23 de junho de 2026

Alvo da PF, Banco Digimais, de Edir Macedo, foi denunciado um mês antes do Master por praticar mesmo tipo de golpe

Com rombo de R$ 8,5 bilhões, instituição financeira teria inflado patrimônio com ativos podres e contratos falsos

O bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, foi alvo de uma operação da Polícia Federal nesta terça-feira (23), em decorrência de investigações sobre irregularidades no Banco Digimais. O caso traz à tona detalhes revelados em reportagem da revista piauí, assinada pela jornalista Consuelo Dieguez em março de 2026, que expõe uma crise profunda na instituição, cujo rombo estimado chega a 8,5 bilhões de reais.

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A relação de Edir Macedo com o Digimais começou em 2009, quando ele adquiriu 40% do então Banco Renner, aumentando sua participação até assumir o controle total em 2020, quando a instituição foi rebatizada. Sob sua gestão, o bispo nomeou lideranças ligadas à Igreja Universal, como o bispo João Urbaneja, para comandar o banco, apesar da falta de experiência técnica desses nomes no mercado financeiro.

A reportagem da piauí aponta que o Digimais apresenta conexões estreitas com o escândalo do Banco Master, compartilhando os mesmos tipos de ativos e, em alguns casos, os mesmos gestores e administradores. A ID Corretora, que administra alguns fundos do Digimais, possui em seus quadros ex-executivos do Master, e o mercado suspeita que ela tenha absorvido carteiras da Reag, gestora ligada ao Master que foi liquidada pelo Banco Central.

Um mês antes do caso Master explodir, o Banco Digimais foi denunciado ao Banco Central após o fundo de investimento EXP1 relatar ter sido lesado em uma operação de 650 milhões de reais. Segundo a piauí, o fundo adquiriu carteiras de crédito consignado do banco, mas uma auditoria internacional descobriu que 22 mil contratos, no valor de 500 milhões de reais, eram falsos e não possuíam lastro. O Digimais teria admitido a inexistência dos créditos, que eram compostos por ativos originados justamente pelo Banco Master e pela Reag.

As fraudes praticadas por ambos os bancos, conforme detalhado pela reportagem, consistiam primordialmente na inflação artificial do patrimônio para forjar uma solidez financeira que permitisse a emissão desenfreada de novos títulos de dívida, os CDBs. De forma didática, a piauí explica que as instituições utilizavam “ativos podres” — como títulos da Vale da década de 1920 sem valor real ou terrenos superavaliados em mais de dez vezes o preço de mercado — para “maquiar” os balanços e elevar o patrimônio líquido. Com o balanço inflado artificialmente, os bancos podiam captar mais recursos de investidores, muitas vezes oferecendo taxas de retorno muito acima do mercado e utilizando a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como isca para atrair clientes, enquanto negociavam carteiras de crédito fictícias entre si para ocultar rombos bilionários.

Segundo a reportagem, hoje o Digimais é presidido por Aldemir Bendine, ex-presidente da Petrobras e do Banco Central, que foi chamado para tentar reestruturar a instituição, focando em áreas como crédito consignado e financiamento de automóveis. Sua missão principal é “limpar” o balanço do banco para torná-lo atraente para uma possível venda. A piauí aponta que sua nomeação pelo bispo Edir Macedo, que é de extrema-direita, foi vista como um movimento estratégico para negociar a dívida do banco junto ao Banco Central, atualmente presidido por Gabriel Galípolo, que é identificado com a esquerda. Logo após assumir, Bendine tomou a decisão de recusar o estorno de 650 milhões de reais solicitado pelo fundo EXP1, que havia denunciado a compra de carteiras de crédito falsas da instituição.

Outra ligação política feita pela reportagem é com o Partido Republicano, que atua como “braço político da Igreja Universal e de Edir Macedo” no Congresso por meio da bancada evangélica e do Centrão. Sob a presidência do bispo Marcos Pereira, um dos poucos homens de confiança de Macedo, a legenda transforma a crise técnica do Banco Digimais em um complexo dilema para o governo Lula (que busca a reeleição) e o Banco Central, que temem que uma intervenção rigorosa na instituição provoque instabilidade política e prejudique a governabilidade em anos eleitorais. Diante desse cenário, a situação do banco é vista como uma potencial “moeda de troca” política pela revista, uma vez que o apoio do Republicanos – que tem Tarcísio de Freitas em seus quadros – em futuras disputas presidenciais pode ser condicionado ao tratamento dado ao Digimais pelo órgão regulador.

Por fim, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) é apontado pela reportagem da piauí como o órgão que deve arcar com o prejuízo bilionário caso o Banco Digimais venha a quebrar, uma vez que a instituição utilizou a garantia de depósitos de até 250 mil reais como “isca” para atrair clientes para seus CDBs de alto risco. A preocupação do FGC é imediata porque o rombo estimado em 8,5 bilhões de reais ameaça o patrimônio do próprio fundo, que já foi severamente afetado pelo colapso do Banco Master, custando 52 bilhões de reais aos seus cofres. Segundo a fonte, o FGC já dá o prejuízo como certo e propôs um acordo para assumir 70% da dívida, enquanto os 30% restantes seriam cobertos pelo controlador Edir Macedo, que elevou o risco para o fundo ao retirar 2 bilhões de reais da Record que estavam investidos no banco, deixando um passivo de 1,75 bilhão para o FGC pagar em caso de falência.

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