O falso sucesso de Milei
por Maria Luiza Falcão Silva
Há um certo desconforto no debate sobre a Argentina recente. Parte da crítica tem preferido descartar qualquer resultado positivo como irrelevante ou ilusório, enquanto seus defensores celebram a queda da inflação e o ajuste fiscal como prova inequívoca de sucesso. Nenhuma dessas leituras, no entanto, enfrenta o ponto central: o que está sendo vendido como sucesso pode ser, na verdade, a reorganização de uma economia em bases mais frágeis, mais desiguais e mais dependentes.
Durante grande parte do século XX, a Argentina foi, de certo modo, um ponto fora da curva na América Latina. Com níveis de renda per capita, urbanização, escolaridade e bem-estar social que a aproximavam de países europeus, chegou a figurar entre as economias mais prósperas do mundo. Buenos Aires não era apenas uma capital latino-americana, mas uma cidade que dialogava diretamente com a Europa em termos de padrão de vida, infraestrutura e dinamismo cultural. O país construiu uma base industrial relevante, desenvolveu um mercado interno vigoroso e consolidou instituições que sustentavam uma sociedade relativamente integrada. Não se tratava apenas de um exportador de commodities, mas de uma economia com densidade produtiva e ambição de desenvolvimento.
É precisamente esse passado — de quase “oásis” econômico em uma região marcada por desigualdades — que torna ainda mais significativa, e mais inquietante, a inflexão atual.
A trajetória que conduz à vitória de Javier Milei, nas eleições de novembro de 2023, com ampla vantagem no segundo turno — derrotando Sergio Massa com cerca de 55,7% dos votos — não é episódica. Trata-se de um resultado que expressa não apenas uma alternância de poder, mas um voto contundente de ruptura em uma sociedade exausta com a instabilidade econômica e a incapacidade de seus governos de oferecer uma saída duradoura.
Essa vitória se inscreve em um processo mais longo de perda de densidade econômica e de posição relativa, em contraste direto com o passado de prosperidade e integração que marcou a Argentina ao longo do século XX.
Crises recorrentes, dificuldades persistentes de estabilização macroeconômica e limitações estruturais da economia argentina impediram a consolidação de uma trajetória sustentada de crescimento. Ainda que tenha havido momentos de recuperação — especialmente nos anos 2000 — esses ciclos não foram capazes de resolver problemas centrais, como a restrição externa, a fragilidade cambial e a incapacidade de manter estabilidade de preços por períodos prolongados.
É nesse ambiente que se constrói o espaço para uma alternativa de ruptura — não como escolha ideológica pura, mas como resposta ao esgotamento das alternativas existentes.
O dado central, no entanto, não é apenas econômico — é político. A incapacidade dos diferentes governos, de orientações distintas, de estabilizar minimamente a economia corroeu a confiança da população no sistema político como um todo. Quando a inflação deixa de ser um episódio e passa a ser uma condição permanente da vida cotidiana, quando a renda encolhe e as promessas de normalização fracassam reiteradamente, o espaço para alternativas tradicionais se reduz drasticamente. É nesse ambiente que a promessa de ruptura radical deixa de parecer irresponsável e passa a ser percebida como inevitável.
Hoje, dois anos e meio após a vitória de Milei, a inflação caiu e o déficit fiscal foi revertido. Esses fatos são inegáveis — e ignorá-los empobrece o debate. Mas é precisamente aqui que se coloca a questão decisiva: estabilizar não é desenvolver. E estabilizar sem um projeto de transformação produtiva não é solução — é, muitas vezes, o início de um processo de regressão econômica.
O que se observa na Argentina não é a construção de um novo ciclo de crescimento, mas a imposição de um modelo que transforma o ajuste em finalidade permanente. A compressão dos gastos públicos, o desmonte de instrumentos estatais e a ausência deliberada de política industrial não configuram uma estratégia de desenvolvimento — configuram uma escolha política: a de reduzir a economia à sua forma mais simples.
Esse ponto é crucial. Não se trata apenas de reduzir o tamanho do Estado, mas de redefinir o tipo de economia que se pretende construir. Sem instrumentos de coordenação, sem política industrial e sem mecanismos de proteção e dinamização do mercado interno, a economia tende a se especializar em atividades de menor valor agregado, com baixa capacidade de difusão tecnológica e reduzido potencial de geração de empregos qualificados.
Os efeitos já estão à vista. Setores vinculados à exportação de commodities e energia mostram dinamismo, enquanto a indústria, o comércio e a construção permanecem debilitados. O mercado interno, historicamente central na economia argentina, perde densidade. A recuperação, quando ocorre, é estreita, concentrada e incapaz de sustentar crescimento consistente.
Esse tipo de crescimento — concentrado e pouco difuso — não apenas limita o dinamismo econômico, como também aprofunda desigualdades. Ao se apoiar em setores com baixa capacidade de absorção de mão de obra e forte dependência de preços internacionais, a economia passa a crescer sem gerar inclusão proporcional. Trata-se de um crescimento que existe, mas não se distribui.
A pergunta, portanto, não é se algumas variáveis melhoraram. Melhoraram. A pergunta é: quem se beneficia — e quem paga o preço.
Ao reduzir o papel do Estado de forma abrupta, o governo de Javier Milei não apenas ajusta contas públicas; ele redefine a própria estrutura da economia. Sem coordenação, sem estratégia produtiva e sem proteção ao mercado interno, o país se desloca para uma especialização regressiva, baseada em setores primários e altamente exposta às oscilações externas.
É nesse ponto que o debate precisa ser recolocado. O problema não é o ajuste em si, mas sua transformação em projeto. Ajustar pode ser necessário. Mas, quando o ajuste passa a ser o próprio horizonte, o que se abandona não é apenas gasto público — é a ideia de futuro.
O experimento em curso na Argentina vem sendo apresentado como a prova de que o neoliberalismo — mesmo em sua versão mais radical — ainda seria capaz de reorganizar economias em crise. Essa leitura, no entanto, diz mais sobre a crise de alternativas do que sobre a eficácia do modelo. Em um contexto global marcado por baixo crescimento, tensões geopolíticas e esgotamento de estratégias tradicionais, qualquer sinal de estabilização tende a ser rapidamente elevado à condição de sucesso estrutural.
Mas essa interpretação ignora um ponto fundamental: o próprio padrão de recuperação observado já contém os limites do modelo. O que está em curso não é uma transformação estrutural da economia, mas uma reorganização que preserva — e, em alguns casos, aprofunda — suas fragilidades históricas.
A evidência empírica já aponta nessa direção. A estabilização ocorre, mas não se converte em desenvolvimento com distribuição. O crescimento recente se concentra em agro, energia e mineração, enquanto o consumo interno permanece deprimido. Trata-se de uma recuperação que não se difunde — e, por isso mesmo, não se sustenta.
Esse padrão é conhecido. Da Rússia dos anos 1990 à Grécia pós-crise, passando pela própria Argentina da convertibilidade, a história mostra que estabilizações baseadas em compressão interna e liberalização rápida tendem a produzir economias mais vulneráveis, mais desiguais e estruturalmente mais frágeis.
Há, além disso, um elemento adicional que merece atenção. Em um mundo marcado pela reorganização das cadeias produtivas, pela intensificação da competição tecnológica e pelo uso crescente de políticas industriais por parte das grandes potências, países que abrem mão deliberadamente de instrumentos de coordenação econômica tendem a perder posição relativa. Não se trata apenas de crescer menos — trata-se de ocupar um lugar mais periférico na divisão internacional do trabalho.
A recente alta dos preços internacionais de energia apenas torna esse quadro mais evidente. O aumento dos combustíveis já pressiona a inflação e expõe a fragilidade do modelo. Mesmo após um ajuste severo e uma ampla desregulação, a economia argentina segue profundamente dependente de fatores externos. A vulnerabilidade não desapareceu — foi apenas reorganizada.
O risco que se coloca, portanto, não é o de fracasso imediato. É mais profundo. Trata-se da consolidação de uma economia que se estabiliza ao custo de perder capacidade de crescer, de gerar empregos de qualidade e de sustentar um projeto nacional.
Uma economia pode, sim, se estabilizar enquanto se empobrece.
Se este é o sucesso que se pretende celebrar, então é preciso dizer com todas as letras: não se trata de desenvolvimento. Trata-se de uma forma organizada de regressão.
Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).
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