20 de maio de 2026

Terras raras: soberania em risco e o dever de reagir, por Peregrino & Bogossian

Estamos diante de um processo que pode, sim, ser interpretado como uma forma contemporânea de colonização econômica
Reprodução

A mineradora brasileira Serra Verde foi adquirida pela americana USA Rare Earth, com apoio estatal dos EUA, em Goiás.
A mina de Pela Ema pode produzir metade das terras raras pesadas fora da Ásia até 2027, essenciais para tecnologia e defesa.
Clube de Engenharia pede políticas para proteger minerais estratégicos e evitar dependência tecnológica estrangeira.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

do Clube de Engenharia

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Terras raras: soberania em risco e o dever de reagir

por Fernando Peregrino e Francis Bogossian

A recente aquisição da mineradora brasileira Serra Verde por uma empresa com participação estatal dos Estados Unidos — a USA Rare Earth — não é apenas uma operação empresarial. Trata-se de um movimento geopolítico de grande envergadura, inserido na disputa global por minerais estratégicos que sustentam a economia do século XXI. O episódio exige reflexão e, sobretudo, ação.

As chamadas “terras raras” — um conjunto de elementos químicos essenciais à produção de ímãs permanentes, semicondutores, turbinas eólicas, veículos elétricos e sistemas de defesa — tornaram-se o novo “petróleo” da era digital. Hoje, a China domina a cadeia global, respondendo pela maior parte do processamento e da produção de ímãs de alta performance. Em resposta, os Estados Unidos vêm estruturando uma estratégia agressiva de reindustrialização e segurança nacional, na qual o controle dessas cadeias produtivas é central.

É nesse contexto que se insere a aquisição da Serra Verde. Localizada em Goiás, a mina de Pela Ema é considerada um ativo singular: poderá responder por mais da metade da produção mundial de terras raras pesadas fora da Ásia até 2027. Ao assumir o controle desse ativo, a empresa americana — com apoio direto de instrumentos financeiros do governo dos EUA, como a Development Finance Corporation — passa a integrar uma cadeia completa: da mineração à fabricação de ímãs.

Não se trata, portanto, de investimento estrangeiro neutro. Trata-se de política industrial externa daquele país que atenta contra a Nova Indústria Brasil proposta pelo governo brasileiro que propugna exatamente por uma maior independência. O financiamento estatal americano, os contratos de longo prazo com empresas de propósito específico capitalizadas pelo governo dos EUA e a reorganização dos fluxos de exportação evidenciam uma estratégia clara: deslocar o eixo de dependência tecnológica da China para uma cadeia controlada pelo Ocidente — ainda que ancorada em recursos naturais brasileiros.

O Brasil, nesse arranjo, corre o risco de permanecer na posição histórica de mero fornecedor de matéria-prima. Exporta-se o mineral bruto ou parcialmente beneficiado, enquanto o valor agregado — tecnológico, industrial e estratégico — é apropriado no exterior. É a repetição, em pleno século XXI, de um padrão de inserção subordinada que remonta ao ciclo colonial.

A analogia não é retórica. Quando uma potência estrangeira mobiliza seu aparato estatal para garantir acesso privilegiado a recursos estratégicos em outro país, condicionando fluxos produtivos e capturando etapas de maior valor, estamos diante de um processo que pode, sim, ser interpretado como uma forma contemporânea de colonização econômica.

O precedente histórico brasileiro reforça a gravidade da situação. A privatização da Companhia Vale do Rio Doce, ainda hoje objeto de debate, já evidenciava os riscos de perda de controle sobre ativos minerais estratégicos. No caso das terras raras, porém, o problema é ainda mais sensível: não se trata apenas de mineração, mas do domínio de tecnologias críticas para a transição energética, a indústria de defesa e a soberania digital.

Diante desse cenário, o silêncio não é uma opção.

O Clube de Engenharia do Brasil, fiel à sua tradição histórica de defesa do desenvolvimento nacional, deve se posicionar de forma clara e firme e exigir da Agencia Nacional de Mineração uma atitude em defesa do estado brasileiro. É preciso exigir do governo brasileiro uma política robusta de proteção e valorização de seus minerais estratégicos.

Algumas medidas se impõem:

* Revisão do marco regulatório da mineração, com tratamento diferenciado para minerais críticos e estratégicos;

* Condicionamento de investimentos estrangeiros à internalização de etapas industriais no país, incluindo processamento e fabricação de ímãs;

* Participação acionária do Estado brasileiro ou de fundos soberanos em ativos estratégicos;

* Fortalecimento de empresas nacionais e estímulo à formação de cadeias produtivas completas no território brasileiro;

* Articulação entre universidades, centros de pesquisa e indústria, para desenvolver tecnologias próprias de separação e aplicação de terras raras.

O Brasil dispõe de competência científica — basta olhar para o sistema universitário e centros como a UFRJ e o CETEM — e de base mineral abundante. O que falta é decisão política para transformar esses ativos em poder econômico e soberania tecnológica.

A disputa global por terras raras não é apenas econômica; é civilizatória. Define quem liderará a próxima revolução industrial e quem ficará restrito ao papel de fornecedor periférico.

O momento exige coragem.

Ou o Brasil assume o controle de seu destino estratégico, ou continuará exportando futuro e importando dependência.

Fernando Peregrino – Fernando Otavio De Freitas Peregrino (Belém, PA, 22 de abril de 1950)[1] é engenheiro e político brasileiro. É Mestre e Doutor em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ. Foi presidente da FAPERJ em duas ocasiões e Secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do governo do Rio entre 2003 e 2007. Pro Reitor de Gestão da UFRJ e vice-presidente do Clube de Engenharia do Brasil.

Francis Bogossian – É formado em Engenharia Civil e fundador da Geomecânica. Presidiu a ANE (Academia Nacional de Engenharia), entre 2017 e 2023, e atualmente é presidente do Clube de Engenharia do Brasil, tendo exercido mandatos à frente da entidade, entre 14/09/2009 e 14/09/2015.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados