20 de maio de 2026

Caso Master reforça rede internacional de mentiras da extrema direita, por Eliara Santana

As "relações perigosas" da família Bolsonaro com Vorcaro revelam realidade trágica para democracia brasileira
Reprodução - Unsplash

Escândalo do Banco Master revela que recursos foram para fundo ligado a advogado de Eduardo Bolsonaro, não para filme.
Brasil é vitrine global de desinformação desde 2019, com destaque em produção e disseminação de fake news eleitorais.
Família Bolsonaro mantém forte ligação com líderes religiosos conservadores nos EUA para articular projeto ultraconservador.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

do PT Nacional

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Coluna Hora da Verdade

Caso Master reforça rede internacional de mentiras da extrema direita

por Eliara Santana

O escândalo do Banco Master e as relações perigosas com a família Bolsonaro ganharam contornos mais escandalosos após nova reportagem do Intercept Brasil informando que o dinheiro dado por Daniel Vorcaro a Flávio não havia ido para o filme, mas sim para um fundo gestor administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro e que o grande administrador era, na verdade, o próprio deputado cassado, foragido nos EUA. Desde então, explodiram memes e piadas dizendo que os filhos de Bolsonaro conseguiram enganar até um banqueiro preso por corrupção.

Todas as especulações são importantes, e os memes são bem engraçados – não fosse essa realidade trágica para a saúde democrática. Mas as pulgas atrás da orelha ficaram ouriçadas demais com fios soltos, conexões e alguns aspectos que acabam passando despercebidos.

Desde 2018, jamais se pode menosprezar o potencial perigoso dessa família. Façamos o exercício da ligação de alguns pontinhos:

Primeiro ponto: há uma articulação da extrema direita no mundo que usa pautas conservadoras, a defesa de valores e o nome de Deus para camuflar o interesse pela disputa política e pelo estabelecimento de um projeto de poder ultraconservador. Esse movimento, fortalecido pelo nacionalismo cristão dos EUA, que blindou Donald Trump e garantiu também sua eleição, nos Estados Unidos, tem os dois olhos voltados para o Brasil. Essa articulação envolve atores políticos, estrategistas que atuam em vários países e têm cartilhas muito orientadoras (como Olavo de Carvalho e Steve Bannon), diversas estratégias de mobilização e criação de mentiras (como campanhas coordenadas de desinformação, campanhas de ódio contra determinadas personalidades, firehose), uso de ferramentas de ponta como IA e disseminação multiplataforma de suas criações. 

Segundo ponto: com a instauração do Gabinete do Ódio em 2019, o Brasil se tornou uma vitrine de desinformação para o mundo, gostemos ou não dessa realidade. É um case muito bem-sucedido de produção e disseminação de narrativas mentirosas, discurso de ódio, estratégias de destruição de reputações, narrativas distópicas, um verdadeiro laboratório de realidade paralela. No Consórcio Internacional de Países Produtores de Fake News, o Brasil tem assento cativo e posição de destaque. Exatamente por isso, as eleições brasileiras excitam as nações talvez mais do que a Copa do Mundo. Só para lembrar um dado nesse cenário: segundo a pesquisa “O Ambiente da desinformação em torno das eleições”, desenvolvido pelo International Institute for Democracy Electoral Assistance (IDEA) e publicado no final de 2022, que fez uma abordagem relativa aos impactos da desinformação nos processos eleitorais, o Brasil só perde para a Índia em termos de desinformação eleitoral.

Terceiro ponto: a família Bolsonaro mantém muito viva a interlocução com religiosos cristãos e movimentos conservadores fora do Brasil, sobretudo nos EUA, e marca forte presença na constituição dessa articulação internacional da extrema direita. Em fevereiro de 2023, Jair Bolsonaro teve um encontro com integrantes  da Universidade Cristã da Flórida (FCU) e com lideranças religiosas da comunidade brasileira. Na pauta, valores conservadores, valores cristãos e… o futuro da direita no mundo.

Eduardo Bolsonaro e Jair Bolsonaro. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Eduardo Bolsonaro, por sua vez, manteve sempre uma fina articulação com líderes religiosos ultraconservadores nos EUA e em outros países. Desde 2023, ele participa de muitos eventos nesse escopo, além de cultos como orador. Em Orlando está localizada a igreja Lagoinha Orlando Church, que se dedica aos brasileiros no exterior e é liderada pelo pastor  André Valadão – amigo de Daniel Vorcaro e líder da Igreja batista da Lagoinha. A pauta de Eduardo, nesse espaço religioso vai da guerra cultural a falas sobre valores cristãos e moral conservadora, passando, claro, pela política brasileira, quando ele recebe apoio para tramar contra o país.

Em janeiro de 2022, segundo reportagem de Guilherme Amado no Metrópoles, Eduardo foi convidado por André Valadão a falar na Orlando Church. A igreja já havia recebido o foragido Allan dos Santos, que continua nos EUA arquitetando contra a democracia brasileira. O convite a Eduardo foi feito como preparação para “os tempos de guerra” que viriam, no dizer do pastor Brasil.

Após o segundo turno das eleições daquele ano, segundo reportagem da Agência Pública, Eduardo manteve uma agitada agenda de viagens internacionais e encontros com estrategistas e representantes de plataformas para garantir a narrativa de que as eleições haviam sido fraudadas, levada aos quatro ventos pela hashtag “Brazil was stolen”. Nos EUA, informou a reportagem, ele se reuniu com o então ex-presidente Donald Trump, conversou com o estrategista Steve Bannon e almoçou com o antigo porta-voz de Trump, Jason Miller, fundador da rede social Gettr.  

Quarto ponto: esse mix valores conservadores + suposta pregação do Evangelho + defesa dos valores cristãos + religião + prática política é muito bem trabalhado por aqui. Um exemplo é o livro de Nikolas Ferreira, “O cristão e a política” (por favor, não leiam rsrs), em que ele afirma que o cristão deve sim ocupar seu lugar na política porque, se não o fizer, o capeta ocupa. Fica o recado. As articulações feitas não são apenas por afinidade religiosa e com vistas a garantir a observação de valores pelos candidatos. Isso é o que se vende. Na verdade, trata-se de um projeto de poder que passa pelo combo desinformação + religião + política + financiamento.  

 Talvez mais adiante, com o avanço das investigações sobre o escândalo revelado recentemente, vamos descobrir que o filme sobre Jair Bolsonaro foi usado não apenas como um carinho de filhinho para papai ou para manter Eduardo Bolsonaro nos EUA tramando contra o Brasil e as instituições brasileiras.

O filme, quem sabe, foi uma peça para garantir os recursos iniciais para um Gabinete do Ódio Made in USA. Poderoso e capaz de garantir uma sobrevivência decente e atuante da família Bolsonaro, vinculada a essa articulação internacional de extrema direita.

O que garantiria também a exportação do modelo brasileiro de desinformação para outros horizontes.  

Eliara Santana – Jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica,  Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Eliara Santana

Eliara Santana é jornalista, doutora em Linguística e Língua Portuguesa, com foco em Análise do Discurso. Ela é pesquisadora do Observatório das Eleições e integra o Núcleo de Estudos Avançados de Linguagens, da Universidade Federal do Rio Grande. Coordena o programa Desinformação & Política. Também Desenvolve pesquisa sobre desinformação, desinfodemia e letramento midiático no Brasil.

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2 Comentários
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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    20 de maio de 2026 8:33 am

    Um dos momentos mais enigmáticos da história recente do Brasil ocorreu no STF durante uma das audiências da Ação Penal n. 2.668. Jair Bolsonaro pede para falar e supreende todo mundo ao convidar Alexandre de Moraes para ser vice dele em 2026. O Ministro do STF sorri e rejeita o convite.
    O escandalo do Master forneceu a chave para decifrarmos o incidente. Seu Jair, cujos filhos extorquiram dezenas de milhões de Vorcaro, provavelmente sabia que a esposa de Alexandre de Moraes prestou serviços para o Banco Master.
    “Somos manos, Alexandre”. No fundo foi isso que Bolsonaro disse.
    https://www.youtube.com/watch?v=RKHjdgVnYvg

  2. Eduardo Ramos

    20 de maio de 2026 1:13 pm

    Perfeito seu artigo! É a manutenção desse mundo-matrix onde impera a liderança dos cínicos sobre seus fanáticos seguidores, num reino onde a dissonância cognitiva impera soberana sobre os pobres zumbis guiados como gado desumano.

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