4 de junho de 2026

Do Oscar aos unicórnios: O novo capítulo da economia digital brasileira, por Vasconcelos & Görgen

Não enxergamos o digital como cadeia produtiva - e sem isso não conseguimos nomear onde estamos, medir o que perdemos, coordenar estratégia
Canva - Reprodução

Brasil cresceu 6,5% em 2025 no setor de Informação e Comunicação, que representa 3,6% do PIB nacional.
Economia digital é cadeia produtiva em camadas, mas políticas públicas ainda são fragmentadas e desarticuladas.
Nova Indústria Brasil e E-Digital buscam integrar estratégia digital; desafios incluem investimento e governança.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Do Oscar aos unicórnios

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

O novo capítulo da economia digital brasileira

por Beatriz Vasconcelos e James Görgen

Nos dois últimos anos, o Brasil foi consagrado na maior premiação do cinema mundial, com o Oscar de melhor filme internacional por Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, em 2025, e quatro indicações para O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho. Poucos dias antes, o IBGE havia divulgado os dados de desempenho do setor de Informação e Comunicação, que cresceu 6,5% em 2025. Esse segmento, que inclui telecomunicações, rádio e televisão, representou 3,6% do PIB nacional. Com a adição de setores como comércio eletrônico, serviços de TI, estima-se que a participação da economia digital alcance quase 10% do PIB nacional, igualando-se à performance da indústria de transformação e atingindo patamares de economias mais complexas do ponto de vista tecnológico.

E, no entanto, acumulamos um déficit de U$ 40 bilhões na balança de TIC em 2024. Sessenta por cento de nossas cargas de dados são processadas fora do país. O mercado de nuvem, que cresce 40% ao ano, é 90% controlado por fornecedores estrangeiros que nos cobram até 138% acima da média global. O mundo movimentou US$ 4,8 trilhões em exportações de serviços digitais em 2024, mas o Brasil participou dessa corrida majoritariamente como consumidor.

Como um país tão presente no digital captura tão pouco valor dele? A resposta começa pelo mais básico: porque ainda não enxergamos o digital como cadeia produtiva – e sem enxergá-la, não conseguimos nomear onde estamos nela, medir o que perdemos, coordenar uma resposta estratégica, nem perceber que a janela para agir está se fechando.

O mapa da economia digital

A economia digital brasileira é tratada como um conjunto de setores separados: o audiovisual como política cultural, as telecomunicações como política de infraestrutura, o software como política industrial, e os dados como política de privacidade. Mas, na prática, formam uma única cadeia produtiva em camadas empilhadas, onde cada nível habilita o seguinte e onde controlar as camadas inferiores define quem pode competir nas superiores. Da base ao topo: energia, minerais críticos e terras raras, chips e semicondutores, infraestrutura física e redes, software e dados, plataformas e serviços e – no topo – conteúdo.

O filme que ganhou o Oscar está nessa última camada. A plataforma que o distribui está na penúltima. Os servidores que a hospedam estão no meio. Os chips que processam estão na base. Tudo isso é economia digital, e tudo está interligado de forma irreversível. Essa lógica de cadeia em camadas, que países como China, Estados Unidos e a própria União Europeia – ainda que tardiamente, com seu EuroStack – já organizam como estratégia nacional, é o que o Brasil ainda não aprendeu a enxergar como um todo.

Um sinal de que isso está começando a mudar veio com a Nova Indústria Brasil (NIB), a política industrial do terceiro mandato do presidente Lula, a Missão de Transformação Digital incluiu entre suas metas o adensamento da cadeia de produtos e serviços digitais avançados, aí incluindo serviços de nuvem, plataformas digitais, audiovisual e games. Ao longo do trabalho de mapeamento das cadeias do digital no processo de construção da NIB, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI) entendeu que o país precisava não se limitar ao conceito de transformação digital e passar a investir em segmentos econômicos que já nascem digitais ou que se valem de tecnologias avançadas para serem produzidos e distribuídos. Basicamente, fazer o que outras nações já vêm fazendo há pelo menos duas décadas.

O nó górdio da complexidade fica claro quando pensamos no filme que abre este texto. Ainda Estou Aqui, exibido numa sala de cinema, é um serviço de entretenimento. O mesmo filme num DVD é um produto industrial. Transmitido numa plataforma de streaming, é as duas coisas ao mesmo tempo — e nenhuma das duas por completo. Toda a arquitetura de tributação, fomento e regulação do Estado brasileiro foi construída para mundos separados. O software vendido num CD tinha tratamento fiscal diferente do mesmo software vendido por assinatura online. Um jogo eletrônico numa caixa de loja e o mesmo jogo baixado digitalmente ativam regras distintas, apesar de idênticos em conteúdo e função econômica[1].

Qual dessas atividades está sendo incentivada, regulada e tributada? A resposta honesta é: partes de cada uma, de forma fragmentada.. Enquanto não resolvermos essa ambiguidade conceitual — definindo o que é produto digital, o que é serviço digital e o que, necessariamente, é os dois ao mesmo tempo criando um conceito para isso —, os mecanismos de regulação, fomento e tributação continuarão operando como um mapa desatualizado de uma economia que já não existe mais.

O problema da medição

Essa fragmentação conceitual tem uma consequência direta: não conseguimos medir o que não sabemos nomear. Esta dificuldade conceitual foi uma barreira importante até para medir a participação da economia digital nas contas nacionais. E o problema não era exclusivamente brasileiro. Em março de 2025, a Comissão de Estatística da ONU aprovou o System of National Accounts 2025 — o SNA 2025 —, a primeira revisão do manual em quase duas décadas, com um capítulo inteiramente novo dedicado à digitalização. Pela primeira vez, o documento orienta os países sobre como registrar nas contas nacionais atividades como inteligência artificial, computação em nuvem, plataformas digitais de intermediação e comércio eletrônico — exatamente os segmentos que o atual sistema de contas não consegue separar, agregar nem comparar de forma confiável.

O Brasil participou das consultas globais que moldaram esse novo padrão, e o IBGE já tem na mesa o trabalho de atualizar o Sistema de Contas Nacionais, migrando do ano base de 2010 para 2021, com previsão de conclusão para meados de 2026. É um avanço real. Mas o manual recomenda que cada país decida com que profundidade e velocidade implementar. E aqui está o ponto: sem uma definição prévia do que o Brasil entende por economia digital — seus produtos, seus serviços, seus atores e suas fronteiras —, nem o melhor manual do mundo resolverá o problema de medir o que ainda não se sabe nomear.

O problema vai além da nomenclatura: as ferramentas tradicionais de mensuração econômica – contas nacionais, análise custo-benefício – foram desenhadas para uma economia de bens físicos e não conseguem capturar spillovers de longo prazo, efeitos cruzados entre camadas ou externalidades que se acumulam com o uso. O valor do digital não está no ativo em si, mas no que ele habilita.

Gigante global

O Brasil não parte do zero nessa cadeia. Somos o maior mercado digital da América Latina, com 181 milhões de usuários de internet. Nosso sistema financeiro é um dos mais digitalizados do mundo – o Pix já é usado por 76% da população e se tornou referência global de infraestrutura pública digital. O setor público federal já digitalizou mais de 90% dos serviços. O agronegócio e o setor de fintechs lideram a adoção de tecnologias avançadas.

Além dos dados de tecnologia da informação que citamos acima, alguns números de nosso ecossistema digital são impactantes:

Fonte: Elaboração dos autores com base em dados da TIC Domicílios e 2025 Global Digital Report – Meltwater

Nas camadas mais baixas da cadeia, temos posição relevante em recursos que o mundo inteiro disputa. Nossa matriz energética é 80% renovável, ativo escasso e crescente num mundo onde data centers e infraestrutura de IA demandam energia limpa em escala. Somos também detentores da segunda maior reserva mundial de terras raras, da maior reserva de nióbio e da sexta maior produção de lítio — minerais críticos para baterias, chips e dispositivos. Temos também talento comprovado: brasileiros lideram equipes nas principais empresas de tecnologia globais, e nossa produção acadêmica em ciência de dados e computação é reconhecida internacionalmente.

Mas estar presente na cadeia não é o mesmo que ter posição estratégica nela. Os setores digitais se tornaram a coluna vertebral de economias como Estados Unidos, China, Coréia do Sul, Índia e outros países ao longo das últimas duas décadas, com peso tanto na economia doméstica quanto nas políticas comerciais. Todos receberam aportes pesados dos estados nacionais e dos mercados financeiros para se expandirem, que é o caso emblemático do Vale do Silício[2]. O fluxo transfronteiriço de dados já supera a contribuição do comércio de bens para o PIB mundial – e deve chegar a U$ 11 trilhões até o final desta década. incidindo fortemente na balança de bens e serviços, e no avanço da inovação destas nações. Nessa disputa, o Brasil tem cartas reais a jogar. O que falta é uma estratégia que as organize.

Muito além da política industrial

O Brasil, pela primeira vez, tem instrumentos estruturantes para direcionar a economia digital. Além da NIB, o governo Lula reativou em 2024 o Comitê Interministerial para a Transformação Digital (CIT Digital), responsável pela E-Digital — a Estratégia Brasileira de Transformação Digital —, que atua como instrumento “guarda-chuva” para planejamento do nosso ecossistema digital. A nova estratégia, de 2026 a 2031, integrará iniciativas como a Estratégia Nacional de Governo Digital, Cibersegurança e Plano Brasileiro de IA (PBIA). A nova estratégia está em fase final de consulta pública até dia 8 de Abril. O foco aqui, além de transformação, é soberania digital.

O investimento neste conjunto de produtos e serviços digitais, que passa por formação, capacitação, ciência e tecnologia e propriedade intelectual, alavancará também a presença do Brasil no mundo da inteligência artificial, a atual menina dos olhos da indústria de tecnologia e a mola-mestra da economia digital. Para isso, as cadeias a serem adensadas pela NIB precisam estar vinculadas ao Plano Brasileiro de IA (PBIA), lançado em 2024 pelo Presidente Lula e que tem um eixo dedicado à inovação empresarial e outro à infraestrutura compartilhada de alto desempenho. Nesta seara, temos a oportunidade garantida por avanços como os das startups chinesas, que estão reconfigurando a forma como modelos e soluções de IA são desenvolvidos, focando no compartilhamento aberto, uso de menos recursos e implementação na borda e não concentrada em grandes estruturas de processamento de dados.

A NIB, o PBIA e a nova E-Digital formam, juntos, uma arquitetura de política pública que poucos países em desenvolvimento conseguiram articular. O que ainda falta é o combustível: aportes orçamentários consistentes, crédito orientado pelo BNDES e pela Finep com condições compatíveis com os ciclos de inovação digital, e mecanismos de compras governamentais que priorizem produtos e serviços desenvolvidos no país. Mas o problema não é só de combustível, é também de arquitetura – uma visão da cadeia como um todo que organize onde o Brasil precisa estar em cada camada, e como as políticas se conectam entre si.

A coordenação política e articulação institucional entre os ministérios envolvidos — MCTI, MDIC, MCom, MEC, Fazenda e a Casa Civil — precisam se tornar uma governança efetiva. O CIT-Digital é o espaço institucional para isso. Mas coordenar exige que o tema da economia digital suba na hierarquia de prioridades do país, ocupando nos próximos anos o lugar que a desindustrialização e a reindustrialização ocuparam nos debates das últimas décadas.

Apostas do porvir

A janela não ficará aberta indefinidamente. O protecionismo digital que avança nos Estados Unidos e na Europa, os movimentos de reshoring tecnológico e a corrida pela liderança em inteligência artificial estão redesenhando o mapa da dependência econômica global. Países que não consolidarem sua cadeia de valor digital nesta década correm o risco de se tornarem, de forma permanente, consumidores de tecnologia alheia — pagando royalties, cedendo dados e importando inovação enquanto exportam commodities. O Brasil já viveu esse filme antes, em outros setores. Não pode repeti-lo no digital.

Para evitá-lo, o investimento do Estado é condição necessária, não optativa. Não se trata de substituir o mercado, mas de corrigi-lo onde ele falha: nos horizontes longos, nos riscos elevados, nas externalidades positivas que o capital privado não consegue precificar. É o que fizeram os Estados Unidos com a DARPA e o CHIPS Act, a China com seus planos quinquenais, a Coreia do Sul com o financiamento direto aos chaebols tecnológicos e a Índia com seus programas de capacitação em massa em TI. Em todos esses casos, o Estado não esperou que o mercado liderasse — ele criou as condições para que o mercado pudesse fazê-lo, com escala e velocidade suficientes para competir globalmente.

É neste contexto que as eleições de 2026 ganham uma dimensão estratégica particular. Os candidatos à Presidência da República terão de responder, com propostas concretas a uma pergunta fundamental: qual é o projeto de soberania digital do Brasil para os próximos quatro anos? Isso implica posicionamento claro sobre regulação de plataformas e proteção de dados, sobre o modelo de financiamento da IA nacional, sobre as condições de atração e retenção de talentos no setor, sobre a política comercial digital no âmbito do BRICS e da Organização Mundial do Comércio, e sobre o modelo de tributação que garanta isonomia entre empresas digitais estrangeiras e nacionais sem afugentar investimentos. Quem não tiver respostas a essas perguntas não estará preparado para governar a economia do século XXI. E isso vale também para os candidatos a governador.

O Brasil tem mercado consumidor de escala, criatividade comprovada, infraestrutura financeira digitalizada e uma política industrial que, pela primeira vez, reconhece o digital como cadeia produtiva estratégica. O que nos falta não é apenas visão — é a decisão de tratar a economia digital com a mesma seriedade com que tratamos o agronegócio, o petróleo e a indústria de base. Quando fizermos isso, o Oscar e o próximo unicórnio de tecnologia não serão mais surpresas ocasionais: serão consequências naturais de um país que decidiu, de fato, apostar em si mesmo.

Beatriz Vasconcellos atualmente é Secretária Adjunta de Transformação Digital na Secretaria de Articulação e Monitoramento na Casa Civil da Presidência da República. É mestre em Administração Pública e Desenvolvimento Internacional pela Harvard Kennedy School.

James Görgen é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental desde 2008. Mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS. Atualmente, é assessor no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e membro do Comitê Gestor da Internet no Brasil.

O artigo contempla reflexões pessoais dos autores e não deve ser entendido como posição oficial da Casa Civil da Presidência da República ou do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.


[1] Tornando mais claros os exemplos, podemos detalhar assim:

Software: O Microsoft Word vendido em caixa física com CD era produto, sujeito a ICMS e elegível para incentivos da Lei de Informática. O Word 365, funcionalidade idêntica, entregue como assinatura em nuvem, é serviço — ou talvez seja um produto imaterial, ou talvez seja infraestrutura crítica. Ninguém concordou ainda. Em 2021 o STF tentou resolver a questão para fins tributários e produziu uma decisão que resolveu parcialmente o problema fiscal, mas não o problema de política industrial.

Jogo eletrônico: Vendido numa caixa numa loja = produto industrial, entra no PIB da indústria, pode ser financiado por linhas de crédito para manufatura. Vendido digitalmente por download = produto imaterial, zona cinzenta tributária. Acessado por assinatura de um serviço de jogos em nuvem = serviço de streaming. O mesmo jogo, três enquadramentos diferentes.

Streaming de música: A gravadora que vende um CD fatura um produto industrial. O músico que toca ao vivo presta um serviço cultural. O Spotify, que transmite a mesma música, opera um serviço de tecnologia — mas remunera um produto artístico, usa infraestrutura de telecomunicações e coleta dados que têm valor econômico próprio.

[2] Muita gente não se dá conta como o nome desta região da Califórnia não representa mais o atual foco das empresas lá sediadas: a indústria de software e games, que hoje são o motor da economia norte-americana no mesmo estado que, coincidentemente ou não, abriga a indústria audiovisual desde o início do século 20.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

James Görgen

Servidor público federal da carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, assessor para temas digitais e agenda internacional do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Foi Assessor Especial de Ministros e Diretor de Gestão Estratégica do Ministério das Comunicações. É membro suplente do Comitê Gestor da Internet no Brasil. http://florestadigital.tec.br

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados