10 de junho de 2026

Não à política violenta do idionymo, por Aracy P. S. Balbani

A violência do idionymo também cabe no pequeno poder paroquial do baixíssimo clero nos países subdesenvolvidos.
Idionymo-Kolaz - Reprodução

O crime de idionymo, criado na Grécia em 1929, criminalizou ideias subversivas, usado por regimes autoritários.
No Brasil, a violência política persiste com milícias, empresários e líderes influentes ligados a interesses obscuros.
A abstenção eleitoral cresce desde 2014, ameaçando a democracia representativa e refletindo desconfiança no sistema.

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Não à política violenta do idionymo

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por Aracy P. S. Balbani

1

O crime de idionymo foi caracterizado numa lei da Segunda República Helênica de 1929. O regime ditatorial dos coronéis gregos, vigente de 1967 a 1974,consolidou a criminalização da manifestação de ideias consideradas subversivas, geralmente as dos comunistas ou de anarquistas, pelo enquadramento no idionymo.

Quase um século depois, muitos dos que detêm algum poder – político, religioso ou econômico – ao redor do mundo continuam sucumbindo à tentação de silenciar os indivíduos discordantes. Fazem isso por meios sutis – manipulação de informações; acordos de ‘toma lá, dá cá’ nos bastidores; sanções econômicas – ou pela violência escancarada.

O silenciamento violento varia: censura, assassinatos de reputação, perseguição judicial, extermínio físico do opositor indesejável ou de pessoas ligadas a ele – ainda que seja uma população inocente inteira –, prisões arbitrárias e tortura física ou psicológica.

Os métodos violentos estão, diabolicamente, cada vez mais sofisticados. A inteligência artificial, os ataques cibernéticos, as armas biológicas e sônicas, a dark web, entre outras tecnologias, permitem planejar estupros coletivos, roubo de dados, operações de queima de arquivo ou massacres bélicos até em hospitais e escolas infantis, e transmiti-los em tempo real pela internet. O terrorismo digital – de Estado, de rentistas, de grandes corporações ou do crime organizado – é uma ameaça concreta à espécie humana.

2

A violência do idionymo também cabe no pequeno poder paroquial do baixíssimo clero nos países subdesenvolvidos. Afinal, o ímpeto de matar opositores e concorrentes a sangue frio – inclusive os da mesma família – em disputas políticas ou de negócios locais remonta aos primórdios da humanidade. Muita gente acredita que os fins sempre justificam os meios. As oligarquias políticas e as máfias que o digam.

No Brasil, que não se libertou da tradição colonial machista dos latifúndios escravocratas, a sociedade segue dividida entre as pessoas de índole pacífica, atônitas com a violência, e os psicopatas que se regozijam com ela. Milicianos, amantes (civis ou militares) das ditaduras, atiradores, assim como inúmeros empresários, influenciadores digitais, líderes de igrejas e políticos ligados a interesses nebulosos completam o quadro social complexo.

Nesse caldo de cultura violenta sobrevivem gerações sucessivas de poderosos escravizados pela vaidade. Indiferentes a qualquer pessoa ou coisa que não sejam os próprios ego e bolso, enchem a boca para apontar a corrupção… apenas a alheia. Esquecem que a soberba, a ambição e todas as formas de abuso de poder são obscenas.

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As análises da mídia progressista sobre a conjuntura política de 2026 não têm abordado o fenômeno da abstenção eleitoral com a profundidade necessária.

Fato: a taxa de abstenção tem crescido desde 2014. Um olhar rápido sobre os resultados das eleições municipais de 2020 e 2024 em quase todo o Brasil, nas quais as safras mais medíocres possíveis de prefeitos e vereadores chegaram ao poder ou foram reeleitas, permite ver que o voto obrigatório tornou-se, na prática, facultativo.

Além da falta de letramento político de parte significativa do eleitorado, e da influência notável da imprensa comercial golpista, da elite financeira, das facções criminosas e dos expoentes saudosistas da ditadura e da tortura, a abstenção eleitoral também é outra adversária traiçoeira da democracia representativa no País. Não a subestimemos.

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Para quem sente medo, angústia e impotência diante do risco de retrocesso das conquistas democráticas e civilizatórias obtidas com grande sofrimento a partir de 1988, fica o testemunho de quem acompanha este processo há 40 anos.

Primeiro: a maioria dos(as) candidatos(as) a déspotas é muito valente apenas da boca para fora. São uns bravateiros das frases de efeito nos palanques e nos ‘cercadinhos’, sem contar as propagandas boladas por marqueteiros contratados a peso de ouro. Porém, assinam o recibo de covardes e incapazes de terem ideias próprias. Raramente conseguem debater argumentos consistentes, face a face com os opositores, sem apelar para alguma baixaria desmentida rapidamente.

Segundo: não há como enfrentar os grandes desafios sem mobilização popular. Militância digital é necessária, mas não suficiente.

Por fim, mas não menos importante: ao assumir o compromisso com a civilização, a verdade e a democracia, o que conta não é sustentar a fachada de simpatia de certas pessoas ao nosso redor.

O que importa realmente é a consciência de entrar para a História sem fazer concessões ao medo ou às conveniências de ocasião.

O respeito à memória das 710.000 vítimas fatais de COVID-19 no Brasil e à dignidade de seus familiares sobreviventes requer que honremos esse compromisso até o último de nossos dias.

Esperança e luta!

Aracy P. S. Balbani é médica no interior paulista.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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