Em julho de 2010 eram apresentadas no Sesc Pinheiros as composições que viriam fazer parte do álbum Inverno (Selo Sesc, 2013), de Nenê Trio. O Selo Sesc lança agora o registro desse show no Sessões Selo Sesc #18: Nenê Trio (ao vivo no Sesc Pinheiros 28.7.2010), já disponível nas principais plataformas de áudio .
Desde 2001 Realcino Lima Filho, vulgo Nenê, toca o Nenê Trio, cuja formação, à época da gravação, contava com Nenê, na bateria, Alberto Luccas, no contrabaixo e Irio Júnior, ao piano, que atualmente é executado por Edson Sant’Anna. No show de 2010 o trio performou quatro faixas que unem a inovação polirrítmica característica do grupo a ritmos tradicionais brasileiros.“Foi uma agradável surpresa, fiquei muito feliz de voltar a escutar a gravação ao vivo deste show. Uma sensação de gratidão muito grande aos músicos Alberto Luccas e Irio Júnior pela beleza da música que fizemos juntos”, comenta Nenê.
Em 2010, quando o show foi gravado, Nenê Trio passava por uma transição estilística, debruçando-se na exploração rítmica intensa, o que se mantém até hoje no grupo. O repertório, todo composto por Nenê, foi pensado para o início dessa fase do trio. “Foi uma mudança na forma de execução das músicas, mais polirrítmica e com muita improvisação coletiva. A composição não fica fixada no arranjo, permitindo que a escrita seja apenas um ponto de partida para uma criação livre, que até hoje gosto de fazer e procuro aprimorar. Acho que essa abordagem ainda permanece no trio”, discorre Nenê.
“Naquele momento ensaiávamos semanalmente. Estávamos nos apresentando bastante e muito afiados, do jeito que tem que ser e soa na gravação, um trio de uma pessoa só tocando. O Nenê Trio sempre teve esta característica da energia lá no alto, e sei que sempre será assim”, conta o contrabaixista Alberto Luccas.
Inverno, abrindo o álbum, é uma balada. Nenê conta que é um baterista que não gosta de tocar rápido. “Eu gosto de tocá-las pela sensação de espaço que isso proporciona. E você pode tocar tudo o que quiser quando tiver espaço: frases lentas ou rápidas, curtas ou longas, etc”, compartilha.
Já Eu acho que você devia comprar o contrabaixo, faixa inédita presente neste Sessões, surgiu de uma homenagem bem-humorada de Nenê a Alberto.
“Ele é um sujeito que gosta de carros antigos e na época estava em dúvida se comprava uma Caravan ou um contrabaixo novo. Na ocasião, ele me perguntou o que fazer, e eu respondi com essa música. Não adiantou nada, porque ele acabou comprando a Caravan, que tem até hoje (risos)”, conta o músico.
A terceira composição do disco é Qui Jaiss traz rapidez numa linguagem jazzística. O título faz um jogo sonoro com a expressão “que jazz!”, que virou uma brincadeira entre os músicos quando tudo sai como previsto. “Como o trio gosta de se desafiar, o nome veio a calhar”, afirma.
Fechando o disco, Jongo II, da fase bem brasileira de Nenê em que explora tal ritmo, inspirado na época em que tocou com Hermeto Pascoal. O artista, no entanto, tentou manter-se mais na referência do que na influência:
“Procurei fugir um pouco da maneira que o Hermeto tocava, porque sempre acabei seguindo numa direção muito pessoal. Às vezes bateristas são lembrados por terem tocado com esse ou aquele artista, mas eu me considero antes de tudo um músico que toca com a música”, fecha Nenê.
FAIXAS
1 – Inverno (Nenê)
2 – Eu acho que você devia comprar o contrabaixo (Nenê)
3 – Qui jaiss (Nenê)
4 – Jongo II (Nenê)
FICHA TÉCNICA
Alberto Luccas – contrabaixo
Irio Júnior – piano
Nenê – bateria
Gravado no Teatro do Sesc Pinheiros em 28 de julho de 2010.
Mixagem: Alberto Ranelucci
Masterização: Carlos Ezequiel
Produção: Carlos Ezequiel/Engrenagens Produções
Projeto gráfico: Alexandre Calderero
SOBRE NENÊ TRIO
Realcino Lima Filho, mais conhecido como Nenê, é um dos mais experientes músicos brasileiros em atividade. Seus 50 anos de carreira incluem atuações como baterista em discos históricos de artistas como Hermeto Pascoal, Elis Regina e Egberto Gismonti, além de uma extensa trajetória como compositor à frente do Nenê Trio.
Natural de Porto Alegre, Nenê mudou-se para São Paulo em 1966, e logo entrou para o histórico Quarteto Novo. Em seguida, tocou com Elis Regina no disco “Falso Brilhante”, com Milton Nascimento em “Clube da Esquina 2”, e com Hermeto Pascoal nos discos “Zabumbê-Bum-A” e “Ao Vivo em Montreux”, além de participar do Festival Live Under The Sky (Japão). Em 1980, entrou para o grupo de Egberto Gismonti, atuando nas turnês mundiais dos discos “Em Família” e “Sanfona”. Em 1982, muda-se para Paris e lança o primeiro disco da carreira solo, “Bugre”, considerado pela crítica francesa um dos 10 melhores lançamentos do ano. Continua atuando com Egberto Gismonti e com jazzistas como Kenny Wheeler, Charlie Haden e Steve Lacy, entre outros. Retorna ao Brasil em 1995 e após liderar grupos em formações diferentes, começa o Nenê Trio em 2001. Desde então o grupo foi destaque em eventos como o Projeto Pixinguinha, o Amazonas Jazz Festival, Festival Choro Jazz de Jericoacoara, Festival de Itajaí, Festival de Curitiba, Goyaz Jazz Festival, entre outros.
Atualmente contando com Edson Sant’Anna (piano) e Alberto Luccas (contrabaixo), o Nenê Trio é conhecido por alternar virtuosismo, momentos intimistas e improvisos de intensa energia. O repertório do grupo explora a composição refinada de Nenê e a Improvisação coletiva.
A música de Nenê tem uma sonoridade única, marcada por uma especial adaptação de elementos polirrítmicos aos ritmos tradicionais brasileiros, bem como por harmonias e melodias sofisticadas.

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