O colapso pelo excesso: a “hipertelia” da comunicação da extrema direita
por Wilson Roberto Vieira Ferreira
A extrema direita digital pode estar morrendo pela boca de seus próprios algoritmos. No início de mais uma corrida eleitoral, analistas repetem o pavor burocrático diante do “apocalipse da IA” e das fake news, sem notar que o sistema de desinformação da alt-right ficou gordo demais para andar. O diagnóstico atende pelo conceito de “hipertelia”, de Jean Baudrillard: o colapso de um mecanismo pelo seu próprio excesso. Entre o ceticismo radical do público que anulou o valor das imagens e manobras jurídicas inócuas no TSE para estancar a queda de Flávio Bolsonaro nas pesquisas, a outrora ágil máquina de memes de 2018 parece ter se transformado em uma burocracia barulhenta que, na tentativa de inundar o debate, acabou por provocar um curto-circuito em si mesma. Como Ourobouros, mordendo a si mesma.
Apesar do ano eleitoral começar com o script midiático tradicional (a tentativa de criar uma Lava Jato 2.0 com o escândalo Banco Master, a pauta do pânico moral como diversionismo político ao gosto da extrema direita etc.), há uma novidade que está passando despercebida pelos analistas políticos: sinais da “fadiga de material” da estratégia alt-right de comunicação.
Talvez “fadiga” não seja a palavra correta. Mas um fenômeno mais irônico. Aquilo que o pensador francês Jean Baudrillard chamava de “hipertelia”: um estado de obsolescência por hiperdesenvolvimento, onde um sistema funciona “tão bem” que ultrapassa sua própria finalidade, entra em colapso e começa a produzir o efeito oposto ao desejado.
A comunicação política da extrema direita estaria sendo vítima de si mesma, dentro de um cenário de “obesidade” e hipérbole tecnológica.
Sabemos que a estratégia Steve Bannon que orienta a comunicação política alt-right (“flood the zone”) trabalha com a velocidade e a capacidade de saturação –inundar a mídia e o ecossistema digital com acontecimentos e notícias tão desconexas que deixe os jornalistas atordoados. Sem tempo, acabam focando no acessório, deixando de lado o essencial.
A estratégia alt-right de Bannon baseia-se no choque, na velocidade, na saturação de narrativas e na destruição dos fatos objetivos. O problema da aceleração infinita é que ela não tem freio.
Ao atingir a hipertelia, a comunicação de rede dessa ala política tornou-se hiper-real: mais real que o real, barulhenta demais, pesada demais. Ela perdeu a agilidade felina de 2018 e se transformou em uma máquina burocrática de gerar memes que só conversam com quem já está convertido, enquanto entrega munição geopolítica e narrativa de graça para os seus opositores.
Parece que o paroxismo está sendo atingido: a máquina continua girando em falso, fazendo muito barulho, mas produzindo vácuo.
Três episódios desse ano eleitoral são evidências claras dessa tese:

1- O Paroxismo da Imagem: Da Manipulação à Inutilidade
“O Brasil e outros países começam a regular as redes sociais. Mas o pior está por vir – a IA”. Esse lide de abertura da matéria com o sugestivo nome de “Antes do Apocalipse”, da edição de junho da revista “Piauí”, sintetiza o hype em torno dos vídeos e imagens geradas por Inteligência Artificial que podem firmar a pós-verdade como fator decisivo no cenário de propaganda eleitoral.
Mas um efeito irônico inesperado está ocorrendo nessa arma tão incensada pela extrema direita: a hipertelia na Inteligência Artificial visual como o colapso da própria mentira.
Historicamente, o objetivo da manipulação era fazer crer em uma falsidade – substituir a noção de verdade pela de “credibilidade” ou “verossimilhança”: parecer ser verossímil, logo é verdadeiro.
Porém, para que a manipulação desse certo, exigia que a realidade ainda fosse o padrão.
Quando passamos a produzir imagens e vídeos gerados por IA em escala industrial, chegamos ao ponto de viragem, seja através do efeito de saturação, seja como efeito bumerangue.
Saturação: Se absolutamente tudo pode ser falso, o público ativa uma defesa psíquica: oceticismo radical. Toda e qualquer imagem ou vídeo passa a ser colocada sob suspeita, paradoxalmente em torno de todo hype em torno da IA.
Efeito bumerangue: O sistema de desinformação ficou “gordo” demais. Ao destruir a confiança na imagem, a alt-right inviabilizou a sua principal arma. Se nenhuma imagem é real, o vídeo vazado que incrimina um político vira “IA”, mas a foto heroica que o defendia também perde o valor. A manipulação se anula pelo excesso.
2. O Caso Dark Horse: A Estética Amadora Virou Paródia
O clã Bolsonaro e a alt-right bannonista dominaram as redes usando a estética do “autêntico”, do “tosco” e da quebra de liturgia. Era a comunicação “orgânica” contra a mídia tradicional “engessada”.
O colapso desse modelo na resposta rápida de Flávio Bolsonaro sobre o caso Vorcaro/Dark Horse ilustra a perda de funcionalidade por hipertrofia.
Após a publicação, pela Intercept, dos áudios das conversas de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro para o banqueiro Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro reagiu pelo modus operandi bannonista: gravar rapidamente um vídeo de reposta para publicar nas redes em que a espontaneidade e timing soariam como “autenticidade”. Mas se tornou no inverso: o pesadelo para qualquer marqueteiro coordenador de campanha eleitoral.
O modus operandi se esgotou.A técnica de jogar fumaça, atacar o mensageiro e gravar um vídeo caseiro em tom de desabafo saturou. O público prece ter decodificado o truque.
O que antes parecia “autenticidade contra o sistema” hoje é lido instantaneamente como desespero e amadorismo.
O sistema de comunicação deles continuou operando na mesma lógica maximalista, mas o receptor mudou. A velocidade (paroxismo do tempo) impediu a reflexão jurídica e estratégica, gerando o erro tático.

3. Tarifaço e Facções terroristas: a “obesidade” do discurso ideológico
O terceiro exemplo é o mais evidente em termos de hipertelia política. Trump e o bolsonarismo operam na lógica do espetáculo permanente: é preciso alimentar a máquina com anúncios bombásticos (tarifas, tipificação do PCC/CV como terroristas) para manter o engajamento da bolha aquecido.
No entanto, o tiro saiu pela culatra:
A Armadilha do Excesso: para inflar o próprio discurso soberanista e punitivista, eles avançaram tanto o sinal que invadiram a soberania do próprio Estado brasileiro.
O que acabou virando um presente narrativo para Lula reeditar o círculo virtuoso do ano passado: a defesa intransigente da Soberania e da Democracia.
Esse excesso performático “engordou” tanto a retórica deles que acabou oferecendo a Lula o melhor cenário possível: o papel de defensor da soberania nacional contra a ingerência estrangeira e o alarmismo histérico.
O sistema comunicacional deles funcionou no automático (gerar pânico/reação), mas gerou um subproduto político desastroso para eles mesmos.

Nunes Marques tenta ajudar…
A tentativa de consertar tudo isso pode, potencialmente, resultar em outro efeito inverso e irônico.
O ministro Nunes Marques, presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), determinou a suspensão da divulgação da pesquisa eleitoral realizada pelo Instituto Atlas/Intel que apontou queda do senador Flávio Bolsonaro (PL). Atendendo a pedido do próprio PL.
A evidente inutilidade da decisão do ministro (a pesquisa foi publicada em maio, ou seja, tirá-la do ar não reverteria seus efeitos já consolidados na opinião pública) teve um outro propósito bannonista: uma decisão monocrática que poderá ser derrubada na votação no plenário da Corte, podendo ainda fazer o caso parar no STF.
E reforçar a narrativa da “ditadura do Judiciário”. Uma tentativa diversionista desesperada para diluir os efeitos da hipertelia: o verdadeiro tiro no pé nos episódios do tarifaço e da tipificação de “terrorismo” contra PCC e Comando Vermelho.
Mas a ironia da decisão de suspender de Nuno Marques a pesquisa velha da Atlas/Intel é que a pesquisa dessa semana da Genial/Quaest confirmou os números em queda do pré-candidato Flávio Bolsonaro na pesquisa de maio.
Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunicação Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi. Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.
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