Roberto Campos teve parte ativa na minha adolescência. Seu plano de estabilização quebrou meu pai, dono da Farmácia Central em Poços de Caldas.
Era um plano de estabilização que poupava os grandes, conforme pude conferir na época. As farmácias adquiriam os medicamentos dos laboratórios e recebiam uma lista de preços. Todo remédio só poderia ser vendido obedecendo à lista. Na hora de renovar os estoques, o governo já tinha autorizado reajuste de preços nos laboratórios. As farmácias renovavam os estoques pagando, no atacado, o mesmo preço pelo qual antes vendiam no varejo. A descapitalização foi rápida.
Tentei transcrever os pavores que rondam uma família de classe média diante da insegurança financeira. Compus uma música, “Congresso Internacional do Medo”, em parceria com meu amigo João Kleber Juriti, misturando caoticamente vários ritmos e várias formas históricas do medo. A música venceu uma das eliminatórias da Feira Permanente da Música Popular Brasileira, da TV Tupi, em um festival em que os concorrentes eram Paulinho da Viola, Jorge Ben, Suely Costa.
A parte mais forte era uma marcha-rancho mencionando o Senhor K, personagem de Kafka:
“Senhor K, insone e seco espera, um não-vir-nunca. Pesadelo, olhos de Abel, panes na Justiça, Gengis Khan. Solidão pelas janelas, entrelaçadas de vazios. Forasteiro em sua terra, o senhor K troca a audácia Pela cova do descanso. E a cruicificação cotidiana. Trancado em seu meio dia. Arrisca um gesto. Em quanto o dragão não vem”.
Na apresentação na Tupi, a censura vetou o “Senhor K”, por ser “propaganda subliminar de Kubitscheck”. O produtor Fernando Faro pediu que trocássemos para “Senhor F”. Na hora da apresentação, ficou na frente do palco com um cartaz com letras garrafais: “Senhor F”. Se passasse o K, havia o risco da censura interromper a transmisão do programa.
Em parte, minha decisão de ir para a Economia se deveu à revanche contra Roberto Campos. E tive a oportunidade no início dos anos 80, quando comecei a aparecer mais no jornalismo. Guilherme Afif Domingos, presidente da Associação Comercial de São Paulo, convidou-me para entrevistar Roberto Campos. A entrevista seria gravada e distribuída para toda a rede de Associações Comerciais do estado.
Estranhei o convite. Disse que, em meus artigos, eu já era um crítico de Campos. E ele:
— É isso que queremos. Provocado, ele se sai melhor.
A entrevista mostrou o contrário. A mente brilhante na escrita era um senhor lento nas entrevistas. Ouso dizer que Campos se saiu muito mal. Anos depois, perguntei a ele qual tinha sido o momento mais constrangedor da sua vida — entre tantos episódios de vaias que recebeu. Disse que foi numa entrevista a Carlos Lacerda, no governo Castello Branco, quando foi fulminado por uma afirmação terrível:
— O senhor mata os pobres de fome e os ricos de vergonha.
Seja como for, a minha entrevista com ele ficou inédita. Afif julgou melhor guardá-la nos arquivos da Associação Comercial.
Voltei a cruzar com ele no início do processo de redemocratização. O país saía da pesada armadura do regime militar e havia uma necessidade urgente de o setor privado entender os mecanismos de funcionamento do mercado.
Minhas colunas, na volta à Folha, concentravam-se muito nesses temas. Um artigo meu, mostrando como grandes empresas familiares deveriam se organizar em holdings, para separar a propriedade da gestão, rendeu um e-mail de Jorge Gerdau, agradecendo a dica.
Corri o país, em palestras, tentando convencer pequenas e médias empresas a terceirizarem o que não fosse atividade-fim, como refeitórios e o transporte dos funcionários, entre uma infinidade de outros temas. Acreditava, até, que o capital financeiro seria essencial para a reciclagem da economia.
Quando escrevi a coluna sobre a função econômica do capital financeiro, recebi um telefonema de Paulo Guedes. Disse-me que Jorge Paulo Lemann tinha telefonado para ele, para saber se “era isso mesmo”. Ele confirmou e, segundo ele, aconselhou Lemann a ficar em CDBs e a não ousar em outros setores, porque a rentabilidade seria menor.
Certa vez cruzei com Roberto Campos, não me lembro se num avião, e ele me disse algo curioso:
— Você virou uma referência do livre mercado.
E eu nunca fui a favor do livre mercado. Pelo contrário, no plano público era bastante crítico do desmonte que Fernando Collor estava promovendo no país.
Algum tempo depois, Fernando Pacheco Jordão, o grande correspondente internacional, voltou ao Brasil e montou uma agência de pesquisas. Uma de suas pesquisas foi saber quem fazia a cabeça dos fazedores de cabeça do país: as 50 fontes mais ouvidas pela imprensa. Fiquei em primeiro, empatado com Campos.
Mas minha aproximação com Campos ocorreu em duas circunstâncias. A primeira foi o depoimento que fui colher dele, para a biografia de Walther Moreira Salles. Ali, descobri o homem público pragmático que, embora defensor do liberalismo, reconhecia os momentos em que a intervenção pública se fazia necessária. Lembro sobretudo sua insistência, junto a Café Filho e a JK, em promover uma desvalorização cambial que considerava essencial para a competitividade dos produtos brasileiros no exterior. Dava como exemplo a Coreia, que, em meados dos anos 1950, já lhe parecia a caminho de se tornar uma grande potência industrial.
A segunda foi no dia em que ele compareceu, em cadeira de rodas, para votar pelo impeachment de Fernando Collor. Dado o voto, voltou para o hospital. José Serra foi visitá-lo e me ligou com uma informação surpreendente: Campos havia se emocionado com os aplausos.
No mesmo dia, escrevi uma coluna sobre o paradoxo. O homem mais vaiado da história do país não buscava as vaias: aceitava-as como circunstância inexorável. Mas se comovia com os aplausos.
Dali em diante, ficamos amigos. Quando ele vinha a São Paulo, me telefonava para marcarmos um café. No lançamento do seu livro, me convidou para ficar na sua mesa. E toda hora batia no meu joelho, um gesto afetivo de uma pessoa intrinsecamente tímida.
Em um dos encontros, me contou uma história saborosíssima sobre o padre Carlos, que foi seu colega de seminário em Guaxupé e, depois, foi responsável por uma obra extraordinária, o Colégio Dom Bosco, que deu formação técnica a milhares de jovens.
Certa vez, Campos encontrou um ex-colega de seminário e indagou:
— Você é bispo, outros colegas nossos galgaram postos importantes. Por que o mais virtuoso de todos, o Carlos, não passou de cônego?
— Por três razões — explicou o colega. — Primeiro, porque é muito rebelde. Segundo, porque vive maritalmente com uma mulher. Até aí, tudo bem. O problema é que ele não acredita em Deus.
Escrevi uma coluna a respeito, explicando que não era verdade que o padre Carlos não acreditava em Deus. Ele tinha uma história exemplar, e seu amor por Maria foi fundamental para erguer sua grande obra.
Na vida pessoal, Campos não tinha a mesma racionalidade do pensador público. O período no seminário marcou profundamente sua vida. Envolveu-se em amores tórridos. Certa vez, o comandante Rolim, da TAM, convidou-me a almoçar com ele em um apartamento, numa travessa da avenida Consolação. Campos o comprara para encontros amorosos e, na crise financeira que se seguiu, vendera-o a Rolim.
De fato, tentou voos enormes: montou um banco de investimento que acabou afundando numa estratégia desastrosa — captar recursos em dólares para emprestar em cruzeiros.
No fim da vida, André Araújo — personagem fascinante, sobre quem escreverei futuramente — era incumbido pelo Partido Republicano norte-americano de levar uma mesada a Campos, que já não tinha qualquer fonte de renda.
Campos foi um gigante em vários campos. Na insistência com que defendia suas ideias, na sua atividade de homem público, no seu permanente enfrentamento das vaias e até na teimosia ideológica. Era um dragão sensível.
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