21 de maio de 2026

A Geografia e a Guerra: o preço do protagonismo, por Luiz Alberto Melchert

Conflito direto com OTAN pode levar a guerra de arraso contra Alemanha, com uso de bombas termobáricas e ataques precisos.
Reprodução

Alemanha é estratégica para OTAN, com portos no Mar do Norte e Báltico essenciais para logística militar e produção de munição.
Mísseis russos Oreshnik atingem portos alemães em menos de 15 minutos, ameaçando bases navais e fábricas de munição.
Conflito direto com OTAN pode levar a guerra de arraso contra Alemanha, com uso de bombas termobáricas e ataques precisos.

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A Geografia e a Guerra: o preço do protagonismo

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

A posição da Alemanha é militarmente estratégica por contar com duas costas, uma pra o Mar do Norte, outra para o Mar Báltico. Ela é o elo natural entre a Europa Central (República Tcheca, Eslováquia, Hungria, Áustria, Suíça, Eslovênia, Croácia e Sérvia), bem como do leste europeu (Polônia, países bálticos, Bulgária, Ucrânia e a antiga Romênia) e o oeste europeu. Não é à toa que, com a criação da OTAN, a Alemanha tenha assumido um protagonismo que hoje, quando ela se rearma e se torna a maior produtora de munição do Ocidente, a põe na posição de escudo da Europa num eventual conflito aberto contra a Rússia. Seus vários portos funcionarão como um ímã para os mais variados tipos de ataque.

O porto de Hamburgo, um dos maiores da Europa, não está exatamente localizado em no Mar do Norte, mas sim no rio Elba, a aproximadamente cento e dez quilômetros da sua foz. E essa via fluvial é vital para a logística alemã.

Ao nos deslocarmos para a costa do Mar Báltico, encontramos uma densa concentração de portos alemães. De oeste para leste, eles são Flensburg, Eckernförde, Kiel, Lübeck com seu distrito de Travemünde, Puttgarden, Wismar, Rostock, Stralsund e Sassnitz. Alguns desses portos têm função militar declarada. Kiel abriga uma das principais bases navais alemãs e é o ponto de passagem do Canal de Kiel, que liga o Báltico ao Mar do Norte, uma artéria estratégica de primeira grandeza. Rostock sedia um quartel-general marítimo da OTAN para o Báltico, tornando-se um centro de comando crucial. Flensburg possui uma base naval que inclui a prestigiada Academia Naval Alemã, e Eckernförde é o lar do Centro de Guerra Naval Especial, onde são treinados os comandos anfíbios.

Nessa latitude, um grau de longitude equivale a cerca de sessenta e cinco quilômetros, o que significa que alguns desses portos são extremamente próximos uns dos outros. Lübeck e Travemünde formam um único complexo portuário, assim como Rostock e Warnemünde. Kiel e Eckernförde estão separados por apenas vinte quilômetros. Essa alta densidade portuária no sul do Báltico não é acidental; ela se deve a fatores históricos, como a influência da Liga Hanseática, e geográficos, como a existência de fiordes e baías abrigadas.

Em um cenário de conflito a partir da Bielorrússia, a vulnerabilidade desses portos não é definida apenas pela distância, mas sobretudo pelo seu valor estratégico e pela sua importância militar e logística para a OTAN. Rostock e Kiel seriam os alvos de primeira ordem. Rostock é o maior porto alemão no Báltico e abriga o comando da OTAN, funcionando como um hub logístico para receber tropas e equipamento pesado destinados aos países bálticos. Kiel, com sua base naval e o canal, se paralisado, estrangula o fluxo de navios militares e cargueiros entre dois mares. Lübeck e Wismar seriam alvos de apoio importantes, e Sassnitz, por sua posição próxima ao enclave russo de Kaliningrado, representa uma localização geopoliticamente sensível.

Para analisar esse cenário com realismo, é preciso considerar a tecnologia disponível. O míssil balístico russo Oreshnik tem alcance declarado de até cinco mil e quinhentos quilômetros. A distância em linha reta entre Moscou e Hamburgo é de aproximadamente mil setecentos e oitenta quilômetros. Viajando a velocidades de Mach dez, ou cerca de doze mil e duzentos e cinquenta quilômetros por hora, o tempo de voo do Oreshnik de Moscou a Hamburgo seria de aproximadamente oito minutos e quarenta e dois segundos. Para Berlim, o tempo seria ligeiramente maior, e para Paris ou Londres, na faixa de dezessete a vinte minutos. Isso significa que, num conflito aberto, qualquer ponto da Alemanha estaria a menos de quinze minutos de um possível impacto.

A natureza da guerra, no entanto, não é definida apenas pela tecnologia, mas pela estratégia e pela percepção do inimigo. Uma tipologia clássica e precisa distinguir dois tipos fundamentais de guerra. As guerras de conquista buscam o menor dano possível para maximizar o butim. O agressor quer ocupar e explorar, não destruir o que pretende tomar. Já as guerras de arraso procuram maximizar o dano e aniquilar o inimigo como civilização. O objetivo não é ocupar, mas tornar o oponente incapaz de qualquer ameaça futura. Guerras de conquista costumam ser de ataque, enquanto guerras de defesa, quando percebidas como existenciais, costumam visar o arraso para eliminar ameaças posteriores.

Aplicando essa tipologia ao conflito entre Rússia e OTAN, é necessário compreender a percepção russa. A Rússia não pretende conquistar a Europa. Não há butim a ser preservado em Berlim ou Paris. O que Moscou busca, numa guerra que considera defensiva contra um inimigo que avançou em sua direção contrariando acordos informados no final da União Soviética, é a aniquilação da capacidade militar da OTAN na sua fronteira ocidental. O objetivo russo, nesse quadro, seria causar dano máximo aos centros de decisão, logística e produção bélica europeus, para que a Europa não possa se rearmar e ameaçar a Rússia novamente nas décadas seguintes.

Isso significa que, numa guerra aberta, os portos alemães não seriam apenas bombardeados. Seriam arrasados com múltiplas ogivas e ataques repetidos. As fábricas de munição, como a nova megafábrica da Rheinmetall em Unterlüss, seriam alvejadas não uma, mas várias vezes, com mísseis de penetração profunda. E as cidades portuárias sofreriam danos maciços, pois em uma guerra de arraso não há preocupação em errar para o lado da cidade.

No entanto, essa lógica encontra um freio poderoso na realidade histórica e cultural. Durante a Segunda Guerra Mundial, americanos e britânicos promoveram o bombardeio de tapete sobre cidades alemãs, destruindo monumentos como a Kreuzkirche, e Winston Churchill defendeu o uso de armas químicas proibidas pela Convenção de Genebra. O que conteve a escalada para o arraso total da Alemanha foi o fato de Franklin Roosevelt ter lembrado a Churchill que grande parte dos soldados americanos eram germano descendentes e lutavam para libertar seus parentes na terra de seus ancestrais. Havia um laço étnico e familiar freando a bestialização do inimigo.

Hoje, Putin não arrasa a Ucrânia apesar de ter poder militar para fazê-lo, porque há séculos de simbiose e parentesco cruzado. O conflito na Ucrânia é, sob muitos aspectos, uma guerra entre irmãos, e ninguém destrói completamente a casa do irmão porque a sua própria história está ali. Mas, assim como o Exército Vermelho, ao atravessar a Polônia em direção a Berlim em 1945, libertou-se de qualquer noção de parentesco com os alemães e o que se viu foi estupro, destruição e ódio étnico, a Rússia, se um dia tiver que atravessar a Polônia para atacar a Alemanha, também perderá esses freios. Nesse momento, e somente nesse momento, a guerra se tornará de arraso total, sem consideração por monumentos, cidades ou vidas civis alemãs.

Enquanto a guerra se mantiver na Ucrânia, Putin freia o arraso. Mas se o conflito escalar para um confronto direto com a OTAN e as tropas russas ou seus mísseis tiverem que atravessar a Polônia para atingir a Alemanha, os freios desaparecem. E então entram em cena as tecnologias mais letais do arsenal moderno.

Os mísseis balísticos Oreshnik têm precisão de metros, graças a sistemas de direção por jatos de dióxido de carbono posicionados ao redor de suas ogivas, além de motores que impedem que sua velocidade caia na reentrada atmosférica, mantendo sua energia cinética. Isso permite ataques altamente destrutivos contra alvos específicos: um hangar de submarinos, um centro de comando, uma doca, uma fábrica de munição. O dano é extenso, mas localizado. É a ferramenta ideal para a guerra destrutiva contra a infraestrutura bélica e de defesa.

Simultaneamente, as bombas termobáricas oferecem uma ferramenta diferente. Elas não dependem de fragmentação ou de uma onda de choque curta. Seu princípio de operação é dispersar um aerossol ou pó combustível sobre uma área e depois detonar essa nuvem, criando uma onda de sobrepressão que dura até um segundo, muito mais que explosivos convencionais. Essa onda de pressão rompe pulmões e estoura tímpanos. A explosão consome o oxigênio disponível, criando um vácuo que colapsa os pulmões e mata por asfixia. E gera temperaturas de até três mil graus Celsius, incinerando tudo dentro da área de efeito. O resultado em seres humanos é instantâneo e aterrorizante: pulmões rompidos, intestinos perfurados pelas bolsas de ar, queimaduras de terceiro grau generalizadas, asfixia. Como descreveu um controlador aéreo americano, a bomba termobárica simplesmente explode seus pulmões para fora da boca, meio que virando você do avesso.

O que torna essa combinação particularmente letal é que os dois tipos de ataque podem ocorrer simultaneamente, e com a precisão atual, podem ser direcionados a alvos diferentes na mesma área. Enquanto um míssil Oreshnik destrói o hangar de submarinos em Kiel, uma bomba termobárica pode ser lançada sobre os alojamentos militares ou as áreas residenciais próximas, onde moram as famílias dos marinheiros. Enquanto a fábrica de munição da Rheinmetall é caracterizada por mísseis de penetração, os bairros operários vizinhos são consumidos pelo vácuo e pelo fogo. A precisão dos mísseis permite separar os alvos por tipo: destruir estruturas militares com um vetor e aniquilar populações com outro.

O objetivo do ataque letal com bombas termobáricas é quebrar a moral do inimigo. Não por propaganda ou notícias falsas, mas por uma experiência direta e aterrorizante. O soldado descobre que sua família, em casa, morreu queimada ou asfixiada enquanto ele estava na linha de frente. O civil entende que nenhum lugar é seguro, nem sua casa, nem o abrigo, nem o hospital. A moral não é quebrada por palavras, mas por carne queimada e ossos moídos.

Isso atualiza a lógica clássica da guerra de uma forma que a tipologia tradicional não capturava. Na Segunda Guerra Mundial, para matar pessoas precisava-se destruir prédios. As bombas eram imprecisas e os danos colaterais eram inevitáveis. Hoje, a tecnologia permite matar todas as pessoas em um quarteirão sem derrubar uma única parede. A bomba termobárica mata por pressão, vácuo e calor, mas deixa grande parte da estrutura de pé. Isso significa que arrasar cidades não é mais necessário para aniquilar populações. O atacante pode matar os habitantes e preservar a infraestrutura, o pior dos dois mundos para o defensor, que perde sua população mas não tem ruínas para justificar a rendição.

A conclusão deste raciocínio é sombria e inevitável. Enquanto a guerra se mantiver na Ucrânia, os freios culturais e familiares impedem o arraso. A Rússia ainda vê os ucranianos como um povo irmão, por isso hesita usar o poder máximo de destruição. Mas na Alemanha, não há parentesco. O alemão é percebido pela mentalidade russa como o herdeiro do nazismo que invadiu a União Soviética em 1941, como o líder da OTAN que agora ameaça a Rússia em suas fronteiras históricas. Para o imaginário russo, atravessar a Polônia e entrar na Alemanha é repetir 1945, o ano em que o Exército Vermelho não teve freios.

Se esse dia chegar, os portos alemães no Báltico não serão apenas bombardeados. Serão aniquilados como centros de vida. As docas e os guindastes podem ficar de pé, vazios e silenciosos, mas as populações que os cercam serão consumidas pelo vácuo e pelo fogo das bombas termobáricas. E tudo isso acontecerá em menos de quinze minutos, o tempo entre o lançamento de um míssil na Bielorrússia e o seu impacto em Hamburgo. Esse é o cenário que a geografia, a história, a estratégia e a tecnologia desenham para o Báltico. Resta saber se os freios culturais sobreviverão à escalada, ou se a guerra entre irmãos na Ucrânia se transformará, ao atravessar a Polônia, na guerra de arraso contra um inimigo que já não se reconhece como família.

É impensável que, oitenta anos depois do término da II Guerra, ainda tenhamos que escrever sobre o quão longe pode ir a insanidade humana.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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