20 de junho de 2026

Cultura de eficiência e indicadores de resultados são armas contra a mediocridade e a corrupção, por Antônio Machado

Sem indicadores de desempenho compulsórios, florescem os péssimos resultados confrontados aos de outros países emergentes
Foto de Mikhail Nilov via pexels.com

Eleições em 2024 destacam necessidade de gestão profissional e combate à corrupção para progresso econômico e social.
Plano para 2027-2030 prevê metas claras, avaliação contínua e orçamento vinculado a resultados para melhorar a administração pública.
Modelo inspirado em eficiência e meritocracia visa profissionalizar gestão, aumentar transparência e fortalecer controle social.

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BRASIL S/A

Político tem patrão

Cultura de eficiência e indicadores de resultados são armas contra a mediocridade e a corrupção

Por Antonio Machado*

Sob os desígnios da liderança disfuncional dos EUA num ano em que cá e lá haverá eleições, a partitura da ópera desafinada de Trump dá o álibi para um país potencialmente rico pelo que é e pobre por opção de suas elites governantes buscar o progresso sem truques.

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Por progresso entenda-se não só o avanço da economia e o aumento do bem-estar, mas a remoção dos obstáculos que os atravancam desde uma a duas gerações passadas. O maior é o desenho da Constituição de 1988, farta em direitos e omissa na cobrança de resultados. Sem indicadores de desempenho compulsórios, florescem o descaso e os péssimos resultados confrontados aos de países emergentes que há 40 anos estavam atrás de nós, como China, Coreia do Sul e Índia, além da corrupção endêmica à esquerda e à direita.

Esse é o princípio da montagem de um plano de desenvolvimento sem risco de descambar em inflação, em ruína das finanças públicas, ou presa de governantes populistas e de jogos de interesse espúrios das potências neoimperialistas – EUA e China. Não adianta defender o multilateralismo regrado por organizações globais, tipo a ONU e a OMC, quando a geopolítica é ditada por potências hegemônicas.

Não se trata de alinhar-se a nenhuma delas, mas de sentar à mesa do poder mundial como parceiro, não como convidado, condição em que o Brasil esteve esta semana na cúpula do G7, na França. Para tal, o gigantismo territorial e a riqueza natural não importam. É a importância econômica para além da exploração extrativista, o que implica domínio tecnológico e uma mistura inteligente de dissuasão militar e o soft power cultural (música, filmes etc.).

Para sairmos do pântano dos sonhos frustrados, há antecedentes ao que propõem entidades empresariais e economistas do tal “mercado”, para os quais bastariam ajuste fiscal e tirar o governo da frente, se não houver crise à vista, para que a riqueza se fizesse por ato de graça. Tudo isso importa, mas só se forem sólidos os pilares da boa gestão, política com visão nacional e eleitor consciente.

Fim do alvará à libertinagem

Neste ano de eleições, o governo bagunçado de Trump pode ser uma oportunidade, se nossa elite dirigente em 2027 atentar para o que é relevante. Primeiro, sufocar a corrupção, que começa com o fim da ilusão de maioria parlamentar formada pelo presidente graças ao aliciamento por emendas e à entrega de feudos do Estado. Segundo, assumir sem disfarce a gestão profissional, o foco em metas e seus indicadores de desempenho e a cultura de eficiência.

Não é tudo, longe de ser um plano tanto de estabilidade quanto de crescimento inclusivo e transformador, mas sem linha programática dirigida por metas, dados e indicadores de resultados, o que vier funcionará como alvará à libertinagem. A mudança requer servidor público como um verdadeiro gestor de impactos sociais.

O caso Master, tomado aqui só como sinal de doença maior, ajuda a separar moralismo farsesco de reforma. Indignação é saudável, mas insuficiente. Escândalos aparecem quando a administração pública vira condomínio mafioso de influência: cada grupo ocupa uma sala, controla nomeações e distribui exceções. Dão a isso o nome de governabilidade, um sofisma para disfarçar o mau cheiro.

A corrupção precisa de opacidade, de metas frouxas, fiscalização sem autonomia, regulador sem contrapeso, orçamento sem vínculo com entrega e político indiferente a maus resultados.

A régua para 2027 a 2030

A limpeza institucional tem de ser profunda. Não basta trocar os nomes, abrir CPI, prender o fulano da vez e esperar os vazamentos.

É preciso desarmar o alvará permanente dado ao improviso. Sem indicador de cada uma das ações públicas, sobram desculpas. Sem meta, o fracasso é anônimo. Sem avaliação contínua de desempenho, não há o que cobrar. Estamos assim, apesar de TCU, CGU etc.

Sem rastreabilidade do dinheiro, a fronteira entre lobby, captura regulatória e crime organizado fica borrada. É aí que a cultura de resultados reforça a democracia, já que o cidadão não fiscaliza abstrações, ele fiscaliza números, prazos, custos e impactos.

O Brasil que precisa nascer em 2027 para chegar transformado em 2030 não começa por lista de promessas. Bastam poucas prioridades, com metas claras, cobrança e orçamento amarrado ao resultado.

Três a cinco objetivos por área. Uma unidade de entrega ligada ao chefe do Executivo, sem substituir ministérios ou secretarias, mas com força para cobrar prazos, destravar gargalos e expor o que vai mal. Contratos de gestão para ministros e secretários. Painéis de ações abertas para a sociedade acompanhar a execução. Não é muito.

Como disciplinar a política

O caminho é direto. O modelo se inspira na cultura da eficiência, metas e meritocracia, a base do ecossistema de formação de quadros públicos e privados e formulação de ideias apoiado pelo empresário Jorge Paulo Lemann. Suas virtudes são claras, ao profissionalizar a gestão, substituir o favor pela competência, forçar o governo a medir o que entrega e proteger o orçamento de desperdícios.

A meritocracia combina prêmio, formação, autonomia, transparência e responsabilidade, sem maquiagem de dados. Fez-se isso em Sobral, no Ceará, na educação, mostrando que é possível trocar a política miúda por foco, avaliação, apoio pedagógico e seleção técnica.

Experiências de metas na segurança, na saúde e em obras públicas indicam o mesmo caminho e seus riscos. Métrica mal desenhada induz fraude. Bônus sem auditoria vira teatro. Insulamento técnico sem participação democrática vira tecnocracia arrogante. A gestão por resultados precisa andar com controle externo forte, transparência radical e participação social.

Os dados disciplinam a política.

Esse é o cerne de um plano para 2027-2030: reconstruir capacidade estatal sem recriar o velho estatismo esbanjador; atrair talento privado sem privatizar o interesse público, tudo com autonomia ao gestor visando dificultar a ocultação de incompetências.

O orçamento deve financiar entregas, não corporação nem lobbies. Estabilidade funcional existe para proteger a função pública, não para blindar a mediocridade. Regulação visa impedir que o sistema público vire balcão de negócios de lobistas. Sem tais princípios, a mediocridade e os escândalos serão cada vez mais recorrentes.

Duas metas esperam as novas elites políticas: deixarmos de gerir a impotência e passarmos a construir o poder geopolítico cada vez mais essencial. Será factível? Não sabemos, mas, como político tem patrão, é hora de o patrão voltar ao comando e cobrar os eleitos.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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