22 de junho de 2026

A NR-01 e o risco de Wellness Washing, por Luiz H. Lima Faria

Wellness washing é parecer comprometido com a saúde mental dos trabalhadores sem enfrentar as causas organizacionais do sofrimento.
Reprodução - iStockPhoto

A atualização da NR-01 inclui riscos psicossociais e atribui às organizações a prevenção do adoecimento mental no trabalho.
O conceito de wellness washing alerta para ações superficiais que simulam cuidado com saúde mental sem mudar as causas organizacionais.
A norma enfatiza que prevenir o adoecimento exige transformar as condições de trabalho, não apenas promover campanhas de bem-estar.

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A NR-01 e o risco de Wellness Washing

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por Luiz Henrique Lima Faria

Poucas experiências humanas são tão ambíguas quanto o trabalho. A mesma atividade que tornou possível a produção de riqueza e dinamizou a organização da vida em sociedade sempre carregou consigo a capacidade de desgastar aqueles que dela dependem. Ruídos excessivos, substâncias tóxicas, acidentes e movimentos repetitivos fazem parte do repertório tradicional da saúde ocupacional e há muito tempo são reconhecidos como ameaças à integridade física dos trabalhadores.

O reconhecimento dos riscos físicos, contudo, não foi acompanhado pela mesma sensibilidade em relação ao sofrimento psíquico. Há décadas, a psicodinâmica do trabalho, desenvolvida por Christophe Dejours, demonstra que as formas de organização, as relações de poder, a ausência de reconhecimento e a sobrecarga cotidiana podem provocar sofrimentos não menos relevantes do que aqueles associados aos riscos físicos. Ainda assim, durante muito tempo, a ansiedade, a exaustão e a depressão permaneceram confinadas ao terreno das fragilidades individuais, como se pouco tivessem a ver com a maneira pela qual o trabalho é organizado.

A atualização da Norma Regulamentadora nº 1, a NR-01, representa uma tentativa de corrigir essa lacuna histórica. Ao incorporar os riscos psicossociais aos programas de gerenciamento das organizações, a norma reconhece formalmente que a maneira pela qual o trabalho é organizado pode constituir uma fonte de adoecimento e atribui às próprias organizações o dever de prevenir as condições que favorecem esse adoecimento. Ambientes tóxicos, jornadas exaustivas, metas incompatíveis com a realidade, relações marcadas pelo medo, assédio moral e processos de perseguição sistemática, descritos por Heinz Leymann sob a denominação de mobbing, deixam de ser tratados como meros dramas privados e passam a ser reconhecidos como riscos cuja prevenção constitui uma responsabilidade institucional.

Trata-se de uma mudança importante. Durante muito tempo, o trabalhador que adoecia recebia um diagnóstico, iniciava um tratamento e, não raramente, retornava ao mesmo ambiente que havia contribuído para o seu desgaste. Buscava-se aliviar os sintomas sem examinar as causas, como se alguém se empenhasse em enxugar o chão enquanto a torneira continuasse aberta. Ao reconhecer que as condições de trabalho também podem constituir uma fonte de sofrimento, a NR-01 introduz uma mudança de perspectiva cujas implicações éticas talvez sejam tão relevantes quanto as suas consequências jurídicas.

Como costuma ocorrer com muitas conquistas, entretanto, o avanço não elimina as contradições do seu tempo. Existe sempre o risco de que ideias concebidas para promover transformações reais sejam gradualmente absorvidas pela lógica das aparências. É nesse contexto que surge um conceito ainda pouco conhecido no Brasil, mas cada vez mais presente no debate internacional: o wellness washing. A expressão guarda parentesco com o conhecido greenwashing. Se este descreve a tentativa de parecer ambientalmente responsável sem alterar práticas que continuam produzindo danos, o wellness washing designa a tentativa de parecer comprometido com a saúde mental dos trabalhadores sem enfrentar as causas organizacionais do sofrimento.

Evidentemente, muitas organizações têm desenvolvido iniciativas sérias e efetivamente comprometidas com a prevenção dos riscos psicossociais. O problema não reside na promoção do bem-estar em si. O risco surge quando essas iniciativas passam a funcionar como substitutas das transformações organizacionais que a própria NR-01 procura estimular. É justamente nessa fronteira, entre o compromisso genuíno e a administração das aparências, que emerge o fenômeno conhecido como wellness washing.

O fenômeno possui pelo menos duas faces complementares. A primeira é voltada para o exterior. Em um tempo no qual a responsabilidade social passou a integrar o patrimônio imaterial das organizações, comitês de qualidade de vida no trabalho, campanhas de combate ao assédio moral e discursos cuidadosamente elaborados transformam-se em instrumentos de valorização da imagem institucional. O cuidado converte-se em um fator de fortalecimento da credibilidade pública, e a promoção da saúde mental passa a ocupar lugar de destaque na construção da reputação de empresas e instituições.

A segunda face, talvez mais sofisticada, dirige-se aos próprios trabalhadores. Por meio do endomarketing, produz-se uma narrativa permanente de acolhimento que convive, não raramente, com ambientes marcados pela insegurança e pela deterioração das relações humanas. Multiplicam-se campanhas de qualidade de vida, semanas do bem-estar, palestras sobre meditação e registro de imagens cuidadosamente elaborados para as redes sociais. Essas iniciativas podem ser desejáveis, mas deixam de cumprir uma função complementar quando passam a compensar a ausência de mudanças organizacionais mais profundas. Nesse ponto, o cuidado deixa de funcionar como prática transformadora e passa a desempenhar uma função de legitimação, enquanto a aparência de compromisso ocupa o lugar das mudanças que realmente importam.

Em Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han argumenta que as formas contemporâneas de dominação se tornaram particularmente eficientes porque os indivíduos passam a participar ativamente da própria exploração. A busca incessante por desempenho converte-se em obrigação permanente e o sofrimento tende a ser vivido como fracasso pessoal, e não como expressão das estruturas sociais e organizacionais nas quais se encontra inserido.

Talvez por isso o wellness washing seja uma das expressões mais reveladoras do espírito do nosso tempo. Em vez de transformar as condições que produzem o adoecimento, procura-se tornar mais suportáveis as suas consequências. A exaustão converte-se em falta de resiliência e a ansiedade passa a exigir novas técnicas de autocontrole. Aos indivíduos cabe adaptar-se; às estruturas, frequentemente, nada muda.

A psicodinâmica do trabalho de Christophe Dejours e as reflexões de Byung-Chul Han sobre a sociedade do desempenho convergem em um ponto fundamental. O sofrimento relacionado ao trabalho não pode ser compreendido apenas como problema privado, assim como a saúde mental não pode ser reduzida a um exercício individual de autocuidado. A grande promessa da NR-01 consiste justamente em recolocar as condições de trabalho no centro do debate e em reconhecer que prevenir o adoecimento significa também transformar as estruturas que o produzem.

O maior desafio colocado pela norma não é ensinar trabalhadores a suportarem melhor o sofrimento, mas impedir que ele continue sendo produzido. Afinal, a verdadeira medida do compromisso com a saúde mental não se encontra nas campanhas que as organizações exibem, mas na disposição de questionar as formas de organização do trabalho que alimentam o mal-estar que dizem combater. Caso contrário, o cuidado institucional com a saúde mental corre o risco de transformar-se em mais um ativo reputacional e a promessa de proteção em uma sofisticada pedagogia da adaptação, destinada menos a prevenir o sofrimento do que a tornar mais aceitáveis as condições que o produzem.

Luiz Henrique Lima Faria – Professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e Editor-Chefe da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (RINTERPAP).

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