Os Estados Unidos em 2026 atravessam um momento de profunda reconfiguração, operando em múltiplas frentes simultâneas que revelam uma ordem internacional cada vez mais fragmentada e competitiva. No centro desse cenário, o governo de Donald Trump busca administrar rivalidades com grandes potências ao mesmo tempo em que tenta preservar sua influência em regiões estratégicas, como o Indo-Pacífico e a América Latina. Durante a edição do programa Observatório de Geopolítica [assista abaixo] transmitida na última quinta-feira (18) pelo canal TV GGN no Youtube, especialistas discutiram como essa postura estadunidense, embora tente projetar uma imagem de unidade centrada na contenção da China, manifesta-se de forma incoerente e burocraticamente dividida.
O professor Filipe Mendonça destacou que, apesar do discurso oficial unificado que coloca Pequim como o grande rival estrutural, a formulação da política em Washington é atravessada por disputas entre diferentes burocracias, como os departamentos de Defesa, Comércio e o Tesouro. Essa fragmentação gera “sinais cruzados” que acabam abrindo brechas para a atuação de outras potências e criam oportunidades, ainda que arriscadas, para países de estatura média. Um exemplo recente dessa dinâmica foi a cúpula do G7, onde o governo Trump utilizou o bloco — do qual a Rússia permanece excluída desde 2014 — como uma plataforma para legitimar ações unilaterais e buscar ativos políticos para sua agenda doméstica, especialmente de olho nas eleições de meio de termo em novembro.
No Oriente Médio, o recente memorando de entendimento firmado com o Irã no último domingo é visto com ceticismo por Moscou e Pequim, que demandam garantias multilaterais de verificação. Para os analistas do programa, o acordo sinaliza uma possível rendição diplomática de Washington diante da resiliência do chamado “triângulo geopolítico de ferro” formado por Irã, Rússia e China. Com o foco momentaneamente deslocado do Irã, a expectativa é que os Estados Unidos intensifiquem a pressão sobre a Rússia, especialmente diante da escalada de ataques de drones ucranianos contra infraestruturas em território russo, e voltem seus olhos com mais vigor para a América Latina.
O Brasil, especificamente, parece estar em uma posição de vulnerabilidade, sendo descrito como um país “cercado” ou “retalhado” pela diplomacia de Washington. A pressão estadunidense se manifesta em diversas frentes, desde a imposição de tarifas comerciais até a criminalização de organizações brasileiras e disputas sobre o setor de terras raras. O professor Javier Vadell ressaltou que, embora o Brasil possua uma das maiores reservas mundiais de minerais estratégicos, o país corre o risco de ser reduzido a um papel meramente extrativista se não investir em capacidade própria de processamento e tecnologia. Diante desse cenário, o debate apontou que a diversificação de parcerias estratégicas, incluindo o fortalecimento do BRICS Plus e uma atuação regional mais engajada, não deve ser vista como um risco, mas como a única saída viável para preservar a soberania nacional em um sistema internacional em transição.
Participaram do programa os seguintes especialistas:
Daniela Vieira Secches é coordenadora e uma das fundadoras do Observatório Rússia-América Latina (Ruslat). Ela é doutora em Relações Internacionais (RI) pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e professora do Departamento de Relações Internacionais da mesma instituição. É pesquisadora do Grupo de Pesquisa sobre Potências Médias (GPPM) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Observatório de Capacidades Militares e Políticas de Defesa. Atua como conselheira fiscal da Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI, 2025-2027). Suas áreas de interesse incluem Estados do Leste Europeu, América Latina e discussões sobre teoria e método em RI.
Javier Vadell é coordenador da Pós-Graduação Lato Sensu em China Contemporânea, da PUC Minas, e fundador do Centro de Estudos Globais e China e do Grupo de Pesquisa sobre Potências Médias (GPPM). Ele é doutor em Ciências Sociais pela Unicamp e professor do Departamento de Relações Internacionais. Pesquisador Produtividade em Pesquisa CNPq e membro do GT da CLACSO China e o Mapa do Poder Mundial.
Leonardo César Souza Ramos é fundador do Grupo de Pesquisa sobre Potências Médias. Ele é doutor em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC Rio) e professor do Departamento de Relações Internacionais da PUC Minas. É Bolsista de Produtividade em Pesquisa no CNPq, nível 2, e atua como pesquisador do Instituto Nacional de Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU/CNPq/FAPESP), na Coordenadoria de Estudos da Ásia (CEASIA/UFPE), e na Global Disorder Network. Tem experiência na área de Relações Internacionais, atuando principalmente nos seguintes temas: Economia Política Internacional, Gramsci, Hegemonia, Globalização, BRICS, G8 e G20.
Filipe Mendonça é professor da Universidade Federal de Uberlândia (IERI/UFU), Fellow Researcher na Academy of International Affairs NRW, Bonn e pesquisador associado do INCT-INEU.
Assista:
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