21 de maio de 2026

Renda, custo de vida e dívida: quando o dinheiro não chega ao final do mês, por Benedito Tadeu César

O país mantém, há décadas, uma das mais elevadas taxas reais de juros do mundo. Em 2026, continua entre os líderes globais nesse indicador.
Imagem gerada por IA ChatGPT

Renda média dos brasileiros subiu para R$ 3.652 em 2026, mas custo de vida alto reduz percepção de bem-estar.
Brasil mantém juros reais elevados, impactando preços, crédito e consumo das famílias em todo o país.
Crédito caro e apostas online elevam endividamento, afetando orçamento familiar e influenciando decisões eleitorais.

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Renda, custo de vida e dívida: quando o dinheiro não chega ao final do mês

por Benedito Tadeu César

A renda cresce, mas o custo de vida, os juros e o endividamento comprimem o orçamento — um descompasso que redefine a percepção econômica e influencia diretamente o comportamento  político.

Este é o segundo artigo da série – Brasil 2026: entre dados, percepções e narrativas — como se decide o voto em um país sob tensão

Renda em alta, percepção de bem-estar em discussão

A melhora recente do mercado de trabalho, analisada no artigo anterior, trouxe consigo um movimento esperado: a elevação da renda média dos brasileiros. De acordo com a PNAD Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o rendimento médio atingiu R$ 3.652,00 no início de 2026 e a massa de rendimentos atingiu o maior nível da série histórica iniciada em 2012.

À primeira vista, esses números sugeririam uma melhora consistente das condições de vida. No entanto, essa leitura não se sustenta quando observada à luz da experiência cotidiana. A elevação da renda ocorre em um contexto de custo de vida elevado, especialmente nas grandes cidades, onde as despesas com moradia, alimentação e transporte absorvem uma parcela significativa do orçamento familiar.

Forma-se, assim, um descompasso persistente: a renda cresce, mas o bem-estar não acompanha na mesma proporção. Esse descompasso se expressa no fato de que, embora o consumo das famílias permaneça elevado no PIB, a renda disponível cresce de forma mais limitada.

O custo invisível: juros e estrutura do crédito

Esse descompasso não pode ser compreendido apenas pela inflação. Ele está profundamente associado ao custo do dinheiro no Brasil.

O país mantém, há décadas, uma das mais elevadas taxas reais de juros do mundo. Em 2026, continua entre os líderes globais nesse indicador. Aparece entre os maiores juros nominais globais e ocupa posição de destaque em juros reais, liderando a América Latina nesse critério.

Esse padrão não se limita ao ambiente macroeconômico — ele se difunde por toda a estrutura de preços, crédito e consumo.

No plano concreto, isso significa que o custo financeiro se incorpora ao cotidiano das famílias, ainda que de forma pouco visível. Ele está presente no preço dos bens, nas condições de financiamento, no parcelamento e na própria estrutura de consumo.

O impacto desses níveis de juros ultrapassa a política monetária. Ele se difunde por toda a economia, afetando preços, investimentos e, sobretudo, o consumo das famílias.

O crédito mais caro do mundo como mecanismo de sobrevivência

Se a taxa básica de juro já é elevada, o custo efetivo enfrentado pelas famílias é ainda mais expressivo. O Brasil ocupa o primeiro lugar global em juros ao consumidor.

O crédito pessoal frequentemente supera 80% ao ano, enquanto o rotativo do cartão de crédito pode chegar a 450%, segundo o Banco Central do Brasil. Comparativamente aos demais países do mundo, com economia mais ou menos desenvolvida que o Brasil, praticamente todos operam com taxas bem inferiores.

Essa estrutura altera a função do crédito na economia. Em vez de instrumento de expansão do consumo, ele passa a operar como mecanismo de compensação da renda insuficiente.

O crédito deixa de ser escolha e passa a ser necessidade para compor o orçamento familiar. Essa transformação se expressa na evolução simultânea do endividamento, da inadimplência e do comprometimento da renda, que avançam de forma articulada ao longo da década.

O parcelamento e a persistência do custo invisível

Esse processo é reforçado por uma característica específica do sistema brasileiro: o parcelamento “sem juros”.

Na prática, o custo financeiro não desaparece. Ele é embutido nos preços. O consumidor, acreditando na promessa de “sem juros”, paga parcelas fixas, mas sobre valores previamente inflados.

O que a comparação internacional revela é que esse mecanismo tem efeitos muito distintos conforme o nível de juros da economia. Em países de juros baixos, o parcelamento altera pouco o valor econômico da compra. No Brasil, ocorre o oposto: o valor real do bem, quando trazido a preços reais, descontado o ágio, pode cair drasticamente.

A discrepância com o padrão de juros internacional pode ser constatada quando se compara o valor real de um bem parcelado em 10 vezes “sem juros” no cartão de crédito no Brasil e o valor sem ágio do mesmo bem em países como o México, o Paraguai, os EUA e a Europa, caso esses países adotassem prática semelhante à adotada no Brasil.

Quanto maior a taxa de juros, menor o valor real da compra parcelada. No Brasil, um bem anunciado por R$ 100,00 “sem juros” parcelados em 10 meses equivale, economicamente, a um valor real entre R$ 70,90 e R$ 77,10, quando se retira o juro embutido.

Essa diferença não é apenas técnica. Ela mostra que o parcelamento “sem juros”, no contexto brasileiro, funciona como um subsídio implícito ao consumo — ao mesmo tempo em que reforça a incorporação do custo financeiro aos preços.

O resultado é um sistema no qual o custo do dinheiro está incorporado ao cotidiano, ainda que de forma pouco perceptível pelo comprador. O crédito se naturaliza como componente do consumo, ao mesmo tempo em que eleva o nível geral de preços.

Endividamento das famílias como condição estrutural

O nível de endividamento das famílias expressa esse modelo. Em 2026, cerca de 80% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo.

Esse dado, no entanto, exige qualificação. O endividamento não tem o mesmo significado em todas as faixas de renda.

Entre os mais pobres, o endividamento está associado à sobrevivência — isto é, ao uso do crédito para cobrir despesas básicas e recorrentes diante da insuficiência de renda. Já entre os mais ricos, ele se vincula à gestão financeira, funcionando como instrumento de planejamento, investimento e alavancagem patrimonial, em condições de custo e controle significativamente mais favoráveis.

A armadilha do rotativo: a dívida que cresce sozinha

Se o parcelamento revela o custo invisível do crédito, o rotativo do cartão expõe sua face mais dura.

Aqui, o tempo deixa de suavizar o pagamento e passa a amplificar a dívida. Em ambientes de juros elevados, pequenas dívidas se transformam rapidamente em passivos desproporcionais.

O contraste internacional é contundente. Enquanto em economias desenvolvidas uma dívida cresce de forma relativamente controlada ao longo do tempo, no Brasil ela assume trajetória explosiva.

Uma dívida de R$ 100,00 no crédito rotativo do cartão de crédito se transforma em um valor entre R$ 400,00 e R$ 550,00 em 12 meses, entre R$. 1.600,00 e R$ 3.025,00 em 24 meses e entre R$ 6.400,00 e R$ 16.637,50 em 36 meses, se aplicados os juros praticados e que variam entre 300% e 450% ao ano. Mais do que abusivos, são juros escorchantes.

Os devedores não se dão conta desses valores porque as amortizações mensais mascaram os juros reais cobrados.

A interação entre juros elevados e capitalização composta produz um efeito cumulativo que altera completamente a experiência do endividamento. O crédito, que inicialmente funciona como instrumento de ajuste do orçamento, pode rapidamente se transformar em fator de desorganização financeira.

As bets e a nova pressão sobre o orçamento das famílias

Nos últimos anos, contudo, um elemento negativo adicional passou a incidir sobre essa dinâmica. A expansão das apostas online introduziu uma nova forma de comprometimento da renda, particularmente relevante nas faixas de menor renda.

O endividamento segue estruturalmente determinado pelo crédito caro, mas passa a ser agravado pelas novas formas de comprometimento do orçamento exercidas pelas bets, sobretudo entre os mais pobres. Os dados indicam não apenas aumento do endividamento, mas uma mudança de regime: a dívida deixa de ser episódica e passa a estruturar o funcionamento do orçamento familiar.

Regulação tardia e limites institucionais

A expansão das apostas também revela limites institucionais importantes.

Autorizadas em 2018, durante o governo Temer, as bets atuaram no Brasil sem qualquer regulamentação e sem serem tributadas durante todo o governo Bolsonaro e só começaram a ser regulamentadas em 2023, no início do atual governo Lula. Quando o Estado passou a estruturar regras mais claras, encontrou resistência no sistema  político, o que fez com que sua regulamentação só fosse efetivamente implantada em 2025.

Essa resistência não se expressa como oposição aberta à regulação, mas como disputa em torno de sua intensidade — especialmente no que diz respeito à tributação, à publicidade e ao controle das plataformas.

Setores do Congresso vinculados a interesses econômicos — incluindo segmentos do Centrão, parlamentares ligados ao sistema esportivo e interesses do mercado publicitário — tendem a atuar no sentido de limitar a carga regulatória.

Por outro lado, há uma pressão crescente, vinda de setores do Executivo, de parlamentares com agenda social e de órgãos reguladores, no sentido de ampliar o controle e mitigar os efeitos sobre o endividamento e o consumo.

O resultado é um processo de regulação parcial, que avança, mas não elimina os efeitos negativos já produzidos pela rápida expansão do setor.

Entre o dado e a experiência: a economia percebida

O ponto decisivo está na forma como essa dinâmica é vivida.

O eleitor não avalia a economia a partir de indicadores agregados, mas da experiência concreta de seu orçamento. A dificuldade de fechar o mês, a necessidade recorrente de crédito e a impossibilidade de poupar produzem uma percepção persistente de aperto.

Esse quadro é reforçado pela incorporação de novas formas de gasto e perda financeira, como as apostas, que se somam às pressões tradicionais sem alterar a estrutura central do problema.

Essa percepção é reforçada por circuitos de comunicação distintos. Enquanto indicadores macroeconômicos apontam melhora, o cotidiano — amplificado por redes sociais, mídia popular e interações diretas — enfatiza o custo de vida.

Forma-se, assim, uma dissociação entre economia medida e economia percebida. Essa dissociação não é apenas subjetiva: ela se manifesta empiricamente na coexistência entre melhora de indicadores agregados e pressão persistente sobre o orçamento das famílias.

Do orçamento ao voto: a tradução política do aperto

Esse descompasso tem efeitos diretos sobre o comportamento eleitoral.

A melhora da renda impede uma deterioração mais profunda da avaliação econômica, mas não produz satisfação suficiente para estruturar o voto. O resultado é um eleitorado que reconhece avanços, mas não os percebe como transformação efetiva de sua condição de vida.

Nesse contexto, o aperto financeiro cotidiano se articula com outras dimensões — especialmente a percepção de insegurança e a busca por estabilidade, aumentando o peso de pautas não econômicas.

A economia continua relevante, mas deixa de ser decisiva por si só.

O limite do modelo econômico cotidiano

O Brasil revela, assim, uma dinâmica particular: o trabalho gera renda, mas o custo de viver — amplificado pelos juros e pelo crédito — redefine a forma como essa renda é experimentada.

A introdução de novas formas de comprometimento da renda, como as apostas online, não altera essa estrutura, mas a torna mais complexa e, em muitos casos, mais intensa.

É nesse intervalo entre o ganho e sua capacidade real de sustentar o cotidiano que se forma, de maneira cada vez mais decisiva, a percepção econômica.

E é dessa percepção — mais do que dos indicadores — que deriva, em grande medida, a decisão do voto. Esse limite decorre do fato de que uma parcela crescente da renda já está previamente comprometida, reduzindo a capacidade do crescimento econômico se traduzir em melhora efetiva das condições de vida.

Colaborou: Maria da Graça Pinto Bulhões

Nota editorial e fontes

As análises foram elaboradas com base em dados oficiais e estudos comparativos, com apoio de ferramentas de inteligência artificial e revisão da equipe da RED.

Fontes:

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PNAD Contínua); Banco Central do Brasil;
Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (PEIC); FMI e CEPAL; bases internacionais comparativas.

Comparações internacionais incluem dados da Comisión Nacional Bancaria y de Valores e do Banco Central del Paraguay.

Os quadros e gráficos utilizam simulações com base em intervalos de taxas anuais, aplicando valor presente (parcelamento) e capitalização composta (crédito rotativo). Elaboração própria utilizando IA ChatGPT.


Série Brasil 2026: entre dados, percepções e narrativas – como se decide o voto em um país sob tensão

Artigo 1Trabalho e percepção: pleno emprego sem bem-estar no Brasil

Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista  político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), jornalista e direitor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED – Rede Estação Democracia.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Benedito Tadeu César

Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED Rede Estação Democracia.

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  1. Carlos

    17 de abril de 2026 4:05 pm

    Enquanto isso na Argentina já estão comendo o presidente ultradireitista.
    Deu na imprensa:
    “Argentinos recorrem à carne de burro diante de crise econômica”

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