22 de junho de 2026

O curioso projeto desenvolvimentista do Estadão

Que tal analisar aquilo que ele considera modelos vitoriosos, sem a ortodoxia emburrecedora que acomete a mídia econômica e os editoriais?
Reprodução

Estadão critica atraso do Brasil atribuindo ineficiência estatal, baixa produtividade e sistema tributário complexo.
Botsuana, Coreia do Sul e Romênia são citados como modelos de desenvolvimento com forte papel estatal e reformas.
Os três casos mostram que o desenvolvimento depende de Estado ativo, planejamento e reformas institucionais, não do laissez-faire.

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O editorial de hoje do Estadao é curioso. Alerta para o baixo desenvolvimento brasileiro, pós-Plano Real – o que é fato. Atribui aos fantasmas recorrentes de sempre.

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“O Estado é inchado, perdulário e ineficiente. O Orçamento da União é engessado. Os investimentos, quando existem, são insuficientes. A infraestrutura é deficiente e incapaz de dotar o Brasil das condições para crescer em toda a sua plenitude”.

“A produtividade é baixíssima em comparação com economias mais desenvolvidas, a educação falha reiteradamente em formar capital humano competitivo, o ambiente de negócios é hostil por sua enlouquecedora complexidade normativa, e o sistema tributário, um “manicômio” que a reforma tributária mal começou a resolver”. Como pessimismo que é pessimismo, a mais radical reforma tributária, desde os anos 60, é tratada como mal começando a resolver. E tudo desemboca em tratar a reforma 5 x 2 como fonte de atraso.

Termina com outros exemplos: um país que avançou menos do que poderia e menos até do que nações como Botsuana, Coreia do Sul e Romênia.

Opa! O jornal acaba de nos apresentar três modelos. Que tal analisar aquilo que o Estadão considera modelos vitoriosos, despidos da ortodoxia emburrecedora que acomete a mídia econômica e os editoriais?

BOTSUANA — Estado desenvolvimentista de recursos com governança fiscal rigorosa

O caso mais paradoxal da África. País sem litoral, sem infraestrutura herdada, mas que transformou a riqueza mineral (diamantes) em desenvolvimento sustentado — ao contrário da maioria dos países africanos ricos em recursos, que caíram na “maldição do petróleo/minério”.

Os pilares do modelo histórico:

  • Macroestabilidade exemplar e longa trajetória de políticas de desenvolvimento bem-sucedidas, raras no continente africano
  • Gestão fiscal rigorosa das receitas diamantíferas, com poupança soberana e investimento em infraestrutura e educação. Por aqui, toda a poupança é carreada para os ganhos financeiros, de acordo com o modelo defendido pelo Estadão.
  • Institucionalidade sólida: Estado de direito, estabilidade política, baixa corrupção para padrões africanos. Por aqui, golpes de impeachment, Lava Jatos, apoiadas pelo Estadão.

O desafio atual é exatamente a transição: diversificar para longe dos diamantes e reorientar para um modelo orientado à exportação, intensivo em trabalho e liderado pelo setor privado. O crescimento histórico gerou relativamente poucos empregos e manteve desigualdade elevada.

COREIA DO SUL — Estado desenvolvimentista autoritário com política industrial ativa

O caso canônico de catching-up industrial do século XX. O rápido crescimento sul-coreano desde os anos 1960 — o “Milagre no Rio Han” — foi conduzido por uma estratégia de desenvolvimento liderada pelo Estado e centrada nos chaebols, grandes conglomerados familiares como Hyundai, Samsung e Daewoo.

Os pilares do modelo:

  • Governo autoritário de Park Chung-hee que priorizou empréstimos preferenciais a empresas exportadoras e isolou indústrias domésticas da concorrência externa. O oposto do que o jornal defende.
  • Planejamento quinquenal com metas setoriais, foco sequencial em indústria leve → pesada e química → tecnologia. O jornal trataria como intervencionismo estatal.
  • Os chaebols recebiam garantia de empréstimos bancários e foram peças-chave no desenvolvimento de novos setores industriais e na produção para exportação. Por aqui, os financiamentos do BNDES são tratados como se alimentassem o déficit público.
  • Investimento maciço e contínuo em educação e capital humano. Por aqui, gastos com educação e capital humano são considerados engessamento da orçamento,

Os custos do modelo: os chaebols lideraram a transformação estrutural da economia, mas também a produção de créditos podres, contribuindo para aprofundar crises — notadamente a de 1997, quando o FMI interveio com pacote superior a US$ 50 bilhões.

ROMÊNIA — Convergência via integração europeia

Modelo bem diferente dos outros dois: crescimento puxado pela ancoragem institucional externa, não por política industrial própria.

  • A primeira década de transição pós-comunismo foi marcada por reformas estruturais limitadas, falta de disciplina fiscal, hiperinflação e queda no padrão de vida
  • O ponto de virada foi o consenso nacional de que a adesão à UE era o único caminho viável — o que forçou reformas profundas políticas, jurídicas, institucionais e econômicas
  • O modelo econômico romeno entregou convergência rápida após a adesão à UE: o PIB per capita saltou de menos de €3.000 em 2004 para mais de €18.000 vinte anos depois
  • Entre os países do Leste Europeu que aderiram à UE entre 2004 e 2022, a Romênia registrou o maior crescimento de PIB per capita

O modelo tem fragilidades estruturais sérias: arrecadação fiscal muito baixa (~27-31% do PIB contra média europeia de ~41%), maior lacuna de IVA da UE, e crescimento de gastos públicos acima do ritmo da economia.

O que os três têm em comum — e o que isso diz sobre o Brasil

Nenhum dos três casos é de laissez-faire puro. Botsuana usou o Estado para gerir recursos com disciplina fiscal. A Coreia usou o Estado para dirigir a industrialização. A Romênia usou uma âncora institucional externa (UE) para forçar reformas que a política doméstica não conseguia produzir.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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4 Comentários
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  1. Evandro Condé

    10 de maio de 2026 1:39 pm

    Sou dos que leio Estadão e, pior, escrevo a eles. Adianta de merda alguma, mas, de alguma forma, me sinto recompensado.
    Ser contra o Lula já não é obsessão, é caso clínico. Não satisfeitos com a morte do Guzzo (passou 4 anos do governo Jair só falando mal do Lula e nem uma linha sobre o Jair), arrumaram outro articulista para continuar o trabalho.
    Vamos reconhecer, achavam o Jair uma merda. Mas, com o temor de ver o Lula ganhar novamente, amenizam além da conta o currículo do Flavito. Vez em quando falam desse congresso, mas parecem ter receio de ferir suscetibilidades. Como se não estivesse cheio de salafrários e oportunistas (os pastores são apenas exemplo evidente). De minha parte ficou pensando nos que lêem e aplaudem? Acho que os leitores desse matutino não são ignorantes acríticos.

    Agora, um detalhe, nosso sistema educacional, se continuar no padrão, não sobram para um futuro promissor.

  2. Jose carlos lima

    10 de maio de 2026 6:27 pm

    Uma frase que levo no bolso, de Nassif: Um país será aquilo que sua elite quer que ele seja

    Com essa elite escravista, colonial e anti povo, só podemos esperar planos como este do Estadão

    Triste

  3. José Carlos

    10 de maio de 2026 9:40 pm

    São dois os extorvistas brasileiros: 1. As fazendas públicas, comandadas por políticos corruptos e ineficentes em todo o Brasil. Perseguindo o povo brasileiro com injustos impostos e punições. 2. A elite brsileira financeira, midiática, com sua cobrança sem controle de juros extorsivos também.
    Pior? Um ajuda o outro. Onde haverá desenvolvimento nesse país com instituições irresponsáveis.

  4. Evandro Condé

    11 de maio de 2026 7:35 am

    E hoje, segunda feira, publicam artigo do The Economist que coloca no mesmo patamar Trump e Xi Jinping. Acho que em breve irão dizer que na China se come criancinhas.

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