A visita do velho senhor e a ameaça de Tucídides, por Fausto Godoy
A segunda visita de Estado que Donald Trump acaba de realizar a Pequim replicou os ingredientes formais da sua primeira visita, de novembro de 2017: Xi Jinping o brindou com um verdadeiro show de diplomacia, focado na hospitalidade formal e na valorização da imagem do convidado, que incluiu uma recepção com honras militares e um tour privado de quatro horas pela Cidade Proibida… Os que assistimos ao vídeo da parada militar na Praça da Paz Celestial ficamos impressionados com a demonstração de rigor, perfeição (… de poder???) do desfile na praça que tantos eventos testemunhou na história recente da China. Ela, por si só, é um cenário imponente! À parada seguiu-se uma manifestação de crianças empunhando bandeirolas que alguns críticos consideraram quase “kitsch”…
Trump esperava fechar acordos econômicos em uma série de setores como agricultura, aviação e inteligência artificial, e também queria avanços em questões geopolíticas, como a guerra no Oriente Médio contra o Irã. Entretanto, pouco transpirou até agora dos acordos alcançados, sobretudo na área de tecnologia, para justificar a participação da estofada comitiva oficial de cerca de vinte e três C.E.O´s de grandes empresas norte-americanas – entre eles Elon Musk (Tesla e SpaceX), Tim Cook (Apple) e Jensen Huang (Nvidia)- , que Donald Trump levou para discutir acordos de tecnologia, minerais estratégicos e disputa tarifária. No último dia da viagem, ele afirmou ter feito “acordos fantásticos” com Pequim, sem entrar em detalhes…
Evidentemente, em diplomacia, toda e qualquer ação embute mensagem. Para muitos analistas, pela forma da acolhida, a República Popular quis demonstrar com “pompa e circunstância” – herança das suas tradições multimilenares – que o “Império do Meio”/ Zhong Guo (中華) se entende como superpotência concorrente com os Estados Unidos pela liderança hegemônica do planeta. Foi o que Xi quis dizer quando mencionou que “o mundo inteiro acompanha a reunião entre os dois líderes em um momento de mudanças profundas no cenário internacional”. Conforme questionou: ”podemos enfrentar juntos os desafios globais e oferecer mais estabilidade ao mundo?”…
Para tanto, ele citou a chamada “armadilha de Tucídides”, ao questionar se China e Estados Unidos conseguirão criar um novo modelo de relações entre grandes potências. Esta expressão é usada para descrever o risco de guerra quando uma potência emergente desafia a potência dominante. Conforme sabemos, o termo se baseia numa observação do historiador grego Tucídides a respeito da Guerra do Peloponeso (431 a.C. – 404 a.C.). quando afirmou que o conflito entre Atenas e Esparta havia-se tornado inevitável devido à rápida ascensão do poder ateniense sobre Esparta, que até então dominava a região. Este conceito político descreve a tendência estrutural de conflito quando uma potência emergente ameaça suplantar a potência dominante. A teoria sugere que o medo e a desconfiança gerados por essa mudança de poder frequentemente desencadeiam guerras….
Esta foi a mensagem embutida nas palavras de Xi Jinping… serviu a carapuça?…
No âmago da questão está o destino de Taiwan. Xi disse a Trump que Taiwan é o tema mais importante na relação entre China e Estados Unidos. O presidente chinês afirmou que um erro na condução do assunto levaria a relação dos dois países para uma situação “muito perigosa”. Como afirmou o porta-voz do Waijiaobu (Ministério das Relações Exteriores), Guo Jiakun… “se a questão for tratada adequadamente, a relação bilateral será estável, no geral. Caso contrário, os dois países terão confrontos e até conflitos, colocando toda a relação em grande risco. A independência de Taiwan e a paz no estreito são tão inconciliáveis quanto fogo e água…O lado americano deve tratar a questão de Taiwan com máxima prudência”…
Será?…. O quanto disto é ameaça real e o quanto é retórica?…
Eu tive a oportunidade de servir tanto na nossa Embaixada em Pequim quanto no nosso Escritório Comercial em Taipé ao longo da minha carreira no Itamaraty. Gostaria de fazer algumas ponderações baseadas nas minhas vivências que, mesmo envelhecidas, ainda repercutem a(s) realidade(s), penso… Quando se refugiou em Taiwan, em 1949, o Kuomintang encontrou um universo devastado que os invasores japoneses haviam deixado, e uma economia agrária debilitada. Ele, então, decidiu “reinventar” a Ilha… Seus líderes fizeram uma reforma agrária, e concomitantemente decidiram apostar na indústria, sobretudo nas empresas de pequeno e médio porte, frente à constante sensação de instabilidade que a vizinhança do continente representava. Diante desta realidade, seus líderes buscaram explorar as vantagens comparativas que uma indústria nesse formato poderia propor… e as encontraram na fabricação de microchips de computador e nas indústrias eletrônicas de alta tecnologia, o que colocou a Ilha entre os países mais avançados tecnologicamente do mundo.
Assim, enquanto o Continente se engalfinhava nas comoções do “Grande Salto Adiante” e da Revolução Cultural de Mao Zedong, a Ilha prosperava. Muito embora do ponto-de-vista civilizacional todos se considerem de etnia chinesa, com o sucesso alcançado por este paradigma um forte sentimento consolidou-se no seio da população ilheia no sentido de renegar, não a “chinesidade” ancestral, mas a diferença dos universos político-econômicos. Fruto disto, as gerações mais jovens passaram a se sentir – e se sentem cada vez mais – “taiwanesas” e não “chinesas/continentais”.
Só que… o Continente, após a morte de Mao, em 1976, decidiu também se reinventar, sob a batuta de Deng Xiaoping, e através da política de “reforma e abertura”, lançada por ele em 1978, mudou radicalmente de perfil e inseriu-se com avidez no comércio internacional (como notamos ainda hoje no comércio da 25 de Março…). Ademais, está dando um grande salto na área de tecnologia desde que em 2015 selecionou pelo plano “Made in China 2025” os dez setores de tecnologia de ponta que orientarão o seu desenvolvimento e que já a estão catapultando à liderança também nesta área, mudando radicalmente o seu perfil. A China é hoje uma potência tecnológica!
Fruto disto ela tem hoje o segundo maior PIB do planeta, segundo o FMI, e já é a maior economia em termos de paridade de poder de compra, ameaçando (se é que ainda o faz…) a hegemonia dos americanos… Um dos motores deste desenvolvimento impressionante são as Zonas Econômicas Especiais/ ZPE´s que Deng criou e espalhou sobretudo pela região sul da China, abrindo depois de séculos o país ao exterior. As mais importantes se confrontam com a Ilha. Estas zonas passaram a atrair a atenção dos empresários taiwaneses, que para contornar os custos de produção cada vez mais elevados em Taiwan passaram a instalar suas fábricas no Continente. A ponto de que hoje o principal parceiro comercial de Taiwan é a China !…o Continente, que já era o principal parceiro comercial de Taiwan desde 2005 – quando representava 17% de seus fluxos comerciais – passou a responder a partir de 2022 por 25% das exportações da Ilha, e 20% de suas importações. Ou seja, uma interdependência real, que se contrapõe ao discurso separatista…
Como se vê, esta é uma questão que os chineses – ilhéus e continentais – terão de decidir por si mesmos, seguindo seus códigos próprios. O Ocidente não tem como transplantar seus valores e se imiscuir numa questão complexa cuja compreensão, no fundo, lhe escapa. Os americanos se servem do “Taiwan Relations Act”, de 10 de abril de 1979, quando transferiram o reconhecimento do país de Taipé para Pequim, pelo qual Washington mantém laços não-oficiais (“unofficial ties”) com Taipé, o que estrutura os laços econômicos, culturais e de segurança com a Ilha.
É através dele que os EUA se comprometeram com a sua defesa em caso de ataque dos continentais. E este é o X da questão…Premido por este compromisso – e certamente por parte da opinião pública americana – Donald Trump poderia ver-se compelido, em sua vaidade, a tomar uma atitude mais drástica…só que este é o único tema que levaria a RPC a lançar mão de medidas extremas!! Esta é a mensagem que Donald Trump levou de volta…
Melhor será não brincar com fogo…
To be continued…
Fausto Godoy, Serviu nas Embaixadas do Brasil em Bruxelas (1978); Buenos Aires, (1980); Nova Delhi (1984); Washington (1992) e Tóquio (2001). Foi designado Embaixador junto aos governos do Paquistão (2004) e Afeganistão (2005). Serviu posteriormente em Hanoi (2007); Consulado do Brasil em Tóquio; Escritório Comercial do Brasil em Taipé; e nas Embaixadas do Brasil em Bagdá (sediada em Amã), Daca, Astana e Yangon. Foi Cônsul-Geral do Brasil em Mumbai (2009). Aposentou-se do Serviço Exterior Brasileiro em 2015. Doou sua coleção de arte e etnologia asiáticas (com cerca de 3.000 peças), ao Museu Oscar Niemeyer, de Curitiba. Esta coleção constitui a primeira ala asiática em um museu brasileiro. É membro da Diretoria da Câmara de Comércio Brasil-Índia. É coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Asiáticos na ESPM.
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Fábio de Oliveira Ribeiro
19 de maio de 2026 8:03 amEnquadrar um conflito nuclear com potencial para destruir as duas potências envolvidas (e matar muita gente contaminada por radiação nos demais países) com base num conceito do século V aC é uma verdadeira estupidez. Algo digno dos especialistas militares dos EUA que escrevem livros para ganhar dinheiro e espalhar conceitos idiotas.
O objetivo de Esparta na guerra do Peloponeso não era o extermínio de Atenas, mas a destruição do poder militar do adversário que cresceu assustadoramente em razão das vantagens econômicas obtidas pelos atenienses após o fim da II Guerra Medica. Ademais, não muito depois de derrotar Atenas, e de supervisionar a destruição das muralhas da cidade e de sua frota militar, os espartanos foram derrotados por Tebas. Entretanto, a hegemonia tebana foi logo esmagada por Felipe, o caolho, da Macedônia.
Se EUA e China entrarem em guerra o conflito será inevitavelmente nuclear. Que potência irá emergir após ambos estarem destruídos e o mundo todo contaminado por radiação?
O medo que os espartanos tinham dos atenienses levou à guerra do Peloponeso, cujo resultado a longo prazo foi a destruição da autonomia política tanto de Atenas quanto de Esparta. O medo que os norte-americanos sentem agora dos chineses pode eventualmente provocar uma guerra, mas o resultado dela será qualitativamente diferente do da Guerra do Peloponeso. Não existe vitória numa guerra nuclear. Não existe proveito a ser tirado dela por vitoriosos porque todos serão derrotados, até mesmo aqueles que ficarem neutros serão condenados a uma morte lenta por radiação, pela fome ou por ambos.