiS, Professora colaboradora no Programa de Pós-graduação em economia da UFF e pesquisadora do Finde/UFF

Blog: Democracia e Economia  – Desenvolvimento, Finanças e Política

O Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (FINDE) congrega pesquisadores de universidades e de outras instituições de pesquisa e ensino, interessados em discutir questões acadêmicas relacionadas ao avanço do processo de financeirização e seus impactos sobre o desenvolvimento socioeconômico das economias modernas. Instagram: @Finde_UFF

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Finde/GEEP - Democracia e Economia

O Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (FINDE) congrega pesquisadores de universidades e de outras instituições de pesquisa e ensino. O Grupo de Estudos de Economia e Política (GEEP) do IESP/UERJ é formado por cientistas políticos e economistas.

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