Dez anos de agonia
O golpe da Lava Jato ocorreu em duas etapas: o impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Lula. Ambos os episódios tiveram aparência legalista, mas isso é irrelevante. A ditadura militar também começou com rituais parlamentares e o aval do STF.
Assim como na alegada vacância do cargo de João Goulart, o pretexto para depor Dilma era falso e, portanto, gerou um ato ilegal. A prerrogativa do juízo político não dispensa bases probatórias mínimas, tampouco a isenção e a lisura dos julgadores.
O grotesco festival obscurantista das votações, infestadas de corruptos notórios, ilustra a “legitimidade” do processo. E a canetada de Gilmar Mendes, que impediu Lula de atuar no governo, pautou-se pelos ilícitos de Sérgio Moro, outra figura “legítima” de então.
Na falta de argumentos razoáveis para justificar o impeachment, seus defensores lançam as cínicas desculpas da rejeição popular e do fracasso administrativo. Em suma, culpam a vítima. Ela “mereceu” ser derrubada por uma conspiração de canalhas e traidores.
A mídia empresarial não usaria essas bengalas meritórias contra a péssima e impopular gestão Michel Temer. Decerto porque sua agenda antidemocrática, urdida em acordos obscuros com o “direitão”, incluiu a ruína dos sindicatos e das proteções trabalhistas.
No calor dos acontecimentos, quando era impossível antever seu rumo, o impeachment exibiu preparo, execução e discurso de golpe. Em retrospecto, contudo, parece a etapa inicial, talvez pensada para ser única, de algo que veio a assumir dimensões maiores.
Nada supera o governo ilegítimo de Jair Bolsonaro (pois ilegítima a obstrução do candidato que podia vencê-lo) no currículo do golpismo lavajatista. Mas o impeachment facilitou a tarefa de várias maneiras, no mínimo demonstrando sua viabilidade.
Uma dessas ajudas foi aglutinar os vetores fascistas que já se insinuavam em junho de 2013. A origem do bolsonarismo remete às vaias contra Dilma na abertura da Copa, ao pato amarelo da Fiesp e à iconografia patriótica das manifestações pelo impeachment.
O episódio tornou a governabilidade um trauma incurável do campo progressista. Dilma passou a simbolizar, para alguns, e de maneira redutora, o perigo da firmeza excessiva de princípios. Outros a tomam como evidência dos próprios limites do tal “lulismo”.
Ambas as leituras ignoram a amplitude dos conluios institucionais que engendraram o impeachment. Não há governabilidade que impeça o arbítrio judicial, e este, com o beneplácito do STF e massiva propaganda midiática, aniquila qualquer arranjo político.
Vemos hoje que o ardil maligno espera apenas uma faísca oportuna para ressuscitar. Nesse tênue equilíbrio de forças, as eleições legislativas ganham peso estratégico, até superior à da presidencial. Enfraquecer o “direitão” é imperativo democrático urgente.
A permanência do espírito golpista deve muito à normalização do impeachment e da Lava Jato. Aí se revela a natureza do jornalismo peçonhento, que setores da esquerda insistem em prestigiar. Não tem sido por falta de aviso, desde antes de 2016.
Guilherme Scalzilli – Historiador, escritor, jornalista e cineasta. Mestre em Divulgação Científica e Cultural, doutor em Meios e Processos Audiovisuais. Articulista da revista Caros Amigos por dez anos (2001-2011). Colabora regularmente com o Le Monde Diplomatique, o Observatório da Imprensa e outros veículos.
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