15 de junho de 2026

Educação brasileira: O que os fatos contam, por Celso P. de Melo

O debate público costuma concentrar-se nos problemas do presente, perdendo de vista a magnitude das transformações das últimas décadas.

Brasil reduziu analfabetismo massivo e universalizou o acesso ao ensino fundamental nas últimas cinco décadas.
Escolaridade média cresceu, impactando economia, saúde, política e tecnologia no país.
Mulheres superam homens em escolaridade e são maioria nas universidades brasileiras atuais.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Educação Brasileira: O Que os Fatos Contam

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

O que a história revela quando trocamos a fotografia do presente pelo filme de cinco décadas de transformação educacional

por Celso P. de Melo

“Educação não é privilégio”
Anísio Teixeira

O que pensamos saber

Se perguntássemos aos brasileiros se a educação do país melhorou ou piorou nas últimas cinco décadas, é provável que muitos respondessem que ela continua essencialmente a mesma – ou até que piorou. A percepção não é difícil de compreender. Todos os dias somos confrontados com notícias sobre baixo desempenho escolar, desigualdades regionais, evasão, precariedade da infraestrutura e analfabetismo funcional.

Os problemas são reais.

Mas a pergunta permanece: essa percepção corresponde aos fatos?

Quando trocamos a fotografia do presente pelo filme da história, a resposta torna-se muito mais interessante.

A educação brasileira continua enfrentando enormes desafios. Entretanto, a história das últimas décadas mostra uma transformação social de dimensões extraordinárias. Em poucas gerações, o país deixou para trás um quadro de analfabetismo massivo, universalizou o acesso ao ensino fundamental, ampliou a escolaridade média da população, expandiu a educação infantil e promoveu uma silenciosa revolução feminina [1-3].

Nada disso significa que os problemas tenham desaparecido.

Significa apenas que a realidade é mais complexa do que sugerem muitos dos estereótipos que ainda dominam o debate público.

A fotografia e o filme

Grande parte das discussões sobre educação concentra-se na fotografia: os resultados mais recentes das avaliações, os problemas de aprendizagem, as desigualdades regionais ou a insuficiência das políticas públicas.

Tudo isso merece atenção.

Mas a fotografia, por definição, captura apenas um instante.

O filme conta outra história.

A Fig. 1 ilustra essa diferença entre a fotografia do presente e o filme da história.

Ao observarmos a trajetória educacional brasileira ao longo de cinquenta anos, percebemos que muitos dos desafios atuais surgem justamente porque problemas mais elementares foram gradualmente superados. O país que antes lutava para colocar as crianças na escola agora discute como melhorar a aprendizagem. O país que convivia com o analfabetismo em massa agora enfrenta o desafio mais complexo da qualidade da educação.

Essa mudança de patamar recebe raramente o destaque que merece.

O Brasil que aprendeu a ler

Talvez nenhum indicador seja tão eloquente quanto a trajetória do analfabetismo.

Em meados do século XX, mais da metade da população brasileira adulta não sabia ler nem escrever [1, 2]. Em muitas regiões do país, a exclusão educacional era a regra, não a exceção.

Ao longo das décadas seguintes, a expansão das redes escolares, a urbanização, a ampliação da escolaridade obrigatória e diversas políticas de alfabetização alteraram profundamente esse quadro.

A redução do analfabetismo não foi apenas uma conquista educacional. Foi uma transformação civilizatória.

A velocidade e a profundidade dessa transformação podem ser observadas na Fig. 2.

Hoje, os desafios são outros. Ainda existem milhões de brasileiros analfabetos, concentrados principalmente entre as gerações mais idosas e em regiões historicamente menos favorecidas. Mas o problema central já não é mais o mesmo.

O Brasil deixou de ser um país de analfabetismo massivo.

Quando o acesso deixou de ser o problema

Durante boa parte do século XX, milhões de crianças brasileiras simplesmente não frequentavam a escola.

A exclusão escolar era uma realidade cotidiana.

Nas últimas décadas, entretanto, o país alcançou algo que parecia distante: a universalização quase completa do acesso ao ensino fundamental [2-4].

Esse avanço é tão profundo que muitas vezes passa despercebido.

A Fig. 3 mostra a dimensão dessa mudança.

A diferença entre um sistema educacional que deixa milhões de crianças fora da escola e outro que praticamente universaliza o acesso não é quantitativa. É qualitativa.

Os desafios atuais são distintos justamente porque o acesso deixou de ser o principal obstáculo.

A revolução silenciosa da escolaridade

Outro indicador fundamental é a evolução da escolaridade média.

Os brasileiros não apenas passaram a frequentar a escola em maior número. Passaram também a permanecer mais tempo nela [2, 3].

A Fig. 4 evidencia essa transformação silenciosa.

Esse aumento da escolaridade média produziu impactos que vão muito além da educação.

Afetou a produtividade econômica, a saúde pública, a participação política, a renda familiar e a capacidade de absorção de novas tecnologias.

Nenhum país se desenvolveu sem ampliar significativamente o nível educacional de sua população.

Nesse aspecto, a trajetória brasileira está longe de ser desprezível.

A revolução feminina

Poucas transformações sociais foram tão profundas quanto a mudança do papel das mulheres na educação brasileira.

Durante boa parte do século XX, oportunidades educacionais eram distribuídas de forma desigual entre homens e mulheres.

Hoje, o quadro é radicalmente diferente.

A Fig. 5 resume essa mudança de trajetória.

As mulheres apresentam níveis de escolaridade superiores aos dos homens e tornaram-se maioria nas universidades brasileiras [2, 3].

Essa mudança alterou trajetórias profissionais, ampliou a autonomia econômica feminina e transformou profundamente a estrutura social do país.

Foi uma revolução silenciosa – e, talvez por isso mesmo, frequentemente subestimada.

O copo meio cheio e o copo meio vazio

A educação brasileira não cabe em narrativas simplistas.

Não é o desastre absoluto frequentemente retratado em alguns discursos.

Tampouco é um caso de sucesso concluído.

A Fig. 6 sintetiza simultaneamente os avanços alcançados e os desafios que permanecem.

O copo está meio cheio porque houve expansão do acesso, redução do analfabetismo, crescimento da escolaridade média, ampliação da educação infantil e inclusão crescente de grupos historicamente excluídos.

O copo está meio vazio porque persistem desigualdades regionais, raciais e territoriais; porque a aprendizagem continua abaixo do desejável; porque o ensino médio enfrenta dificuldades estruturais; e porque o analfabetismo funcional permanece elevado.

Reconhecer uma metade não exige negar a outra.

A escada da educação

As comparações internacionais costumam produzir diagnósticos equivocados.

Comparamos o Brasil de hoje com a Finlândia de hoje, a Coreia de hoje ou a Noruega de hoje [5, 6]. Naturalmente, a distância aparece enorme.

Mas sociedades não surgem prontas.

A Fig. 7 procura situar a experiência brasileira dentro de uma perspectiva histórica mais ampla.

Os países que atualmente lideram os indicadores educacionais também percorreram trajetórias longas, marcadas por expansão do acesso, universalização da alfabetização e elevação gradual dos níveis de escolaridade.

A questão central não é negar que esses países estejam à frente.

A questão é reconhecer que desenvolvimento educacional é um processo histórico.

E, sob essa perspectiva, o Brasil avançou muito mais do que costuma admitir.

O que a fotografia não mostra

O médico, estatístico e divulgador científico sueco Hans Rosling (1948–2017), autor do best-seller Factfulness, observava que muitas pessoas erram perguntas sobre o mundo não por falta de inteligência, mas porque continuam enxergando uma realidade que já não existe [7].

Talvez algo semelhante aconteça com a educação brasileira.

Continuamos a imaginá-la como o país do analfabetismo em massa, das crianças fora da escola e do acesso restrito ao conhecimento.

Esse Brasil existiu.

Mas é cada vez menos o Brasil de hoje.

Reconhecer essa transformação não significa ignorar os desafios que permanecem.

Significa apenas partir dos fatos.

E os fatos contam uma história que raramente aparece nas manchetes: a de um país que ainda não chegou aonde deseja chegar, mas que percorreu, em poucas gerações, uma das mais profundas transformações educacionais de sua história.

Talvez a pergunta mais importante não seja por que a educação brasileira ainda não é a da Finlândia.

Talvez a pergunta mais importante seja outra: como um país que aprendeu tanto sobre si mesmo acabou esquecendo o quanto já aprendeu?

Bibliografia

1.    Censo Demográfico 1940. 1950, Rio de Janeiro Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística,: IBGE.

2.    Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Educação 2023. 2024, IBGE: Rio de Janeiro.

3.    Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, Censo da Educação Superior 2023. 2024, INEP: Brasília.

4.    Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, Censo Escolar da Educação Básica 2024: Resumo Técnico. 2025, INEP: Brasília.

5.    UNESCO, Institute for Statistics, UIS Database. 2025, UNESCO Institute for Statistics: Montreal.

6.    Organisation for Economic Cooperation and Development, Education at a Glance 2024: OECD Indicators. 2024, OECD Publishing: Paris.

7.    Rosling, H., O. Rosling, and A.R. Rönnlund, Factfulness: Ten Reasons We’re Wrong About the World—and Why Things Are Better Than You Think. 2018, New York: Flatiron Books. ISBN 9781250107817.


Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Celso Pinto de Melo

Doutor em Física (UCSB, 1980), mestre em Física (1975) e engenheiro químico (1973) pela UFPE, é Professor Titular aposentado da UFPE e Pesquisador 1-A do CNPq. Atuou como Fulbright Senior Scholar no MIT (1986–1987). Lidera pesquisas em polímeros condutores, transporte em filmes finos e nanocompósitos aplicados à interface com sistemas biológicos e sensores. É autor de mais de 160 artigos e diversas patentes nacionais e internacionais, e orientou mais de 60 alunos de pós-graduação. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Física (2009–2013), vice-presidente e conselheiro da SBPC, além de diretor do CNPq e pró-reitor da UFPE. Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Pernambucana de Ciências. Recebeu a Comenda (2002) e a Grã-Cruz (2009) da Ordem Nacional do Mérito Científico, além da Ordem de Rio Branco (2007), por suas contribuições às ciências físicas no Brasil.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados