Educação Brasileira: O Que os Fatos Contam
O que a história revela quando trocamos a fotografia do presente pelo filme de cinco décadas de transformação educacional
por Celso P. de Melo
“Educação não é privilégio”
Anísio Teixeira
O que pensamos saber
Se perguntássemos aos brasileiros se a educação do país melhorou ou piorou nas últimas cinco décadas, é provável que muitos respondessem que ela continua essencialmente a mesma – ou até que piorou. A percepção não é difícil de compreender. Todos os dias somos confrontados com notícias sobre baixo desempenho escolar, desigualdades regionais, evasão, precariedade da infraestrutura e analfabetismo funcional.
Os problemas são reais.
Mas a pergunta permanece: essa percepção corresponde aos fatos?
Quando trocamos a fotografia do presente pelo filme da história, a resposta torna-se muito mais interessante.
A educação brasileira continua enfrentando enormes desafios. Entretanto, a história das últimas décadas mostra uma transformação social de dimensões extraordinárias. Em poucas gerações, o país deixou para trás um quadro de analfabetismo massivo, universalizou o acesso ao ensino fundamental, ampliou a escolaridade média da população, expandiu a educação infantil e promoveu uma silenciosa revolução feminina [1-3].
Nada disso significa que os problemas tenham desaparecido.
Significa apenas que a realidade é mais complexa do que sugerem muitos dos estereótipos que ainda dominam o debate público.
A fotografia e o filme
Grande parte das discussões sobre educação concentra-se na fotografia: os resultados mais recentes das avaliações, os problemas de aprendizagem, as desigualdades regionais ou a insuficiência das políticas públicas.
Tudo isso merece atenção.
Mas a fotografia, por definição, captura apenas um instante.
O filme conta outra história.
A Fig. 1 ilustra essa diferença entre a fotografia do presente e o filme da história.

Ao observarmos a trajetória educacional brasileira ao longo de cinquenta anos, percebemos que muitos dos desafios atuais surgem justamente porque problemas mais elementares foram gradualmente superados. O país que antes lutava para colocar as crianças na escola agora discute como melhorar a aprendizagem. O país que convivia com o analfabetismo em massa agora enfrenta o desafio mais complexo da qualidade da educação.
Essa mudança de patamar recebe raramente o destaque que merece.
O Brasil que aprendeu a ler
Talvez nenhum indicador seja tão eloquente quanto a trajetória do analfabetismo.
Em meados do século XX, mais da metade da população brasileira adulta não sabia ler nem escrever [1, 2]. Em muitas regiões do país, a exclusão educacional era a regra, não a exceção.
Ao longo das décadas seguintes, a expansão das redes escolares, a urbanização, a ampliação da escolaridade obrigatória e diversas políticas de alfabetização alteraram profundamente esse quadro.
A redução do analfabetismo não foi apenas uma conquista educacional. Foi uma transformação civilizatória.
A velocidade e a profundidade dessa transformação podem ser observadas na Fig. 2.

Hoje, os desafios são outros. Ainda existem milhões de brasileiros analfabetos, concentrados principalmente entre as gerações mais idosas e em regiões historicamente menos favorecidas. Mas o problema central já não é mais o mesmo.
O Brasil deixou de ser um país de analfabetismo massivo.
Quando o acesso deixou de ser o problema
Durante boa parte do século XX, milhões de crianças brasileiras simplesmente não frequentavam a escola.
A exclusão escolar era uma realidade cotidiana.
Nas últimas décadas, entretanto, o país alcançou algo que parecia distante: a universalização quase completa do acesso ao ensino fundamental [2-4].
Esse avanço é tão profundo que muitas vezes passa despercebido.
A Fig. 3 mostra a dimensão dessa mudança.

A diferença entre um sistema educacional que deixa milhões de crianças fora da escola e outro que praticamente universaliza o acesso não é quantitativa. É qualitativa.
Os desafios atuais são distintos justamente porque o acesso deixou de ser o principal obstáculo.
A revolução silenciosa da escolaridade
Outro indicador fundamental é a evolução da escolaridade média.
Os brasileiros não apenas passaram a frequentar a escola em maior número. Passaram também a permanecer mais tempo nela [2, 3].
A Fig. 4 evidencia essa transformação silenciosa.

Esse aumento da escolaridade média produziu impactos que vão muito além da educação.
Afetou a produtividade econômica, a saúde pública, a participação política, a renda familiar e a capacidade de absorção de novas tecnologias.
Nenhum país se desenvolveu sem ampliar significativamente o nível educacional de sua população.
Nesse aspecto, a trajetória brasileira está longe de ser desprezível.
A revolução feminina
Poucas transformações sociais foram tão profundas quanto a mudança do papel das mulheres na educação brasileira.
Durante boa parte do século XX, oportunidades educacionais eram distribuídas de forma desigual entre homens e mulheres.
Hoje, o quadro é radicalmente diferente.
A Fig. 5 resume essa mudança de trajetória.

As mulheres apresentam níveis de escolaridade superiores aos dos homens e tornaram-se maioria nas universidades brasileiras [2, 3].
Essa mudança alterou trajetórias profissionais, ampliou a autonomia econômica feminina e transformou profundamente a estrutura social do país.
Foi uma revolução silenciosa – e, talvez por isso mesmo, frequentemente subestimada.
O copo meio cheio e o copo meio vazio
A educação brasileira não cabe em narrativas simplistas.
Não é o desastre absoluto frequentemente retratado em alguns discursos.
Tampouco é um caso de sucesso concluído.
A Fig. 6 sintetiza simultaneamente os avanços alcançados e os desafios que permanecem.

O copo está meio cheio porque houve expansão do acesso, redução do analfabetismo, crescimento da escolaridade média, ampliação da educação infantil e inclusão crescente de grupos historicamente excluídos.
O copo está meio vazio porque persistem desigualdades regionais, raciais e territoriais; porque a aprendizagem continua abaixo do desejável; porque o ensino médio enfrenta dificuldades estruturais; e porque o analfabetismo funcional permanece elevado.
Reconhecer uma metade não exige negar a outra.
A escada da educação
As comparações internacionais costumam produzir diagnósticos equivocados.
Comparamos o Brasil de hoje com a Finlândia de hoje, a Coreia de hoje ou a Noruega de hoje [5, 6]. Naturalmente, a distância aparece enorme.
Mas sociedades não surgem prontas.
A Fig. 7 procura situar a experiência brasileira dentro de uma perspectiva histórica mais ampla.

Os países que atualmente lideram os indicadores educacionais também percorreram trajetórias longas, marcadas por expansão do acesso, universalização da alfabetização e elevação gradual dos níveis de escolaridade.
A questão central não é negar que esses países estejam à frente.
A questão é reconhecer que desenvolvimento educacional é um processo histórico.
E, sob essa perspectiva, o Brasil avançou muito mais do que costuma admitir.
O que a fotografia não mostra
O médico, estatístico e divulgador científico sueco Hans Rosling (1948–2017), autor do best-seller Factfulness, observava que muitas pessoas erram perguntas sobre o mundo não por falta de inteligência, mas porque continuam enxergando uma realidade que já não existe [7].
Talvez algo semelhante aconteça com a educação brasileira.
Continuamos a imaginá-la como o país do analfabetismo em massa, das crianças fora da escola e do acesso restrito ao conhecimento.
Esse Brasil existiu.
Mas é cada vez menos o Brasil de hoje.
Reconhecer essa transformação não significa ignorar os desafios que permanecem.
Significa apenas partir dos fatos.
E os fatos contam uma história que raramente aparece nas manchetes: a de um país que ainda não chegou aonde deseja chegar, mas que percorreu, em poucas gerações, uma das mais profundas transformações educacionais de sua história.
Talvez a pergunta mais importante não seja por que a educação brasileira ainda não é a da Finlândia.
Talvez a pergunta mais importante seja outra: como um país que aprendeu tanto sobre si mesmo acabou esquecendo o quanto já aprendeu?
Bibliografia
1. Censo Demográfico 1940. 1950, Rio de Janeiro Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística,: IBGE.
2. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Educação 2023. 2024, IBGE: Rio de Janeiro.
3. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, Censo da Educação Superior 2023. 2024, INEP: Brasília.
4. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, Censo Escolar da Educação Básica 2024: Resumo Técnico. 2025, INEP: Brasília.
5. UNESCO, Institute for Statistics, UIS Database. 2025, UNESCO Institute for Statistics: Montreal.
6. Organisation for Economic Cooperation and Development, Education at a Glance 2024: OECD Indicators. 2024, OECD Publishing: Paris.
7. Rosling, H., O. Rosling, and A.R. Rönnlund, Factfulness: Ten Reasons We’re Wrong About the World—and Why Things Are Better Than You Think. 2018, New York: Flatiron Books. ISBN 9781250107817.
Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.
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