13 de junho de 2026

Marwan Barghouti: 24 anos de encarceramento nas prisões israelenses, por Rasem Bisharat

Barghouti enfatizou que a paz não pode surgir sob o peso da ocupação e que não há contradição entre a busca pela paz e a resistência
Reprodução

Marwan Barghouti está preso há 24 anos em Israel, acusado de terrorismo e liderança da Segunda Intifada.
Dentro da prisão, Barghouti se tornou líder unificador e articulador de um programa político palestino pela unidade.
Apesar das agressões e isolamento, ele mantém discurso político pela paz e solução de dois Estados no conflito.

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O líder palestino Marwan Barghouti: 24 anos de encarceramento nas prisões israelenses

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por Rasem Bisharat

Após 24 anos da detenção de Marwan Barghouti (15 de abril de 2002), a narrativa oficial israelense — frequentemente adotada por diversos meios de comunicação — continua a ignorar as dimensões políticas mais profundas e a apresentá-lo de forma constante como um «terrorista» e «líder da violência», responsável pela eclosão da Segunda Intifada. Além disso, sustenta que ele rejeita a paz e acredita exclusivamente na força, o que, segundo esse discurso, o torna uma ameaça à segurança que justifica sua manutenção na prisão por tempo indeterminado. Essa imagem reduz sua figura e seu papel a uma dimensão estritamente securitária, desconsiderando os contextos político e histórico mais amplos, bem como ignorando sua participação na vida política palestina e seu compromisso declarado com a solução de dois Estados.

No entanto, uma leitura mais aprofundada da trajetória de Barghouti revela que seu histórico político é mais complexo e rico do que essa simplificação unilateral. No período posterior aos Acordos de Oslo, Barghouti construiu uma ampla rede de relações políticas dentro do movimento Fatah e participou do processo político palestino como membro da liderança do movimento e como deputado eleito do Conselho Legislativo Palestino desde 1996, o que reflete seu apoio reiterado à solução de dois Estados como estrutura de coexistência com Israel. Essa trajetória política não se limitou ao âmbito local; ele também estabeleceu relações sólidas com políticos israelenses, ativistas pela paz e acadêmicos, sendo considerado, em círculos da esquerda israelense, como «uma figura palestina com a qual se pode dialogar», por possuir legitimidade tanto popular quanto política que o qualifica para participar de um processo de paz real.

Seu discurso político reflete igualmente esse equilíbrio entre a resistência à ocupação e a busca por uma solução política. Em seus escritos e posicionamentos, Barghouti enfatizou que a paz não pode surgir sob o peso da ocupação e que não há contradição entre a busca pela paz e a resistência à ocupação, considerando esta última como o principal obstáculo para uma convivência justa. Essas declarações evidenciam que suas posições políticas não são reflexo de uma inclinação inerente à violência, mas sim resultado das transformações do processo político palestino e da intensificação do conflito, o que o levou a considerar que a via política isoladamente já não era suficiente para alcançar as aspirações do povo palestino.

O cenário contemporâneo reflete claramente como essa realidade política não ocupa o lugar que merece no discurso oficial israelense. A insistência em manter Barghouti na prisão, apesar de sua ampla popularidade entre os palestinos e até mesmo do apoio de algumas vozes internacionais à ideia de sua libertação para impulsionar o processo de paz, levanta questionamentos sobre as motivações de sua detenção. Segundo analistas e observadores, Barghouti combina legitimidade popular com um discurso político coerente, não se encontra isolado internacionalmente e pode constituir um parceiro sólido em qualquer processo de paz, o que faz com que sua liberdade represente uma ameaça à narrativa israelense consolidada e um embaraço político ao apresentá-lo como um «defensor da paz» encarcerado.

Transformação do papel dentro da prisão: de prisioneiro político a referência nacional

Desde sua detenção em 2002, Marwan Barghouti não desapareceu do cenário político palestino; ao contrário, seu papel passou por uma transformação notável dentro da prisão, transitando de líder político e de campo para uma referência nacional agregadora. Ao contrário do que Israel buscava ao isolá-lo politicamente por meio da prisão perpétua, o próprio encarceramento tornou-se um espaço para a reconstrução de seu papel de liderança, seja por meio de declarações políticas ou por sua contribuição na formulação de visões estratégicas para o movimento nacional palestino. Isso ficou particularmente evidente em sua participação central na elaboração do Documento de Consenso Nacional Palestino (Documento dos Prisioneiros) em 2006, que reuniu líderes de diferentes facções dentro das prisões israelenses em torno de um programa político comum que defende a unidade nacional palestina e uma solução política baseada em dois Estados nas fronteiras de 1967.

Dentro da prisão, Barghouti adquiriu uma posição singular entre os prisioneiros, sendo visto como uma voz racional capaz de equilibrar os princípios nacionais com as exigências da ação política realista. Relatórios de direitos humanos e fontes jornalísticas indicam que ele desempenhou um papel não declarado na organização de greves coletivas de fome e na redução de tensões internas entre facções, o que reforçou sua imagem como um líder unificador, não restrito a uma facção específica. Esse papel organizacional e político contribuiu para consolidar sua presença na consciência coletiva palestina, não apenas como um “prisioneiro”, mas como um ator político contínuo, apesar de seu isolamento forçado.

Suas posições sobre o conflito atual: uma leitura política a partir de trás das grades

Apesar das severas restrições impostas a ele, Barghouti continuou a expressar suas posições sobre os desdobramentos do conflito palestino-israelense, especialmente em períodos de escalada intensa. Em mensagens e declarações transmitidas por meio de seu advogado e de sua família, reiterou que a explosão da violência é uma consequência direta da continuidade da ocupação e do bloqueio do horizonte político, atribuindo a Israel a responsabilidade pela destruição das oportunidades de paz por meio da expansão dos assentamentos, do castigo coletivo e da recusa de uma verdadeira parceria política.

No contexto da guerra em Gaza e da subsequente tensão sem precedentes na Cisjordânia, Barghouti enfatizou que uma abordagem exclusivamente securitária não garantirá a estabilidade de Israel, alertando que ignorar os direitos palestinos levará a ciclos recorrentes de violência. Ao mesmo tempo, defendeu a reconstrução do sistema político palestino com base em princípios democráticos e unitários, considerando que a divisão interna enfraquece a capacidade de enfrentar a ocupação nos âmbitos político e internacional.

A simbologia do desafio dentro da prisão: a dimensão política da confrontação

O advogado do prisioneiro Marwan Barghouti informou que ele foi submetido a múltiplas agressões desde sua detenção, sendo as mais recentes três ataques violentos consecutivos sofridos durante seu isolamento nos últimos dois meses, março e abril de 2026, que lhe causaram hemorragias e diversas lesões sem que recebesse qualquer atendimento médico. Essas agressões se inserem em uma política sistemática que coincidiu com o 24º aniversário de sua detenção.

Essas violações integram um conjunto de tentativas contínuas de quebrar a vontade de Barghouti e de afetar sua simbologia política dentro e fora das prisões, por meio do isolamento solitário, da pressão física e psicológica e da privação de seus direitos humanos mais básicos, em um esforço para enfraquecer sua presença como líder e minar sua posição perante a opinião pública palestina. No entanto, essas políticas frequentemente encontram uma determinação crescente que reflete a resiliência dos prisioneiros diante de pressões sistemáticas.

A aparição pública de Marwan Barghouti durante a visita do ministro israelense da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, à prisão voltou a destacar sua simbologia política. A cena, na qual Barghouti apareceu em silêncio e em atitude desafiadora, carregou significados que transcendem o plano pessoal, sendo interpretada por analistas como uma mensagem política de que o encarceramento não conseguiu quebrar sua simbologia nem retirar sua legitimidade. O incidente suscitou uma onda de críticas internacionais e de organizações de direitos humanos, que o consideraram uma tentativa israelense de instrumentalizar politicamente os prisioneiros, em contraste com o silêncio deliberado de Barghouti, que refletiu sua recusa em participar de uma encenação propagandística.

Em conclusão, a trajetória real de Marwan Barghouti revela que Israel não teme sua liberdade necessariamente por considerá-lo um homem de violência, mas porque reconhece nele um ator político dotado de legitimidade popular e capacidade de promover uma paz justa caso lhe seja permitido exercer um papel político ativo.

A análise da evolução do papel de Marwan Barghouti dentro da prisão demonstra que seu encarceramento não pôs fim à sua influência, mas a reconfigurou. A partir de trás das grades, ele se tornou um símbolo político no qual convergem a resistência, a legitimidade popular e um discurso político realista. No contexto do conflito atual, suas posições — apesar de sua ausência forçada do espaço público — permanecem presentes no debate palestino, israelense e internacional, sendo considerado uma das poucas figuras capazes de articular a luta nacional com a possibilidade de uma solução política justa.

Dr. Rasem Bisharat – Doutor em Estudos da Ásia Ocidental, Comissário de Relações Exteriores na Organização Al-Baydar para a Defesa dos Direitos dos Beduínos e das Aldeias Ameaçadas

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