5 de junho de 2026

Terras raras: a Terrabras é nossa!, por Luís Nassif

O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo e agora tem sua principal mina subordinada aos EUA.
Terras raras. Foto: Camila Cunha / Serviço Geológico do Brasil.

PL 2780/2024 na Câmara permite exportação bruta de terras raras, reduz tributos e não exige beneficiamento nacional.
Mina brasileira de terras raras vendida à USA Rare Earth, ligada à estratégia militar e econômica dos EUA.
Empresas estrangeiras dominam jazidas; governo federal reage timidamente enquanto estados firmam acordos independentes.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Há 40 anos Lula tornou-se a única referência de candidato democrático. Tornou-se o presidente de maior respeitabilidade internacional e viveu uma etapa épica, enfrentando uma campanha policial, saindo para salvar o país do dessastre Bolsonaro 2. Com todo esse cabedal, não tem o direito de jogar fora a última grande oportunidade do Brasil tornar-se uma potência grande e justa.

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A maneira como o governo está trabalhando a questão das terras raras é irresponsável. Nem toda a vida épica de Lula, nem a maneira como salvou o país em 2022 e poderá salvar agora, o absolverá, perante a história, de jogar fora a oportunidade aberta pelas terras raras. Ou se entrar nessa campanha sem um desenho de futuro, um plano de metas.

Nesse momento, corre em regime de urgência na Câmara o PL 2780/2024 que é a expressão mais acabada do entreguismo.

O PL escancara as exportações de terras raras. Não impõe nenhuma obrigação de beneficiamento antes da exportação. Cria um Regime Aduaneiro Especial que inclusive reduz a carga tributária da exportação do minério em bruto. Em vez de induzir investimentos na cadeia industrial — produção de ligas, ímãs, semicondutores —, o regime cria atalhos para que os minerais saiam quase in natura.

O relator Arnaldo Jardim desempenha um papel irresponsável em relação ao país. Valendo-se da cobertura jornalística vergonhosa, anuncia que “o Brasil não deve ser mero exportador de commodities” e que a intenção é “atrair capital externo para processamento de insumos essenciais”. Mera retórica! O próprio texto contradiz esse objetivo: a intenção não é restringir exportação, mas atrair capital externo para processamento. São instrumentos inteiramente voluntários, sem nenhuma contrapartida obrigatória de industrialização. O máximo que chega é criar uma alíquota ridícula de 0,6% para investimentos em tecnologia.

A reação do governo Lula, através do Ministro das Minas e Energia , Alexandre Silveira, foi similar ao de Arnaldo Jardim. Em entrevista à Globonews, Silveira, usou e abusou da palavra soberania, industrialização.

O discurso é de soberania, mas o MME atuou em sinergia com o modelo liberal do PL 2780 — que o próprio Observatório da Mineração identificou como resultado de coordenação entre Congresso e Executivo para atender ao lobby das mineradoras. O ministro chegou a participar da reunião sobre a Terrabras (a proposta de criação de uma estatal de mineração) em março, mas o mecanismo de controle que prometia — o Conselho de 16 ministros — chegou depois que o principal ativo já havia mudado de mãos. A posição real do MME foi de omissão estratégica: deixar o mercado avançar enquanto constrói a narrativa de soberania para consumo político.

Para vergonha de todos os democratas, até o general Pazuello comportou-se de uma forma mais responsável em relação ao tema. Apresentou o PL 3829/2025 impondo a obrigatoriedade de beneficiamento nacional a todos os minerais estratégicos, proibindo a exportação em estado bruto; exigindo etapas mínimas de processamento no país.

Há uma corrida contra o relógio. Ontem, mais uma usina foi vendida para estrangeiros.

A “águas profundas” das terras raras

Segundo o economista Diógenes Breda, economista e professor na Universidade Federal de Uberlândia, não se tratou apenas de um mina vendida, mas da ‘águas profundas das minas de terras raras brasileiras’.

A mina de terras raras de argilas iônicas no Brasil, única fora da Ásia a produzir os quatro minerais essenciais para ímãs permanentes, foi vendida para a USA Rare Earth, integrada à Estratégia de Segurança Nacional dos EUA.

O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo e agora tem sua principal mina subordinada à estratégia militar, de defesa e econômica dos EUA.

Em 2025, a USA Rare Earth recebeu US$ 1,6 bilhão do Departamento de Defesa dos EUA e US$ 625 milhões da DFC (Development Finance Corporation), ligada ao Departamento de Comércio dos EUA.

A aquisição inclui cláusula de venda exclusiva para os EUA por 15 anos, com preços mínimos garantidos pelo governo americano.

Desde o final de 2025, o interesse americano e a preparação da venda eram conhecidos publicamente. O governo brasileiro, apesar de possuir mecanismos legais para intervir em casos de interesse nacional, nada fez para impedir a transação.

Apesar de ser um dos cinco maiores exportadores mundiais de minérios, as grandes mineradores mundiais têm forte penetração e influência nos ministérios, dificultando o desenvolvimento de planos nacionais. O maior lobby do setor é o IBRAM (Instituto Brasileiro de Mineração), que representa 85% das mineradoras no país, influenciando opinião pública e editoriais contra a criação de uma estatal brasileira nos moldes da Petrobras, apelidada de Terrabras.

O Ministério de Minas e Energia, liderado por Alexandre Silveira, mostra resistência a políticas de fortalecimento da cadeia produtiva e à criação de estatais para o setor e limita-se a ser um agente de lobby de grandes grupos.

Em outros países, como Indonésia e México, houve nacionalização ou imposição de fortes condicionantes estatais à exploração de minerais estratégicos:

México (2022): criação de empresa estatal de lítio, monopolizando a exploração.

Indonésia: proibição da exportação bruta de níquel, formação de estatal em parceria com empresas internacionais (principalmente chinesas), desenvolvendo cadeia produtiva local.

Políticas semelhantes são vistas como caminho para autonomia e desenvolvimento industrial, ao contrário da postura atual do Brasil.

O avanço sobre as jazidas nacionais

O quadro do avanço estrangeiro sobre as terras raras ficou assim, em pesquisa efetuada com o auxilio de IA:

O mapeamento está completo. Os pontos mais reveladores para fins investigativos:

A dominância australiana. Das empresas com projetos identificáveis, pelo menos seis são australianas, listadas na ASX. O modelo padrão é abrir uma subsidiária brasileira, obter os alvarás, e manter o controle e o destino da produção em Sydney. Não há exigência legal que impeça isso — e o PL 2780 não cria nenhuma.

O pico de 2024 e o esgotamento. O número de alvarás caiu de 1.108 em 2024 para 683 em 2025 — explicado pelo esgotamento do estoque de áreas com ambiente geológico favorável já mapeado. Quem chegou primeiro — e são empresas estrangeiras — ficou com as melhores posições.

O memorando Goiás-EUA. O governo dos EUA assinou com o estado de Goiás um memorando de entendimento que ampliava o acesso de empresas americanas a minerais críticos na região — em iniciativa de questionada constitucionalidade. Um estado da federação negociou acesso ao subsolo nacional com uma potência estrangeira, à margem do governo federal.

A BRE e o modelo Carester. A Brazilian Rare Earths, apoiada pela bilionária australiana Gina Rinehart, planeja extrair na Bahia e refinar na França — pela planta Caremag em Lacq. O Brasil fica com o buraco no chão; a França fica com o produto processado de alto valor.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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13 Comentários
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  1. emerson

    23 de abril de 2026 8:19 am

    Nassif eu desisto, não irei defender este e nunhum outro governo. Não irei votar em outubro, de é para destruir que seja com os Bolsonaro.

  2. Evandro Condé

    23 de abril de 2026 8:39 am

    Nassif, a Serra Verde já era americana, e com participação do governo americano. A questão é o compromisso criado. E, em tempo, reforço: nosso nióbio sai bruto e ao borbotões.

  3. cezarperin

    23 de abril de 2026 9:03 am

    Nassif !

    O Governo Lula não tem estratégia Nacionalista… Essa era a bronca de Brizola com ele…

    O Lha o caso da escala 6×1… Agora no último ano resolveu mexer nisso……

    Fosse Getúlio nesse assunto de Terras raras já teria criado uma estatal pra isso…

    Leiam o que Carlos Lessa disse de Lula

    O que me espanta tbm é o entorno de LULA

  4. jose machado

    23 de abril de 2026 9:53 am

    Depois que as estrangeiras exploram a área no Brasil, e deixam a devastação, o buraco no chão, e todo passivo ambiental;
    eles vendem para brasileiros a mina (a preços baixos ou quem sabe até simulados), e saem do negócio limpos, com todo
    dinheiro da exploração são e salvos.

    Sem uma verdadeira Democracia, e sem uma verdadeira imprensa (mídia) nacional, o Congresso Nacional não fará “lobby” para o
    povo brasileiro (que é sua missão, a casa do povo). Pois é. Quem faz “lobby” no Congresso Nacional para todos nós brasileiros
    são os políticos. Mas se o povo escolher políticos de direita que fazem “lobby” para o capital e não para nós, fica dificil
    termos uma país que vai pra frente.

  5. Cidadão sem cidadania

    23 de abril de 2026 10:18 am

    Lula não é salvador de nada, ele e somente ele entregou a eleição de 2018 para Bolsonaro, lula sabia que não ia concorrer a eleição por causa da lei ficha limpa que ele assinou, poderia ter apoiado o Ciro , assim como prestes fez com Getúlio, lula é pequeno de mais , os governantes estrangeiros adoram lula porque ele entrega tudo, tá entregando o pré sal , não salvou até agora a avibras , vai para 12 anos de governo e nem tentou reendustrializar o país , lula vai perder essa eleição, ou ele não vai disputar, lula e somente lula entregou a jazida para os EUA , hoje mesmo lula pode pegar a mina de volta e cancelar todas as outras, mas nada fará , porque é foi e será entreguista, só a esquerda vive a ilusão que lula é nacionalista, comparar lula a Getúlio é uma piada de total mal gosto.

  6. JADER MARTINS

    23 de abril de 2026 10:31 am

    Quando será que irão abrir a caixa preta do Niobio de Araxá? Fico impressionado com a displicência do governo em relação a CBMM.

  7. Gama

    23 de abril de 2026 12:48 pm

    Sr. Luis , infelizmente Governo Lula atende interesses das grandes potências que aqui instalaram empresas e exploram nosso povo e país (matéria prima, trabalho ,e mercado de consumo) . A RIQUEZA do capitalismo está no lucro e não na geração de empregos , que é uma consequência da riqueza trabalhada processada (manufaturas), assim todos governos do PT visaram manter estrutura econômica, monetária e política sem mudar estrutura, fazendo apenas obras e serviços sociais como meio de apaziguar conflitos sociais existentes no país impedindo revoltas e revoluções, falso progresso que mantém a mesma estrutura econômica de pais colônial, não há interesse em mudar estruturas , somente manter elas e apaziguar qualquer indignação com Estado e o status quo. Esse tal lula não deixará um legado próximo do que Getúlio Vargas deixou, não há um projeto de futuro de país

  8. Miranda

    23 de abril de 2026 2:02 pm

    Infelizmente o governo Lula não resistirá e não vai reagir à entrega das terras raras. A esquerda se limita à defesa de direitos individuais, nada mais.

  9. jucemir rodrigues da silva

    23 de abril de 2026 3:12 pm

    Segue comentário feito alhures.
    ……………………………………
    O nacionalismo de Lula, bem se vê, cabe dentro de um boné e não vai além da garganta.
    Por sinal, faz um tempinho que não se veem aqueles lindos bonés azul-democrata onde se lia em caracteres brancos O BRASIL É DOS BRASILEIROS.
    Tudo bem que toda moda é passageira – senão não seria moda – , mas convenhamos que a do Nacionalismo de Boné passou muito rápido.
    Durou o quê? Um, dois meses?…

    Minha fonte secreta na corte – que não revelo nem que me torturem – me confidenciou que foi o próprio Lula quem baixou a ordem: SUMAM COM ESSES BONÉS.QUEM NÃO QUISER QUEIMAR, ESCONDA NO FUNDO DA GAVETA.NÃO QUERO VER MAIS NINGUÉM USANDO.

    Perguntei por que o ucasse.
    Minha fonte respondeu: – Lula tinha medo de que Donny Trump pudesse levar a sério a brincadeira nacionalista e a tomasse como provocação.


    Na cotação de hoje, para a corrida presidencial deste ano, teremos, pra valer, dois concorrentes.
    Ei-los:

    – Dom Flávio, extremista de direita, neoliberal assumido e um entreguista radical e sem vergonhas; e

    – Luiz Inácio, político da direita moderada camuflada de esquerda e dito progessista(Seja lá o que “progressista” queira dizer.), neoliberal enrustido e entreguista envergonhado.

    [*]Em “correlação de farsas”, o crédito é de Gilberto Maringoni.

  10. jose carlos lima

    23 de abril de 2026 3:13 pm

    Os EUA tem ontrole sobre venda de recursos estrategicos por empresas

    Os americanos nao praticam la o que manda o Brail fazer

    1. Evandro Condé

      23 de abril de 2026 6:50 pm

      Tecnologia então…

  11. Hermes

    24 de abril de 2026 5:50 pm

    Ou os entreguistas oficiais (Bolsonaristas e a Direita) ou Lula que a muito tempo se acovardou, faz discurso mas no principal cede para Elite /Interesses do capital (EUA e etc) com medo de uma nova lava jato ou impeachment. Depois do fenômeno do Bolsonarismo que contaminou as mentes já fracas da massa no brasil, o caminho da eterna colônia está consolidado. A ÚNICA esperança esta na queda do império Americano, quem sabe daqui 25 anos, a ascensão definitiva do modelo China criará condição para derrubar a hegemonia da Elite brasileira, reacionária e corrupta, que não permite o país avançar como país Soberano. Precisamos lembrar a todos que um país não é feito de salvadores da pátria mas de uma elite mínima bem intencionada. Lula é realpolitik e, ele vai aonde dá e nada mais.

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