4 de junho de 2026

Notícias de Ormuz, por Daniel Afonso da Silva

Após os ataques, a movimentação regrediu para 20 navios diários no começo de março, chegando a cinco na virada de março para abril.
Reprodução

Intervenção israelo-norte-americana no Irã reduziu fluxo mercante no estreito de Ormuz de 160 para 5 navios diários.
EUA iniciaram bloqueio naval no mar da Arábia em abril e lançaram Project Freedom para garantir trânsito mercante.
Preço do petróleo subiu de 75 para 126 dólares o barril, podendo chegar a 150-200 nos próximos anos, segundo economista.

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Notícias de Ormuz

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por Daniel Afonso da Silva

A intervenção israelo-norte-americana no Irã tem causado turbulências no mundo inteiro. Centralmente no Oriente Médio. Notadamente pelo cerceamento do estreito de Ormuz.

Até o 28 de fevereiro de 2026, o fluxo mercante na região seguia na média de 160 embarcações diárias. Após os ataques, a movimentação regrediu para 20 navios diários nos primeiros dias de março, chegando a cinco na virada de março para abril.

Essa situação levou os norte-americanos a promover o bloqueio naval no mar da Arábia a partir do 13 de abril e a instauração do Project Freedom no 4 de maio. O propósito do Project Freedom é normalizar o trânsito mercante ao encontro do Ocidente. Europa e Américas. Para tanto são mobilizados contratorpedeiros, 100 aparelhos aéreos em solo e no mar e perto de 1.500 soldados para securitizar a área.

Mesmo assim, nada alterou a tendência de alta do preço do petróleo, que saiu de 75 dólares o barril no início da investida, chegou a 126 dólares em fins de abril e tende a ultrapassar a barreira dos 150 nos próximos meses.

Olivier Blanchard, conhecido economista francês com importante atuação no FMI, sugere uma alteração estrutural do regime de preços do petróleo. Sua aposta é que, pelos próximos anos, o preço do barril poderá flutuar entre 150 e 200 dólares.

No conjunto do petróleo bruto em circulação pelo estreito de Ormuz, 3% vão em destinação aos Estados Unidos, 7% para toda a Europa, 10% para a Coréia do Sul, 12% para o Japão, 13% para a Índia, 33% para a China e 18% para o restante dos países asiáticos.

A China e os demais países asiáticos, portanto, seriam os mais afetados do cerco ao estreito de Ormuz. Entretanto, para conter o sinistro, desde o início do conflito, a China conseguiu preservar parcela importante de sua importação com negociações bilaterais com o Irã, com a União Europeia e com os Estados Unidos.

Mesmo assim, inevitavelmente, o estrago segue amplo, estridente e inevitável. Primeiro pelo choque inflacionário. Em seguida, pela descontinuação no comércio de variados insumos saídos da região, como o alumínio e do polietileno, amplamente utilizados na Ásia.

A turbulência mais severa se dá mesmo no próprio Oriente Médio, onde a maior parte dos países da região depende do estreito para escoar a sua produção. Em números, 89% das exportações da Arábia Saudita, 97% do Iraque, 66% dos Emirados Árabes Unidos, 100% do Irã, 100% do Kuwait e 100% do Qatar dependem dessa passagem.

Em termos mundiais, o estreito de Ormuz não figura entre os mais relevantes. Por ele transitam 34 mil navios por ano ao passo que pelo de Taiwan transitam 88,4 mil; pelo da Coreia, 82,1 mil; por Malaca, 71,5 mil; por Rohal, 64,1 mil; por Pas de Calais, 60,6 mil; por Gibraltar, 47,8 mil; por Luçon, 25,7 mil; pelo cabo da Boa Esperança, 21,5 mil.

O decisivo no estreito médio-oriental é a sua função de pulmão da região. Uma das regiões mais relevantes do mundo. Ponto de passagem e acesso da Ásia à Europa e às Américas.

O mal-estar está lançado. Aguarde-se os desdobramentos.

Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”.

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Daniel Afonso da Silva

Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”. [email protected]

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