13 de junho de 2026

Árbitros, atletas e torcedores barrados: como a política de imigração dos EUA está manchando a Copa do Mundo

EUA estão passando por um retrocesso democrático e alguns torcedores têm medo de ir assistir aos jogos e serem detidos e deportados pelo ICE
Crédito: Divulgação

▸ Copa do Mundo 2026 terá 48 seleções e 104 jogos em EUA, Canadá e México, mas política de imigração dos EUA gera controvérsias.

▸ Árbitro somali Omar Artan teve entrada negada nos EUA; torcedores e atletas enfrentam restrições e revistas rigorosas.

▸ Fifa esperava torneio inclusivo, mas críticas a políticas dos EUA e clima de exclusão ameaçam imagem do evento.

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do The Conversation

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Árbitros, atletas e torcedores barrados: como a política de imigração dos EUA está manchando a Copa do Mundo

por Simon Adams*

Esta deveria ser a mais espetacular Copa do Mundo da história. Há mais seleções (48), mais países anfitriões (três) e mais partidas (104) do que nunca. Durante 39 gloriosos dias, bilhões de pessoas em todo o mundo ficarão grudadas em telas assistindo aos jogos.

A Fifa estima que o evento poderá gerar até US$ 30,5 bilhões (cerca de R$ 160 bilhões) em receita turística para os Estados Unidos, Canadá e México – os três países anfitriões.

Mas grande parte do brilho do torneio está sendo ofuscado por eventos longe dos campos de jogo.

A Fifa, os EUA e os direitos humanos

Esta é a primeira Copa do Mundo em que a Fifa incorporou requisitos de direitos humanos ao processo de candidatura e organização.

O problema é que 78 das 104 partidas do torneio serão disputadas nos EUA, onde segundo muitos críticos – incluindo a Anistia Internacional –, a xenofobia e a crueldade ostensiva têm orientado a política de imigração desde que Donald Trump voltou à Casa Branca.

A organização Human Rights Watch informou que, de janeiro de 2025 a março de 2026, o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês) prendeu 167.000 pessoas nas 11 cidades dos EUA que sediarão partidas.

Há dois meses, a Anistia Internacional e mais de 100 organizações locais de direitos humanos emitiram um alerta explícito de viagem para torcedores, jogadores e dirigentes que planejam visitar os EUA durante a Copa do Mundo.

Os visitantes foram alertados sobre “discriminação racial” na fronteira, revistas invasivas e outras violações das “obrigações dos Estados Unidos em matéria de direitos humanos, nos termos da legislação nacional e internacional”.

Talvez não seja surpresa que uma recente pesquisa com 200 hotéis das cidades-sede tenha revelado que as reservas de turistas estavam muito abaixo do esperado.

E a situação pode estar prestes a piorar.

Controvérsias antes da Copa do Mundo

O principal árbitro da África, Omar Artan, da Somália, estava escalado para arbitrar várias partidas da Copa do Mundo. Mas apesar de ter passaporte e visto válidos, Artan teve sua entrada nos EUA negada quando chegou a Miami no último sábado, e agora perderá o torneio.

Autoridades americanas alegaram “preocupações com a verificação de antecedentes”, mas não há precedente de um árbitro oficial da Fifa ter sua entrada negada em um país anfitrião da Copa do Mundo – incluindo a Itália fascista em 1934 ou a Argentina em 1978 sob governo de uma junta militar.

Há um precedentes, no entanto, de Trump descrever a Somália como um “país nojento” e alegar que os imigrantes somalis são “lixo” que “não contribuem com nada” para os EUA.

Cerca de um quarto dos países que disputam a Copa do Mundo deste ano enfrentam algum tipo de proibição de viagem ou restrição rigorosa de vistos de entrada nos EUA sob o governo Trump.

Mesmo jogadores e treinadores a quem é concedida a entrada podem enfrentar um escrutínio incomum.

No início desta semana, as seleções do Senegal e do Uzbequistão foram submetidas a revistas severas e humilhantes pela segurança do aeroporto.

Mas houve uma tentativa da federação de futebol do Senegal de acalmar as tensões depois que muitas pessoas nas redes sociais acusaram autoridades americanas de racismo.

Enquanto isso, um conflito de relações públicas entre o Irã e os EUA – que continuam em guerra – está se intensificando, com autoridades do futebol iraniano acusando os EUA de “obstrucionismo” em relação às restrições de viagem impostas aos seus jogadores, bem como de “malícia e falta de igualdade entre as equipes”.

Em resposta, uma autoridade norte-americana afirmou que o Irã poderia usar a Copa do Mundo como uma oportunidade “para infiltrar terroristas nos Estados Unidos”.

A Fifa tinha grandes esperanças

Os dois torneios da Copa do Mundo anteriores – Rússia em 2018, Catar em 2022 – foram ambos marcados por controvérsias: o da Rússia devido ao autoritarismo de Vladimir Putin, bem como ao seu apoio militar à ditadura da Síria durante a sangrenta guerra civil daquele país; e a do Catar devido à suposta exploração dos trabalhadores estrangeiros que construíram seus estádios deslumbrantes.

O futebol continuou fantástico, mas a Política de Direitos Humanos da Fifa foi supostamente introduzida para amenizar as crescentes preocupações com o “sportswashing por parte dos países anfitriões da Copa do Mundo.

Este ano deveria ser diferente.

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, disse que seria “a maior, a mais inclusiva e a melhor Copa do Mundo da Fifa de todos os tempos”.

Em vez disso, Canadá e México agora se veem cossediando o evento com um país que está passando por um retrocesso democrático e onde alguns torcedores têm medo de assistir aos jogos por receio de serem detidos e deportados pelo ICE.

Uma imagem manchada?

Em vez de unir as pessoas, a Copa do Mundo de 2026 corre o risco de ser lembrada pelo clima de exclusão e medo gerado por um de seus anfitriões.

Esse espetáculo repugnante é algo que nenhum esporte deveria tolerar.

Simon Adams é Professor de Direitos Humnas, da Murdoch University

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