5 de junho de 2026

Os bestializados: o povo e a política no Brasil, por Michel Aires

A impressão que temos é que nunca existiu no Brasil um sentimento de comunidade, de pertencimento, de cidadania.
Reprodução

A República no Brasil foi proclamada em 1889 sem participação popular, nascendo de um golpe militar com apoio das elites.
O Brasil lidera os BRICS e promove uma nova ordem global, com destaque para iniciativas como o Brics Pay e a transição energética.
Políticas sociais redistributivas ampliam justiça social, mas a população ainda é politicamente excluída e manipulada pelas elites.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Os bestializados: o povo e a política no Brasil

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Michel Aires de Souza Dias

Em 15 de Novembro de 1889, há exatos 137 anos, houve a Proclamação da República. No livro, Os bestializados: O Rio de Janeiro e a República que não foi, José Murilo de Carvalho analisou o pecado original do Brasil: a República começou sem a participação popular. Ela nasceu de um golpe militar com o apoio das elites. Não existiu uma participação sólida do povo. Não houve uma prática efetiva de cidadania. Esse é um problema de origem que marcou profundamente o desenvolvimento de nossa nação e ainda continua marcando. A população sempre foi conduzida como gado, como massa de manobra pelas elites. O povo que deveria ter sido o protagonista do novo regime, pois esse era o ideal republicano iluminista, assistiu a tudo aquilo como uma parada militar. O quadro do artista paulista Benedito Calixto (1893), que retratou a Proclamação da República, é emblemático a esse respeito. Marechal Deodoro da Fonseca aparece montado em um cavalo posicionado no centro como líder do movimento. O quadro mostra apenas os militares, sem a participação popular. Naquela época, a frase que se tornou famosa, de Aristides Lobo, o propagandista da República, afirmava que “o povo teria assistido bestializado à Proclamação da República, sem entender o que se passava” (Carvalho, 1987, p. 68).

A impressão que temos é que nunca existiu no Brasil um sentimento de comunidade, de pertencimento, de cidadania. Como bem observou José Murilo de Carvalho (1987, p.38): “A cidade não era uma comunidade no sentido político, não havia o sentimento de pertencer a uma entidade coletiva. A participação que existia era de natureza antes religiosa e social”. O povo só tinha o sentimento de união e organização no carnaval e nas festas religiosas Os intelectuais, os anarquistas e lideranças do movimento operário não se cansavam de reclamar da apatia da população, de seu desinteresse, de sua falta de espírito de luta: “Quando se tratava do próprio carnaval, os anarquistas não hesitavam em usar a expressão forte de Aristides Lobo: a festa revelava, do lado dos participantes, ignorantes e imbecis, do lado dos assistentes, uma turba de bestializados; nos dois casos, um povo incapaz de pensar e de sentir” (Carvalho, 1987, p. 140).

Da Proclamação da República aos dilemas atuais, a exclusão política do povo brasileiro revela uma continuidade inquietante. Passados mais de um século da mudança de regime, o povo continua bestializado, apático aos acontecimentos e manipulado pelas elites. As pesquisas eleitorais desse ano demonstram isso. Na eleição desse ano, o candidato de extrema-direita, Flávio Bolsonaro, financiado pelas elites empresariais e pelo agronegócio possui mais de 40% das intenções de votos. Isso mostra que a população ainda não foi capaz de reconhecer as políticas sociais redistributivas do governo atual e o protagonismo do Brasil na transformação de uma nova ordem global. A eleição da extrema direita representa um perigo a autonomia e a soberania nacional. Se isso se confirmar, o Brasil deve se tornar dependente e submisso aos interesses norte-americanos, que objetivam espoliar nossas riquezas naturais e, também, moldar o ambiente político e econômico para favorecer seus interesses geopolíticos.

Se no Brasil a população está bestializada e alienada em relação as mudanças que estão acontecendo, as outras nações já perceberam que o Brasil representa o país mais importante para as transformações sociais, políticas e econômicas em um mundo multipolar. Nosso país é a peça central na expansão da cooperação internacional. As nações já reconheceram que Brasil está se tornando o grande protagonista no fortalecimento do multilateralismo. Hoje, o Brasil lidera os BRICS e a perspectiva de uma nova ordem mundial. Não se trata apenas de mudanças estruturais no âmbito do Estado-Nação, mas de uma nova governança global que deve mudar as formas de cooperação na política, segurança, finanças, comércio, cultura e meio ambiente. Até o presente momento, os BRICS já possuem onze países membros: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. Esse bloco já representa uma significativa parcela do PIB (Produto Interno Bruto) mundial. Já superou o G7 (Grupo dos sete), pois possui 39% do PIB e 49% da população mundial. O multilateralismo já representa uma reconfiguração da ordem econômica global, uma vez que os BRICs já começaram a deslocar o poder econômico do Norte-Global para o Sul-Global.

Ao contrário do unilateralismo fundado na dominação dos países mais ricos, as relações multilaterais buscam a cooperação, a igualdade, a não-interferência e o benefício mútuo. O acordo de Bretton Woods, que estabeleceu a hegemonia dos Estados Unidos por meio da gestão monetária internacional, através do dólar, deve dar lugar a uma nova moeda digital, operada em blockchain. A ideia de uma moeda comum surgiu com o Presidente Lula, na Cúpula dos BRICs, em 2023, em Joanesburgo, na África do Sul. O objetivo é diminuir a dependência do dólar nas transações comerciais entre os países membros, buscando reduzir as sanções dos EUA. Mesmo que essa ideia não seja implementada, as moedas locais devem ser usadas em substituição ao dólar, desenvolvendo um novo sistema de pagamento com a finalidade de reduzir a dependência do sistema Swift. Para substituir esse sistema está surgindo, por iniciativa do Brasil, o Brics Pay, ou seja, o Pix dos Brics, um Pix global que permite transações instantâneas e diretas entre os países membros. Essa iniciativa não é apenas econômica, mas política. É uma ação cujo objetivo é desafiar a ordem global e a hegemonia do dólar no comércio internacional.

Outro motivo importante do protagonismo do Brasil foi o de se tornar líder global na transição energética. Hoje, a matriz energética mundial é composta de fontes não renováveis, como carvão, petróleo e gás natural. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o uso das fontes de petróleo e seus derivados representa 30, 2%, o gás natural representa 23,1%, e o carvão mineral 27,6%. Essas são as três fontes mais poluidoras usadas no planeta. Já a matriz energética do Brasil é bem diferente e o coloca na vanguarda da substituição de combustíveis fósseis. No século XXI, nós começamos a usar mais fontes renováveis, como a hidráulica, a eólica, a solar e os derivados de cana, totalizando 50,0% da nossa matriz energética. As fontes não renováveis usadas atualmente são as maiores responsáveis pela emissão de gases do efeito estufa. Por esta razão, o Brasil tornou-se hoje um modelo na transição energética para o resto do mundo. É um exemplo a ser seguido.

No âmbito das políticas públicas e da justiça social, o Brasil também se tornou referência. Apesar da enorme desigualdade, o país tem feito grandes esforços para distribuir renda e tornar o país mais justo e igualitário. O grande foco é a transferência de renda por meio de políticas sociais redistributivas. O Bolsa família já se tronou o carro chefe dessas políticas. São destinados quase 160 bilhões de reais para o programa anualmente. O objetivo é o combate à fome e à pobreza extrema. Outra política importante é a valorização do salário-mínimo, que aumentou o poder de compra da população de baixa-renda. Também protegeu os aposentados da desvalorização de seus salários. No âmbito da educação foi criado o Pé de Meia, que beneficiou milhares de jovens a permanecerem na escola, combatendo a evasão escolar. A implementação de cotas nas universidades federais também tem ajudado na democratização ao ensino superior, ajudando a diminuir as desigualdades sociais.

No âmbito econômico, o governo petista é responsável por criar um sistema tributário progressivo, que cobra mais impostos para quem ganha mais e menos impostos para quem ganha menos. No presente ano, já se tornaram isentos do imposto de renda aqueles que ganham até cinco mil reais. Os que recebem até sete mil também pagarão menos imposto. No total perfazem quinze milhões de brasileiros beneficiados. As políticas redistributivas têm um grande impacto na vida de milhares de cidadãos. Elas são ferramentas de transformação e justiça social.

Da Proclamação da República sem povo aos dilemas neoliberais em nossa atualidade, os brasileiros continuam afastados das decisões políticas. As mesmas famílias poderosas que governaram o passado continuam a governar o nosso futuro. A mentalidade do Brasil colonial escravagista ainda assombra as nossas vidas. Como avaliou o historiador Sérgio Buarque de Holanda: “Estereotipada por longos anos de vida rural, a mentalidade da Casa Grande invadiu assim as cidades e conquistou todas as profissões, sem exclusão das mais humildes” (HOLANDA, 1995, p. 87). Se a República nasceu sem povo, o desafio do presente é levar esclarecimento e consciência as pessoas, para podermos superar o passado. A apatia e a bestialização não representam a essência nacional, mas são produzidas historicamente por interesses poderosos. Deixar de ser expectador da história, talvez seja, ainda hoje, a tarefa mais urgente da democracia brasileira.

Referências

CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.


Michel Aires – Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Michel Aires

Graduação em filosofia pela UNESP. Mestre em filosofia pela UFSCAR. Doutor em educação pela USP. Tem experiência nas áreas de Filosofia e Educação, com ênfase na Teoria Crítica, em particular, nos pensamentos de Herbert Marcuse e Theodor Adorno. Possui artigos publicados nas áreas de educação, filosofia e ciências sociais.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

2 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Gaspar Alencar

    11 de maio de 2026 8:54 am

    Aires, aí tá o ponto de mutação. Como disse Dalton Russell do filme o plano perfeito de Spike Lee. O como ?

  2. Guilherme Souto

    11 de maio de 2026 11:06 am

    Artigo muito bom, penso que poderia ter desenvolvido um pouco sobre o papel do positivismo.

Recomendados para você

Recomendados