no Substack: Amanhã não existe ainda
Memórias da Xícara
Meu desgosto com o futebol, minha birra com a CBF e minha torcida pelo Haiti.
por Luis Felipe Miguel
Uma coisa impressionante, no avanço tecnológico das últimas décadas, é a qualidade dos programas de tradução automática. Não substituem o trabalho de um tradutor profissional para uma obra que vai ser publicada, se embananam com textos de maior complexidade, não entendem contexto, não captam sutilezas. Mas hoje quebram um galho danado para o dia a dia.
Há 10 anos não era assim. As traduções automáticas do TripAdvisor, por exemplo, eram praticamente uma forma de escrita surrealista. E lembro, há mais tempo ainda, quando fui testar um desses programas e a expressão “World Cup” foi traduzida simplesmente por “Xícara Mundial”.
Achei o máximo.
Não posso dizer que tenho uma relação de amor e ódio com a Xícara porque falta o amor. Na verdade, nem ódio tenho. Acho repulsivo uma entidade corrupta como a Fifa ficar fazendo esse discursinho de congraçamento universal e paz mundial. E agora puxando o saco de um psicopata como Trump. Mas prefiro reservar o ódio para coisas mais sérias, como o capitalismo, o imperialismo ou cardápios só em QR Code.
Tenho uma lembrança (certamente fabricada, porque eu era pequeno demais) da comemoração do tricampeonato, vista pela janela do apartamento no Rio. Da Copa de 1974, lembro, ou acho que lembro, de João Saldanha, aparentemente embriagado, espinafrando a seleção da CBD (ainda não era CBF) na derrota para a Polônia, na disputa pelo terceiro lugar. Meu pai gostava de assistir aos jogos e, enquanto ele esteve vivo, assistia de vez em quando com ele.
Na minha casa, claro, todos torcemos pela Polônia, que além de tudo era “socialista”. E era um time cheio de craques. Na minha equipe de futebol de botão, havia jogadores batizados como Tomaszewski (o goleiro) e Lato.
Eu costumo dizer que não gosto de futebol, mas, a rigor, nem é verdade. Joguei muita bola quando garoto, muito futebol de botão também. Já marmanjo, confesso que não poucas vezes desestressei com o Fifa Soccer, no PlayStation do meu filho.
Não gosto é de assistir a futebol (um espetáculo quase sempre aborrecidíssimo), de acompanhar campeonato, de ficar discutindo escalações, táticas e arbitragem.
Sempre lembro de uma tirada, acho que de Umberto Eco, mais ou menos assim: jogar futebol é um negócio inacreditável, assistir a outros jogando é duplamente inacreditável, conversar sobre o jogo que foi assistido é triplamente… E, na verdade, continua: as pessoas assistem a outros conversando sobre os jogos a que assistiram (mesas-redondas na TV) e depois conversam sobre essas conversas. Enlouquecedor.
Esse meu desinteresse pelo nobre esporte bretão, como se dizia antanho, me causa um frequente sentimento de inadequação social.

Hoje menos, mas há pouco tempo a Ciência Política ainda era uma área muito masculina. Sendo assim, era relativamente comum que eu participasse de comitês ou bancas em que só estavam homens.
E o que fazem estes homens no intervalo do trabalho – nas refeições, no transporte, no cafezinho? Falam de futebol. É o assunto dominante e inesgotável. Falam de clubes, de jogadores, de técnicos, de táticas, de campeonatos.
Definitivamente, não é para mim.
Mas parece ser para todos os outros seres humanos do sexo masculino, brasileiros pelo menos. Às vezes, eu acho que é pegadinha, que meus colegas combinam antes para me impressionar, porque não é possível. Eles sabem quem foi o artilheiro do Bahia no campeonato de 1971, quem era o massagista do Guarani em 1983, em qual time o técnico Fulano esteve antes de ir para o Náutico, qual a escalação do Olaria x Madureira de 1997.
Minha contribuição aos animados colóquios que se desenvolvem sobre estes tópicos empolgantes oscila entre o “an-hã” e o “hmm-hum”.
Com a presença de uma única mulher, tudo isso se dissipa. Ela pode ser a maior boleira do universo, não importa. Não sei que tipos de mecanismos do inconsciente social entram em ação, mas o fato é que tudo muda. Se há conversa de futebol, ela é curta, passageira. E logo podemos todos falar de assuntos interessantes e adultos, como política, comida e seriados de TV.
Está claro, portanto, que não assisto aos jogos da Xícara. Já fiz reunião com orientandos, para discutir pesquisa, em horário do jogo da CBF – digo em minha defesa que todos concordaram de livre e espontânea vontade.
Uma exceção ocorreu em 2014. Estava de férias no exterior, com minha família. Saímos para jantar perto da hora do jogo da CBF. Quando voltamos para o apartamento, fui ao banheiro e meu filho ligou a televisão. Ele gritou: “Está 5 a 0 para a Alemanha!” Eu respondi: “Francisco, pára de pegadinha”.
Mas era verdade. Ciente de que estava testemunhando um momento histórico, fiz o que raramente faço e assisti ao segundo tempo.
Nesse tempo todo, sempre torci contra a seleção. É que, onde tantos parecem ver o Brasil, eu vejo a CBF. Uma cartolagem corrupta (eu diria “comicamente corrupta”, diante dos escândalos recentes de bigamia bancada pela confederação, se não fosse trágica) e um elenco de jogadores – quase sem exceção – babacas, um bando de nouveaux riches misóginos, sonegadores de impostos, incapazes de solidariedade com o povo de onde vieram. Garotos-propaganda de bets, apoiadores de políticos da extrema-direita. Não dá para ter simpatia.

E antes que me acusem: não me sinto menos brasileiro por isso.
Hoje, nem diria que torço. Prefiro que a CBF não faça gols, muito menos ganhe partidas, mas é por causa dos rojões: uma prática desinfeliz, de gente incapaz de empatia com os cachorros, gatos e crianças neurodivergentes, que tanto sofrem com os estampidos.
(De fato, este é o lado bom nos jogos da CBF, quando são modorrentos e sem gols. Fica um silêncio maravilhoso. Parece que a peste passou e estou numa cidade fantasma. Ótimo para ouvir música, ler, escrever.)
Sem rojões, eu deixaria até a CBF ganhar a Xícara.
Menos hoje, claro. Não vou ver o jogo, mas não dá para não torcer pelo Haiti. Um país que paga caro, caríssimo, até hoje, a ousadia de produzido uma revolução vitoriosa de escravos e exposto ao mundo os limites do apego da Europa às suas próprias filosofias humanistas.
Céticos dirão que uma vitória haitiana sobre a CBF é improvável. Não importa. Torcer para o mais forte não tem graça mesmo.
Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular). Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê).
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