21 de maio de 2026

Para proteger a paz, precisamos reformar a ONU, por Luiz Inácio Lula da Silva

Um mundo sem regras é um mundo inseguro. Chegou a hora de um multilateralismo que realmente reflita a ordem global.
Unifil - sul do Líbano - 2025 - AFP - Reprodução

O Conselho de Segurança da ONU falha em conter conflitos e permite uso abusivo do veto por membros permanentes.
Conflitos armados aumentam globalmente, com impactos econômicos e sociais graves, incluindo fome e deslocamentos.
Lula defende reforma da ONU para restaurar multilateralismo e evitar que a violência substitua o diálogo diplomático.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

no The Guardian

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O Conselho de Segurança permitiu o exercício desenfreado do poder e a brutalidade. Para proteger a paz, precisamos reformar a ONU.

por Luiz Inácio Lula da Silva

Um mundo sem regras é um mundo inseguro. Chegou a hora de um multilateralismo que realmente reflita a ordem global.

E cada violação do direito internacional leva à próxima. Do Afeganistão ao Irã, e passando pelo Iraque, Líbia, Síria, Ucrânia, Gaza e Venezuela, a linha divisória entre o permitido e o proibido tem sido progressivamente obscurecida pela inação cúmplice do Conselho de Segurança da ONU. Empunhando o veto como escudo e arma, seus membros permanentes agem com muita frequência sem qualquer fundamento na Carta da ONU. Brincam com o destino de milhões, deixando um rastro de morte e destruição.

Até anos recentes, havia pelo menos uma tentativa de conferir uma aparência de legitimidade às intervenções por meio do endosso da ONU. Hoje, o exercício aberto do poder já nem sequer tenta manter as aparências. As salvaguardas das instituições multilaterais estão se tornando muito estreitas para conter as rivalidades hegemônicas. Sem o multilateralismo, corremos o risco de substituir um sistema imperfeito de segurança coletiva pela brutal realidade da insegurança generalizada. Quando todas as restrições ao uso da força são removidas, o caos prevalece.

O mundo está testemunhando o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. Não é coincidência que isso esteja acontecendo em um momento em que a democracia se encontra numa encruzilhada. O extremismo é tanto o ponto de partida quanto o ponto final de um ciclo vicioso. Quando governos se deixam arrastar para a guerra pela intolerância ou pela arrogância do poder, semeiam as sementes do ressentimento que geram ainda mais ódio e violência.

Os avanços tecnológicos, tanto com aplicações civis quanto militares, nos confrontam com questões éticas. A seleção de alvos militares já está sendo realizada por inteligência artificial , sem parâmetros legais ou morais estabelecidos. Os princípios do direito internacional humanitário – em particular a distinção entre civis e combatentes – estão seriamente ameaçados. Mulheres e crianças são as principais vítimas dessa tragédia coletiva.

Estamos vivendo uma corrida armamentista que está levando os países a destinarem parcelas cada vez maiores de seus orçamentos para armamentos. Os gastos militares globais, que atualmente giram em torno de US$ 2,7 trilhões, absorvem recursos valiosos que poderiam ser utilizados para combater a fome e a pobreza, enfrentar a crise climática, garantir o acesso universal à educação e promover a inclusão digital. Ainda mais grave é o uso recorrente da fome como arma de guerra e a impunidade com que os deslocamentos forçados são realizados.

Nenhuma bomba, drone ou míssil pode proteger as economias do impacto de um conflito armado. As flutuações nos preços do petróleo significam energia e transporte mais caros – ou mesmo inacessíveis – para empresas e consumidores. Bloqueios restringem o comércio. A escassez de fertilizantes aumenta os preços dos alimentos e alimenta a inflação. Os bancos centrais elevam as taxas de juros, aumentando a dívida pública e privada. Oportunidades de investimento e empregos são perdidos.

Ações unilaterais, medidas arbitrárias, violações de soberania e execuções sumárias estão se tornando a regra. Um estudo publicado na revista Lancet mostra que as sanções impostas sem o apoio da ONU – particularmente as econômicas – afetam as taxas de mortalidade nos países visados ​​e, em média, são responsáveis ​​por cerca de meio milhão de mortes por ano desde a década de 1970.

Poder excessivo e instabilidade andam de mãos dadas. Um mundo sem regras é um mundo inseguro, onde qualquer um pode ser a próxima vítima. A violência não pode substituir o diálogo, nem a força pode prevalecer sobre a diplomacia. As prerrogativas dos membros permanentes do Conselho de Segurança já são injustificáveis ​​em uma ordem internacional baseada na igualdade soberana das nações. Quando exercidas de forma irresponsável, tornam-se intoleráveis. É hora de responder com determinação, restaurando a capacidade de uma Organização das Nações Unidas reformada de agir, para que ela não permaneça mera espectadora de eventos que afetam a todos nós.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. Edivaldo Dias de Oliveira

    30 de março de 2026 11:14 am

    O companheiro trás a luz um diagnóstico adequado dos males que afetam a paciente ONU.
    É o poder de veto que cada membro do CS detém individualmente. Isso é gravíssimo. E é somente os membros permanentes que detém esse pode absolutista, os provisórios estão lá para fazer sala.
    Mas o companheiro, apesar do bom diagnóstico não consegue aviar a receita para melhorar a saúde do paciente.
    Vou dar minha contribuição.

    Toda vez que houver um veto de até dois membros da CS, a decisão será levada em até 72 horas a um conselho ampliado ou toda a Assembléia geral a cuja decisão o CS se submeterá, sob pena de ser suspenso da ONU e todas as suas agencia por um período do mínimo de 3 meses, chegando até a expulsão com as devidas sanções.
    Se não houver punição aos recalcitrantes melhor cada país cuidar da sua sobrevivência.

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