Confesso que, nos últimos anos, fui tomado por um certo enfado diante de musicais ao vivo. Passei a assistir aos espetáculos quase como quem cumpre um protocolo: contando mentalmente as músicas, antecipando o final, mesmo quando no palco estavam artistas que admiro profundamente. Algo da magia parecia ter se perdido — ou, talvez, tenha sido soterrado pela repetição e pelo excesso.
Pois Tangos Brasileiros, em duas apresentações no SESC Pinheiros, operou o improvável: devolveu-me à experiência plena do encantamento. Foi um verdadeiro banho de musicalidade. Permaneci preso à cadeira do início ao fim, sem dispersão, sem aquela ansiedade pelo desfecho — ao contrário, desejando que o espetáculo se prolongasse. Em alguns momentos, rendi-me a algo que raramente faço: gritos espontâneos de entusiasmo.
Não há, em nenhum instante, queda de ritmo. O espetáculo se sustenta com uma coesão rara, como se cada número fosse não apenas uma canção, mas um elo indispensável de uma narrativa maior.
No centro dessa engrenagem estão três intérpretes absolutamente singulares: Catto, Ju Santtos e Edson Cordeiro. Cada um, à sua maneira, tensiona e expande os limites da voz e da presença cênica. Catto e Santtos, artistas trans, trazem não apenas potência vocal, mas uma dimensão performática que desafia convenções e amplia o campo de escuta. Cordeiro, por sua vez, com sua extensão vocal quase anacrônica — reminiscente dos antigos castrati —, opera como uma espécie de ponte entre registros, fundindo o agudo e o grave com uma expressividade rara. É um artista excepcional.
Mas há uma arquitetura invisível que sustenta tudo: a direção musical e os arranjos de Thadeu Romano. Conheci Thadeu ainda muito jovem, recém-saído de uma colônia de imigrantes italianos nas imediações de Campinas, quando passou a frequentar um apartamento próximo ao Bar do Alemão. Desde então, acompanhei sua trajetória — uma formação que atravessa o choro, dialoga com o acordeon francês e italiano, absorve o sotaque gaúcho e desemboca, aqui, em uma síntese sofisticada.
No palco, seu quinteto — piano, três cordas e o bandoneón — constrói uma tessitura sonora de impressionante precisão. Os arranjos capturam a alma do tango argentino sem cair na caricatura. Não se trata de fusão forçada, mas de uma assimilação orgânica, em que cada elemento encontra seu lugar.
E, obviamente, os tangos brasileiros, com autores contemporâneos até os clássicos de Herivelton Martins.
O resultado é uma espécie de dramaturgia musical em que as vozes se apoiam sobre cortinas sonoras densas e, ao mesmo tempo, porosas, permitindo que cada interpretação respire, se expanda e encontre seu próprio tempo.
Há, no espetáculo, algo que vai além da técnica — uma inteligência emocional na construção do repertório e da interpretação. Talvez por isso o efeito seja tão contundente: não se trata apenas de ouvir bem, mas de ser atravessado por uma experiência estética completa.
Saí do teatro com a sensação de que não assistira apenas a um show, mas a uma rara demonstração de como a música, quando bem concebida, ainda é capaz de suspender o tempo — e nos devolver, ainda que por instantes, àquilo que a rotina insiste em nos roubar: o espanto.

Gustavo Héctor Brub
12 de abril de 2026 9:08 amQue bueno! Me hace feliz en mi condición de argentino residente en Brasil esa revelación. Y la escritura de Nassif, con sus “traços mineiros” describen la interpretación con un arte literario que parece mejorarse a cada experiencia estética. Provoca, no sólo curiosidad, sino que una necesidad de avanzar junto con lo que se viene vivo y novedoso. Desde Poços de Caldas à Rosário (de Santa Fé), voy sintiendo hace años, la proximidad humana, que se deja pescar por el arte y no las agarra la red de la masificación.