4 de junho de 2026

O limite da ressignificação em Frankl diante da injustiça, por Luiz Henrique Lima Faria

A logoterapia, núcleo do pensamento de Viktor Frankl, sustenta que o ser humano é fundamentalmente movido pela vontade de sentido
Viktor Frankl - Reprodução

Viktor Frankl, sobrevivente do Holocausto, fundamentou a logoterapia na busca humana por sentido mesmo em sofrimento extremo.
Ressignificação, para Frankl, é uma liberdade interior que permite ao indivíduo atribuir sentido ao sofrimento inevitável.
Ressignificar abusos, como assédio moral, pode legitimar injustiças; ação externa e proteção legal são necessárias nesses casos.

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O limite da ressignificação em Frankl diante da experiência de injustiça

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por Luiz Henrique Lima Faria

Viktor Frankl (1905–1997) foi um psiquiatra austríaco cuja obra não se limita ao domínio das ideias, mas se firma na experiência concreta do limite humano. Sobrevivente dos campos de concentração nazistas, no contexto do Holocausto, Frankl escreveu não a partir da distância confortável da teoria, mas da convivência direta com a desintegração das condições mais elementares da existência. Em Man’s Search for Meaning (1946), sua reflexão se orienta pela investigação rigorosa, embora sensível, acerca de como, mesmo imerso em circunstâncias extremas de dor, privação e desumanização, o indivíduo ainda pode preservar uma dimensão interior de liberdade e dignidade. Trata-se de compreender de que modo o homem, ainda que despojado de quase tudo, permanece capaz de atribuir sentido à própria existência, recusando-se a ser reduzido à condição de mero objeto das circunstâncias que o oprimem.

A logoterapia, núcleo do pensamento de Viktor Frankl, sustenta que o ser humano é fundamentalmente movido pela vontade de sentido, isto é, por uma busca persistente por significados que ultrapassem a mera satisfação instantânea. Em contraste com Sigmund Freud (1856-1939) e Alfred Adler (1870-1937), Frankl recusa reduzir o homem a um feixe de pulsões ou a dinâmicas de dominação, compreendendo-o como um ser capaz de se posicionar diante da própria existência, inclusive quando ela se impõe sob a forma do sofrimento extremo. Nesse mau lugar, destaca-se a noção de liberdade de atitude, entendida como a capacidade propriamente humana de ressignificar a própria experiência, o que, em certos contextos, implica também reajustar expectativas, diante daquilo que não pode ser modificado. Não se trata de uma liberdade condicionada pelas circunstâncias exteriores, mas de uma liberdade interior que permite ao indivíduo afirmar-se como sujeito de sentido e não como mero produto das condições adversas que o cercam.

É a partir dessa liberdade que se torna possível compreender, com maior precisão, o conceito de ressignificação da experiência. Na obra de Viktor Frankl, essa noção se aproxima dos chamados valores atitudinais, isto é, da forma como o indivíduo é convocado a responder ao sofrimento quando este se revela inevitável e, portanto, insuscetível de transformação objetiva. Ressignificar, nesse horizonte, não consiste em negar a dor, tampouco em revesti-la de romantismo, mas em inscrevê-la em um campo de sentido que a ultrapasse e a reordene existencialmente. Trata-se de uma operação interior complexa, pela qual o sujeito, mesmo diante da adversidade, recusa ser reduzido à condição de objeto, afirmando-se como aquele que ainda pode conferir sentido ao que vive.

Entretanto, a potência desse conceito exige a definição de um limite claro. A ressignificação, em Frankl, dirige-se às situações em que o sofrimento se impõe como condição incontornável da existência, e não àquelas em que decorre de práticas concretas de violência, abuso ou arbitrariedade, operadas à margem das leis. Quando deslocada desse campo originário, a ressignificação pode ser mobilizada de modo indevido como instrumento de acomodação diante do que deveria ser enfrentado. Aquilo que exige intervenção no plano social passa a ser absorvido como tarefa individual e interior. Aquilo que reclama denúncia é recodificado como oportunidade de crescimento pessoal. Nesse desvio, a violência não apenas se perpetua, como adquire uma forma sutil de legitimação, enquanto o indivíduo é instado a encontrar sentido não na superação do sofrimento, mas na sua normalização.

O assédio moral no trabalho ilustra com nitidez esse desvio. Um trabalhador submetido de forma reiterada a práticas de perseguição e abuso de poder não se encontra diante de uma tragédia existencial, mas de uma violação concreta de direitos. Nesse contexto, a ressignificação não se apresenta como solução ética, mas como equívoco potencialmente legitimador da injustiça. A resposta adequada não reside na adaptação interna, mas na ação externa orientada à interrupção da prática abusiva. Buscar proteção institucional e jurídica não constitui sinal de fragilidade psíquica, mas expressão inequívoca da defesa da própria dignidade. Há sofrimentos que podem ser elaborados no plano da experiência, mas há outros que, por sua própria natureza, exigem cessação imediata, por ultrapassarem limites éticos e, por vezes, legais.

Sob esses entendimentos, o limite da ressignificação da experiência em Frankl não se define pela intensidade da dor nem pela sofisticação de sua elaboração interior, mas pela natureza de sua origem. Quando o sofrimento se impõe como condição incontornável da existência, a ressignificação pode constituir um caminho legítimo de sentido. Quando, porém, decorre de práticas abusivas, favorecidas pela ausência de adequada proteção legal, deixa de ser expressão de evolução pessoal e passa a operar como forma de leniência e de acomodação a situações tóxicas. Entre suportar e transformar, delineia-se uma fronteira que não pode ser transposta sem que se comprometa, com ela, a própria dignidade humana.

Luiz Henrique Lima Faria – Professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e Editor-Chefe da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (RINTERPAP).

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  1. Jicxjo

    10 de abril de 2026 9:24 am

    Muito bem colocado. Serve como bom contraponto ao disseminado estoicismo de auto-ajuda, de que devemos clivar a realidade simplesmente entre o que depende de mim e o que não depende, e ligar o f*-se para este último. Outra manifestação desse abjeto individualismo exacerbado e da negação da coisa pública.

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