4 de junho de 2026

O Bolsonarismo como sintoma da cultura de massa, por Michel Aires

O discurso fascista não conquista as pessoas apenas pela razão, mas pela emoção. Fascistas sempre usam as mesmas técnicas em seus discursos.
Crédito: Lucas Martins (@lucasport01 )

O bolsonarismo no Brasil apoia políticas neoliberais que prejudicam a classe trabalhadora e enfraquecem o Estado.
A indústria cultural padronizada contribui para a manipulação e regressão intelectual dos bolsonaristas.
O fascismo mobiliza emoções como medo e ressentimento, surgindo em crises econômicas e sociais profundas.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

O Bolsonarismo como sintoma da cultura de massa

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Michel Aires de Souza Dias

O que nos surpreende no Brasil é como o Bolsonarismo consegue o apoio de milhões de pessoas para objetivos altamente incompatíveis com seus próprios interesses. O projeto político da extrema-direita se assenta em políticas neoliberais extremamente danosas à classe trabalhadora. Ao contrário do que seus eleitores acreditam, o bolsonarismo não é antissistema, ele é o sistema. Está a serviço da tecnoburocracia capitalista para o enfraquecimento do Estado, drenando os recursos públicos para a iniciativa privado.  Nesse sentido suas ações estão voltadas para a desregulamentação da economia e das leis trabalhistas. Acabar com os direitos trabalhistas, com o Sistema Único de Saúde (SUS), com as universidades públicas e com as políticas sociais redistributivas faz parte de seu ideário. Seu compromisso é com a defesa intransigente do lucro, da liberdade econômica e do Estado Mínimo.

O bolsonarista representa hoje o produto mais acabado da cultura de massa. Os indivíduos que consomem os produtos padronizados da indústria cultural, como novelas, filmes, reality shows, programas gospel e jogos de futebol são facilmente manipulados pela propaganda fascista. A indústria cultural a partir de seus conteúdos estandardizados regride o espírito a um estado de indigência intelectual, tornando o indivíduo incapaz de esclarecimento e autoconsciência. Ela impede as pessoas de compreenderem a sua existência e as suas circunstâncias do ponto de vista histórico, social, cultural, político e econômico. Ao estudar a propaganda fascista nos Estados Unidos, na década de 1940, o filósofo alemão Theodor Adorno (2015, p. 184) chegou à conclusão de que: “Pode muito bem ser o segredo da propaganda fascista que ela simplesmente tome os homens pelo que eles são: verdadeiros filhos da cultura de massa padronizada de hoje, em grande parte subtraídos de sua autonomia e espontaneidade”.

Com o advento da indústria cultural no início do século XX, a realidade se tornou mediada pelas imagens, A realidade foi adulterada e construída como engenharia social, adquirindo um grande poder ideológico sobre as massas, em benefício dos interesses de classe. Devido aos seus conteúdos padronizados, hoje nós vivemos na era da pós-verdade. As pessoas não têm mais acesso a experiência do real.  O real surge como uma construção imagética, a realidade é interpretada por meio de informações manipuladas, pelo aparato técnico. Ao contrário dos primórdios da sociedade moderna, em que a cultura humanística e científica eram instrumentos para a reflexão e compreensão da realidade, a partir do século XX, a nova era reforçou a lealdades às imagens. O real se tornou representação. As crenças e convicções se tornaram mais poderosas do que a verdade factual. Como bem avaliou a filósofa Susan Sontag (1981, p. 161): “Uma sociedade se torna moderna quando uma de suas atividades principais consiste em produzir e consumir imagens, quando imagens que têm poderes excepcionais para determinar nossas necessidades em relação à realidade e são, ela mesmas, cobiçados substitutos da experiência em primeira mão se tornam indispensáveis para a saúde da economia, para a estabilidade do corpo social e para a busca da felicidade privada”

No livro “A essência do Cristianismo” (1841), o filósofo alemão Feuerbach já havia observado o papel das imagens religiosas no processo de alienação dos indivíduos. O livro já mostrava que a catarse e a epifania religiosa já haviam substituído as verdades descobertas pelo conhecimento científico, no século XIX. Naquela época ele afirmou que: “Nosso tempo, sem dúvida prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser”. Essas palavras já pressentiam o que viria no século XX. As imagens adquirem um grande poder com o advento dos meios de comunicação de massa, uma vez que substituem a realidade, como interpretação manipulada do real. 

 Os indivíduos que consomem os produtos estandardizados da indústria cultural têm como corolário a regressão intelectual e da sensibilidade, que os impedem de distinguir o que é real do que é imaginário, o que é fato do que é fakenews. Devido a uma cultura massificada, os Bolsonaristas tornam-se incapazes de compreender o mundo a sua volta, de compreender a sua existência e as relações de poder que o subjugam. Por possuírem um baixo nível de formação cultural (Bildung), eles se tornam alvos de interesses poderosos, uma vez que são mais facilmente cooptados pela propaganda fascista.

Do ponto de vista psicológico, os bolsonaristas são antes de tudo indivíduos ressentidos com a sociedade. As promessas sociais são para eles promessas traídas. Por algum motivo eles não realizaram seus desejos de riqueza, poder, posse, beleza e grandeza, típicas de uma sociedade heterônoma. Em uma cultura que promete, mas não cumpre suas promessas, o ressentimento e a agressividade surgem como consequências de um mundo que condena os homens à permanente insatisfação. A divisão da sociedade entre aqueles que pensam e aqueles que trabalham, entre os que comandam e aqueles que obedecem, entre uma minoria rica e uma maioria pobre, condena a maior parte da população à frustração. Em razão disso, o conformismo, a ausência de reflexão, a falta de compreensão da realidade produz sujeitos enfraquecidos e ressentidos que buscam na dimensão do poder uma forma de compensar sua fraqueza.

O discurso fascista não conquista as pessoas apenas pela razão, mas pela emoção. Os fascistas sempre usam as mesmas técnicas em seus discursos, geralmente de cunho moral.  O demagogo mobiliza o medo, o ressentimento, a frustração, o desejo de pertencimento, a crença religiosa e a necessidade de um líder forte. É por esta razão que o fascismo surge em épocas de grande crise econômica. As pessoas ficam assustadas quando surge uma grande crise financeira, quando há uma grande massa de desempregados, quando correm o risco de perder seu status ou quando há grandes mudanças sociais. Há sempre um culpado por suas frustrações, pode ser o comunista, o imigrantes, os homossexuais, os nordestinos ou uma política social como o Bolsa família. O discurso sempre oferece um inimigo identificável para a angústia do fascista que, na realidade, tem causas muito mais complexas.

O fascismo é resultado de uma sociedade que transforma os indivíduos em objetos, em mercadorias, em seres impotentes, enfraquecidos pelas condições sociais da realidade opressiva. Todo indivíduo, sem exceção, é sujeitado como parte da maquinaria social, sendo impedido de desenvolver sua individualidade. É, portanto, por meio dessa grande repressão e opressão social que a agressividade e a violência surgem como partes da nossa cultura. O que experimentamos hoje é o enfraquecimento psicológico dos indivíduos, que se tornam impotentes diante do aparato tecnológico do mundo industrial capitalista. Esse enfraquecimento fomenta as tendências fascistas na sociedade que temos visto em pleno século XXI.

Referências

Adorno, Theodor W. “Teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista”. In: Adorno, Theodor W. Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. São Paulo: Unesp, 2015, pp.153-189.

Feuerbach, L.  A essência do cristianismo. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1994.

Sontag, Susan. Ensaios sobre a Fotografia. Rio de Janeiro: Arbor, 1981


Michel Aires de Souza Dias – Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP)

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Michel Aires

Graduação em filosofia pela UNESP. Mestre em filosofia pela UFSCAR. Doutor em educação pela USP. Tem experiência nas áreas de Filosofia e Educação, com ênfase na Teoria Crítica, em particular, nos pensamentos de Herbert Marcuse e Theodor Adorno. Possui artigos publicados nas áreas de educação, filosofia e ciências sociais.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados