22 de junho de 2026

Aos exaustos pelo assédio moral no trabalho, por Luiz Lima Faria

Não raro, a lógica invasiva do assédio ultrapassa os limites do ambiente laboral e alcança até mesmo os espaços de repouso e intimidade.
Depositphotos

Assédio moral no trabalho pode se tornar lógica institucional, espalhando-se como cultura tóxica e silenciando críticos.
Mobbing envolve grupos que perseguem e degradam psicologicamente trabalhadores que ameaçam o poder informal.
Vítimas resistem denunciando a violência, enfrentando isolamento e tentativa de deslegitimação pelos assediadores.

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Aos exaustos pelo assédio moral no trabalho

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por Luiz Henrique Lima Faria

Esta crônica se dirige aos que vivem sob exaustão psíquica sem, contudo, se entregarem à lógica da degradação laboral coletiva. Aos que carregam as cicatrizes do desgaste produzido pelas perseguições no trabalho, pelas ofensas disfarçadas de sarcasmo, pelas humilhações cuidadosamente arquitetadas e pela violência psicológica cotidiana travestida de rotina administrativa. Aos que, mesmo profundamente cansados, recusam-se a aceitar que sobreviver profissionalmente exija o abandono da indignação diante da injustiça. Aos que compreendem existir diferença profunda entre sucumbir à fadiga psicossocial e render-se moralmente ao ambiente tóxico que a produz. E são precisamente essas consciências, inesperadamente preservadas em meio ao caos ético, aquelas que mais ameaçam os grupos sórdidos que buscam, acima de qualquer valor humano, o controle político de instituições adoecidas pelo assédio moral.

Alerto os leitores para a existência de um estágio de degradação institucional em que o assédio moral deixa de constituir mero desvio individual e passa a operar quase como lógica organizacional. Nesse ponto, a violência psicológica já não depende de comandos explícitos permanentes. Espalha-se pelas entranhas das instituições como cultura informal de sobrevivência, oferecendo pequenas benesses aos submissos, neutralizando críticos e isolando aqueles que ousam romper o pacto coletivo de silêncio construído em torno dos desvios de finalidade e dos abusos de poder.

Sobre esse tema, a psiquiatra e psicanalista francesa Marie-France Hirigoyen, em sua obra Assédio Moral: A Violência Perversa no Cotidiano, nos mostra como ambientes laborais tóxicos tendem a naturalizar práticas contínuas de humilhação, constrangimento e desqualificação até que passem a parecer parte banal da rotina institucional. O problema raramente se inicia por meio de violência explícita. Constrói-se lentamente através de circuitos privilegiados de comunicação, do isolamento progressivo, da exclusão informal dos espaços decisórios, da circulação subterrânea de difamações e da fabricação gradual da sensação de inadequação nas vítimas.

À luz dessas reflexões, compreendo que os indivíduos assediados passam a viver em permanente estado de vigilância psicológica. Já não trabalham apenas. Aprendem a monitorar olhares, silêncios, mensagens, reuniões e mudanças sutis de comportamento ao redor de si. Seus corpos e mentes permanecem em alerta contínuo. O final de semana deixa de representar descanso e converte-se na antecipação angustiada da segunda-feira. Não raro, a lógica invasiva do assédio ultrapassa os limites formais do ambiente laboral e alcança até mesmo os espaços de repouso e intimidade. O sono fragmenta-se. A náusea surge sem explicação aparente. O organismo reage antes mesmo que a consciência consiga compreender racionalmente aquilo que já começou a destruí-lo.

Há, para além dessas últimas reflexões, estágio ainda mais sombrio nesse processo de degradação institucional. O verdadeiro terror começa quando um grupo de assediadores, hegemônico nos circuitos de poder, passa a construir mecanismos de autoproteção destinados a ocultar violações sistemáticas da dignidade daqueles que ainda resistem à submissão moral imposta pelos seus desmandos.

Assim emerge, das zonas mais obscuras das perversidades subjetivas convertidas em prática coletiva, aquilo que o psicólogo do trabalho Heinz Leymann denominou mobbing, conceito formulado em seus estudos sobre terrorismo psicológico no trabalho e posteriormente sistematizado na obra Mobbing and Psychological Terror at Workplaces. Ao analisar esse fenômeno, Leymann demonstra como determinados grupos desenvolvem, no ambiente laboral, dinâmicas coletivas de perseguição destinadas a corroer psicologicamente e degradar moralmente indivíduos percebidos como ameaças à estabilidade informal das estruturas de poder.

Observo que é a partir dessa construção ardilosa que ocorre uma mutação profundamente perturbadora na percepção coletiva da realidade, uma clara inversão de valores. Os fatos denunciados passam a importar menos do que a necessidade grupal de neutralizar quem denunciou. O foco desloca-se da violência praticada para a fabricação da narrativa segundo a qual os próprios assediadores seriam vítimas de perseguição. A denúncia converte-se, perversamente, em infração moral.

Assim, as vítimas do assédio coletivizado deixam de ser percebidas como pessoas que necessitam de proteção institucional e passam a ser tratadas como ameaças à estabilidade do ambiente organizacional. Perversamente, a reputação dos denunciantes torna-se alvo permanente de corrosão. Alguns trabalhadores aderem ativamente ao processo por interesse. Outros, por medo. Muitos, simplesmente por conveniência ou adaptação ao ambiente adoecido. Poucas experiências humanas são tão devastadoras quanto perceber que estruturas criadas para assegurar ética e proteção funcional passam gradualmente a operar como mecanismos de defesa da própria violência denunciada.

O mais inquietante é que ambientes assim produzem um desvio psicossocial extremamente eficiente, uma espécie de anestesia coletiva da consciência moral. O coletivo assediador preserva a aparência de normalidade enquanto o sofrimento das vítimas é convertido em “prova” de inadequação laboral. Instala-se, então, uma lógica circular particularmente perversa em que a violência produz o adoecimento, o adoecimento passa a ser utilizado como evidência de desequilíbrio da vítima e esse suposto desequilíbrio é mobilizado para legitimar novas formas de violência. Quanto mais o indivíduo adoece, mais o grupo utiliza o próprio adoecimento como justificativa para desacreditá-lo.

Mesmo em meio a esse processo de degradação coletiva, entendo que ainda existe possibilidade de resistência e de triunfo da justiça. Ela nasce precisamente nesse território de aparente fragilidade onde se revela a diferença entre alguém cansado e alguém derrotado. O derrotado internaliza a lógica do ambiente e passa a chamar brutalidade de normalidade. O cansado, embora ferido, ainda preserva a capacidade de indignação moral diante da injustiça. Seu sofrimento nasce justamente da recusa em aceitar como legítimo aquilo que reconhece como profundamente repugnante.

Os derrotados resignam-se. Os cansados ainda encontram forças para lutar. Por isso, grupos organizados de assediadores, consumidos pela permanente necessidade de conservar poder e influência, temam tanto aqueles que, mesmo exaustos, persistem em denunciar. Não necessariamente porque lhes pareçam poderosos, mas porque carregam algo profundamente desestabilizador para estruturas sustentadas pela omissão coletiva, a memória moral daqueles que ainda se recusam a aceitar a degradação como regra legítima de convivência institucional. A mera existência do denunciante recorda diariamente aos demais que o patrimonialismo não se torna legítimo apenas porque foi institucionalizado pela violência.

A história das organizações oferece lição que muitos assediadores insistem em ignorar. Estruturas baseadas em perseguição possuem aparência inicial de força, mas carregam em si sementes inevitáveis de degradação entrópica. Quanto mais impõem silêncios e destroem reputações, mais revelam a própria perversidade. Porque toda organização que transforma denunciantes em inimigos públicos acaba, cedo ou tarde, produzindo documentos, testemunhos, rastros, adoecimentos e memórias em volume excessivo para conseguir controlá-los indefinidamente diante das múltiplas instâncias de responsabilização institucional e judicial.

Os assediadores quase sempre acreditam ter vencido quando conseguem ferir profundamente suas vítimas. Frequentemente, é justamente nesse momento que começam, sem perceber, a erguer o próprio cadafalso. Aos assediados, mesmo exaustos, permaneça a convicção de que não serão derrotados enquanto conservarem a consciência necessária para reconhecer a violência e recusarem-se a normalizá-la. Denunciem tudo. Denunciem sempre.

Encerro esta crônica com um velho jargão popular: assediados de todo o mundo, tenham certeza de que a casa da bandidagem vai cair. E, se algum desses agentes da degradação humana ameaçar despudoradamente, em ambientes institucionais, aqueles que ousam lançar luz sobre suas perversidades, permaneça a convicção de que até os mais protegidos pelas sombras do poder acabam, cedo ou tarde, alcançados pelo peso dos próprios atos. Porque nenhuma estrutura organizacional, formal ou informal, fundada sobre assédio moral, consegue escapar indefinidamente ao colapso ético que ela própria produz.

Luiz Henrique Lima Faria – Professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e Editor-Chefe da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (RINTERPAP).

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